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Falar de fé, falar de racismo

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Um pastor – pelo que me falaram de uma igreja importante em São Paulo – usou o perfil dele no Facebook para dizer algo que muitos acreditam, ainda que não digam. Pois ele, um senhor perto dos 80 anos teve a ousadia de fazer uma postagem dizendo que os japoneses, os alemães e os italianos – ele é um descendente de italianos – trabalharam como escravos quando chegaram no Brasil. E que era muito vitimismo dos negros usarem as políticas de cotas – uma política de reparação.

Quem me mostrou a postagem foi um amigo. Para manter a sanidade, meu mundo virtual é uma bolha. O trabalho que faço como coordenadora da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito é um desafio constante em criar repostas para os ataques preconceituosos; por isso me preservo o máximo que posso. Mas, ao ver a postagem do pastor, não deu.

Sou uma mulher preta. Filha de pretos, neta de pretos.

Chegar até aqui, ao lugar em que cheguei só foi possível por saber quem sou e de onde vim. Sou o resultado da luta dos meus ancestrais em manter a vida, ainda que traficados para serem vendidos como mercadorias, sob o açoite no trabalho forçado, com a carne sendo abusada, com a indignidade de viver pária após a pressão internacional para que abolissem a escravidão.

E vem o pastor dizer que eles trabalharam como escravos.

Gritei. Como é necessário gritar quando tentam nos sufocar. Mesmo quando a voz não sai – pois cortaram nossas cordas vocais, é preciso gritar.

Foi necessário expor o pastor. Foi preciso dizer que ele foi desonesto. Foi preciso apontar que a história – que a nossa história é outra. Enquanto os negros eram libertados, saíram sem rumo das senzalas. Os imigrantes que chegaram foram contratados. Recebiam. Ganhavam. Tinham preço.

É esse preço que eu cobro hoje.

Eu, que sou uma mulher preta. Filha de pretos, neta de pretos. Bisneta de pretos.

O pastor, pressionado, apagou a postagem. Não sei se aprendeu, não sei se entendeu a gravidade da questão. Será que ele (de uma igreja pentecostal, é bom que eu diga) conhece os dados, que os crentes brasileiros são pretos, pobres e mulheres? É a pesquisa do IBGE, de 2010, que apresenta os dados. Há oito anos os evangélicos eram 15,4% da população brasileira. Na imensidão desse número, 23 milhões de negros se declararam crentes, sendo desses mais de 14 milhões membros de igrejas pentecostais. Um mundo de gente em um país que vai deixando de ser uma hegemonia católica, para ser um emaranhado de segmentos oriundos do protestantismo.

Essa é a minha batalha. Falar de fé, falar de racismo. Falar de machismo. As mulheres negras escolheram a fé que carrego. É preciso que a prática dessa fé seja aliada na resistência, a mesma resistência que os meus antepassados precisaram ter. É preciso que essa massa de negros – crentes e pobres – não tenha a história diminuída. A fé não pode apagar as marcas do açoite. Não pode abafar os gritos das negras violentadas, nem dos homens humilhados.

Eu, mulher negra, estou aqui para lembrar isso. Todo o tempo. Eu, mãe de filhos negros. É preciso dizer aos pastores, e a quem quiser ouvir, que são os filhos das mulheres negras que estão morrendo. Das mulheres negras e pobres. Que esse é um plano para diminuir a nossa história.

Quando tomba um filho, a mãe morre junto, ainda que viva. Que a fé escolhida por nós não nos enterre respirando, nem nos conduza ao conformismo. Silenciar a nossa dor é uma expressão invisível do machismo, do racismo – e mais do que isso, é compactuar com a morte. Ainda que pastores – e tantos outros crentes – tentem nos aniquilar, a gente olha para Cristo, que veio para que tenhamos vida, e vida com qualidade.

Nilza Valeria Zacarias é jornalista, coordenadora da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito. Mulher negra, feminista. Casada com um pastor batista, que fala de fé, negritude e cultura. Mãe de jovens negros, uma estudante de Direito, um estudante de Medicina – e dona da mais profunda certeza que ao se formarem se formarão com eles, os antepassados que tiveram negado o direito de ler e de estudar.

Fonte br.noticias.yahoo.com

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