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Documentário mostra riqueza da música tocada nos terreiros de candomblé

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Por Marília Moreira, no Correio 24 horas

A riqueza da música tocada nos terreiros de candomblé de Salvador e sua influência na construção da música popular brasileira são registradas no documentário Orin: Música para os Orixás, que será lançado hoje, a partir das 18h, no Terreiro do Gantois, na Federação.

O filme, dirigido pelo baiano Henrique Duarte, 31, surgiu como um trabalho de conclusão da graduação em Jornalismo na Universidade Federal da Bahia. “Comecei a fazer essa pesquisa em 2014, no final do curso. Sou músico e na faculdade me interessei pela área de documentário”, lembra Duarte. Baixista de banda de rock desde a adolescência, ele começou a olhar com mais atenção para as bases rítmicas da música popular brasileira também há cerca de quatro anos, quando passou a tocar no grupo Tabuleiro Musiquim.

Depois de entrevistar pais de santo, etnomusicólogos, alabês e artistas da cena baiana com a ajuda de amigos e finalizar o trabalho de conclusão de curso, Duarte viu que precisava melhorar o material. “É um tema importante, relevante para nossa cultura. Comecei a inscrever em editais para financiar a gravação de mais cenas, contratar uma equipe e finalizar melhor o material e acabei conseguindo ser aprovado em um da Fundação Gregório de Mattos”, conta Duarte.

Histórias

Para ele, no entanto, o grande trunfo da nova fase do projeto foi ter conhecido o alabê Iuri Passos, 39, professor do projeto social Rum Alagbê, que ensina atabaque a jovens da comunidade do Terreiro do Gantois. “Quando o conheci, me dei conta do que faltava no filme: uma história humana que conduzisse a narrativa. Iuri viaja o mundo, toca com vários artistas, e sempre volta para o terreiro, onde comanda o projeto e também toca nas festas, nos rituais”, ressalta Duarte, que passou a acompanhar as aulas do Rum Alagbê, nas manhãs de sábado.

Para Iuri, é uma satisfação ter parte do seu trabalho enquanto músico e também pesquisador documentado no filme. “A minha participação no documentário vem através do projeto Rum Alagbê mesmo, no qual eu transmito os ritmos da candomblé para a comunidade do Gantois e do entorno. Henrique foi ver uma aula, descobriu que eu estava fazendo um mestrado em etnomusicologia na Ufba relacionado à música de terreiro e pediu pra assistir e gravar a defesa”, conta Passos, que atualmente leciona a disciplina Ritmos Afro-Baianos na Universidade Federal da Bahia.

Outro personagem central para a construção do filme é  Nancy de Sousa Silva, a dona Cici, 76, filha de santo, griô e colaboradora da Fundação Pierre Verger, que lançou em 2015 o livro Cozinhando Histórias: Receitas, Histórias e Mitos de Pratos Afro-Brasileiros. Foi a partir de uma das três entrevistas feitas com ela que surgiu o nome do documentário.

Seguindo o som

“A música no candomblé tem a responsabilidade de manter vivas as tradições, através das cantigas, que em iorubá se diz ‘Orin’. No candomblé tem cantiga para trabalhar, para fazer as oferendas, para as folhas, pra tudo que a gente faz”, diz Dona Cici em um momento do filme.

Orin é o nome iorubá dado às cantigas que fazem a comunicação entre o mundo material e espiritual. “Foi essa simbiose entre a música tocada nos terreiros de candomblé, a mitologia e a dança dos orixás, que me chamou atenção em 2014”, ressalta Duarte, que procurou construir a atmosfera de sons e imagens baseada nessa relação. Para tanto, se inspirou em outros documentários musicais, como o Buena Vista Social Club e Atravessando a Ponte – O Som de Istambul. “Curioso que essas duas referências são produzidas por cineastas que também são músicos”, destaca.

“No candomblé tem cantiga para trabalhar, para fazer as oferendas, para as folhas, para tudo que a gente faz”. Dona Cici foi entrevistada três vezes; a partir de uma das conversas com ela, que surgiu o nome do filme. Foto: Divulgação

Além de Iuri Passos e de Dona Cici, há entrevistas com o músico remanescente do lendário grupo Os Tincoãs Mateus Aleluia, o alabê e percussionista Gabi Guedes, o maestro da Orkestra Rumpilezz Letieres Leite e o cantor e compositor Gerônimo Santana.

“A relação do culto com a música no candomblé é fundamental. Sem a música, sem o canto, sem os toques e sem a dança, o candomblé não existe, sobram apenas os dogmas”, salienta Mateus Aleluia. Assim, os versos e as frases rítmicas, repetidos sucessivamente, quase como um mantra, têm o poder de criar uma ponte entre o mundo físico e o sobrenatural, induzindo ao transe. Nesse sentido, os alabês têm um papel fundamental, uma vez que são os músicos responsáveis pelos toques que convocam os orixás.

Tudo acontece sob as batidas do agogô, ou gã, e três atabaques de diferentes tamanhos chamados rum, rumpi e lé, do maior para o menor, respectivamente. Esses instrumentos fazem soar o toque responsável pela convocação dos deuses. O longa-metragem é composto ainda por imagens captadas em festas dedicadas aos orixás, performances de dança e apresentações ao vivo.

Futuro

Além do lançamento do filme, o Terreiro do Gantois recebe logo mais, a partir das 17h, outros dois importantes eventos. A visita da princesa de Osogbó (Nigéria), Ìyá Adedoyin Talabi Faniyi, que está em missão acadêmica e histórica na Bahia, e a entrega do Plano Museológico do Memorial Mãe Menininha do Gantois, documento fundamental para a consolidação do memorial como instituição museológica.

Orin: Música Para os Orixás  ainda será exibido no Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, na quarta (23), às 10h, na Fundação Pierre Verger, na quinta (24), às 19h, e no Terreiro Ilê Axé Inginoquê Omorossí, no domingo (27), às 16h. Com entrada gratuita e aberto ao público, os eventos têm expectativa de receber 700 pessoas. Após a exibição, haverá um debate sobre a temática, com a presença de participantes do longa.

“Todos esses eventos são, na verdade, uma pré-estreia. Quero inscrever o filme em festivais de cinema e muitos exigem que o material seja inédito. Mas já estamos em negociação com a TVE para, depois dessa fase, eles exibirem o documentário, que espero que chegue ao cinema e também a outras TVs”, resume Henrique Duarte.

Iuri Passos, mentor do projeto social Rum Alagbé, no Terreiro do Gantois. Foto: Divulgação

 

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