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A identidade negra e as correntes neopentecostais são incompatíveis?

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por Pai Rodney  | Carta Capital

questão racial, sobretudo a construção e o fortalecimento da identidade negra, nunca foi uma pauta presente nas igrejas evangélicas, especialmente as neopentecostais.

Ao contrário. A negação ou mesmo a demonização de diversos elementos da cultura africana e afro-brasileira sempre demonstraram uma tendência à incompatibilidade, uma postura conflitante e muitas vezes combativa.

Há uma visão recorrente entre lideranças evangélicas de que a maior discriminação no Brasil não é racial, mas religiosa (e as principais vítimas seriam esses cristãos neopentecostais). Isso significa que, para eles, a suposta intolerância sofrida pelos evangélicos se sobrepõe às questões do racismo.

O desvirtuamento deliberado dos conceitos de liberdade e identidade implica um esvaziamento das definições de racismo e intolerância religiosa, principalmente no que se refere às tradições de matriz africana.

Alguns crentes dizem respeitar a garantia de praticar a fé, mas não têm obrigação de respeitar os deuses, santos nem doutrinas de outras religiões. Assim, se há negros e negras que querem servir a Deus nas igrejas neopentecostais, estes apenas exercem seu direito à liberdade de consciência e de crença.

Um discurso repleto de contradições, pois, embora a identidade negra possa ser construída em outros espaços, muitos se voltam para as religiões de matriz africana buscando justamente esse resgate.

Negros têm o direito de pertencer à religião que bem quiser, a questão não é essa. Um dos pontos que questiono é a negação do racismo e da intolerância contra as religiões de matriz africana. O mais importante é impedir o acesso à reconstrução de uma identidade que passa por valores da cultura africana preservados nos terreiros de candomblé e em outros territórios de resistência.

Exaltar-se como a religião mais negra do Brasil, mas sem um espaço mínimo e verdadeiro para a discussão das questões da negritude, é uma falácia descomunal.

Preconizar que um negro se torna livre quando encontra e aceita Jesus, desconsiderando todos os enfrentamentos socioeconômicos, psicossociais e culturais inerentes à estrutura racista à qual estamos submetidos, só colabora para perpetuar o mito da democracia raciale para que negros e negras sejam mantidos em lugares de subalternidade e, pior, aceitem essa condição como natural.

Esse sentimento de orgulho racial não foi construído na realidade brasileira de forma simples. O processo que se seguiu durante e após a escravidão visou constituir o ser negro como síntese de tudo o que não se deseja.

Vale lembrar o episódio no qual um pastor/deputado teria dito que ser “gay é uma questão de escolha” e ser “negro é uma questão de azar”.

Esse mesmo pastor que definiu os negros como uma raça amaldiçoada e que atribui a miséria da África e dos afro-brasileiros aos ritos “primitivos” e “selvagens”, à feitiçaria, ao culto aos orixás e ancestrais acredita que a única possibilidade de redenção é aceitar Jesus como único e verdadeiro Deus.

Ora, como se constrói numa igreja como essa a consciência sobre o valor e a riqueza cultural dos negros? Como, se tudo que a África negra produziu, segundo o que pregam, é motivo de desgraça, demérito e vergonha?

Há espaço para a valorização da cultura negra quando a opressão não permite a afirmação de uma identidade?

Não nos esqueçamos: o cristianismo, em todas as suas vertentes, é a religião do colonizador, cujos padrões se sobrepuseram a diversas civilizações africanas, ignorando tudo que produziam e não reconhecendo sua humanidade. Mudaram cenários e personagens, mas as tramas continuam as mesmas.

Negar a um povo sua identidade cultural, inferiorizar suas civilizações e seus sistemas de crença, demonizar seus rituais e divindades é o mesmo que contestar sua condição humana. Na base desse processo está o racismo, também manifestado no âmbito religioso por meio de uma de suas faces mais torpes, a intolerância.

O direito à liberdade religiosa é assegurado a todas as crenças, mas tem sido constantemente violado por setores evangélicos quando se trata das tradições de matriz africana. A proporção de adeptos da umbanda e do candomblé, comparada à quantidade de cristãos, é ínfima. Apesar disso, a campanha difamatória empreendida pelos neopentecostais, fomentando o ódio e incitando à violência, dá a impressão de que as religiões afro-brasileiras constituem um inimigo muito poderoso.

Além de ferir princípios básicos de um Estado democrático, essa agressão encontra na estrutura racista da nossa sociedade a anuência que a faz parecer normal ou, como dizem alguns, apenas uma questão de opinião.

Existe conivência porque no fundo há um desejo de apagar esses traços culturais e físicos que causam vergonha à brava gente brasileira.

Aquela avó negra ou bugre só sai do quarto de despejo quando se pode tirar alguma vantagem ou para se ver livre de uma acusação de racismo.

Como bem resumiu Nelson Rodrigues: “Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós o tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite.”

É um fato inegável que, do ponto de vista numérico, o neopentecostalismo se configura como a religião mais negra do Brasil. Por outro lado, não se pode negar que os problemas que afetam o povo negro não se diluem a partir da escolha religiosa.

 




Aceitar Jesus não faz com que um negro seja menos vítima do racismo. Talvez um negro cristão leve alguma vantagem sobre um preto macumbeiro, pois estigmas também se acumulam e são critérios indispensáveis na formulação dos preconceitos.

Contudo, talvez um dia esse povo negro que engrossa as fileiras das igrejas evangélicas não encontre ao redor de si nenhuma referência que lhe permita constituir-se como ser humano. Quem sabe um dia, nesse rebanho de mansidão e bondade, ovelhas negras se insurjam contra tudo que as aviltam e queiram fazer do seu jeito.

Certamente vão descobrir que esse jeito já existe e segue preservado. Sabem aonde? No terreiro de candomblé, onde negros e negras passam a pertencer a um mundo mental diferente (ou seria o seu verdadeiro mundo?).

Essa revolução se faz aos poucos, e já começou. Um contingente ainda pequeno, quase nada comparado aos fenômenos de conversão em massa promovidos pelas igrejas mais espetaculosas e midiáticas. Seus significados são, no entanto, profundos. Tornar-se negro é um processo lento, difícil, mas, uma vez iniciado, não tem volta. Um dia, o gene do ancestral fala mais alto.

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