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A montanha de jovens negros mortos é prova de nosso fracasso como país

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por blog do Sakamoto

Há mais jovens negros mortos por policiais do que em homicídios dolosos no Estado de São Paulo. A informação está presente em estudo da diretora do Fórum Brasileiro de Segurança, Samira Bueno, publicada pela Folha de S.Paulo desta quinta (17).

De 2014 a 2016, 16% dos mortos por policiais tinham menos de 17 anos, o dobro daqueles que eram vítimas de homicídio geral (8%). Além disso, 67% das vítimas fatais de ações policiais eram negras contra 46% do total de assassinadas. O número de mortos pela polícia paulista, em 2017, foi de 943 pessoas – o maior nos últimos 25 anos.

Nas redes sociais, a filosofia de botequim joga na vala comum todos os mortos. São tachados de culpados sem terem direito a um julgamento justo, recebendo pena de morte. Pois, ”se levaram bala da polícia é porque estavam em lugar que gente honesta não frequenta”. Muitos dos autointitulados ”cidadãos de bem” desejam que uma limpeza social seja rápida e silenciosa, a fim de garantir tranquilidade. Porque, pasmem, ele tem horror a cenas de violência.

Em julho do ano passado, reportagem do UOL apontou que nove entre cada dez pessoas mortas pela polícia no Estado do Rio de Janeiro eram negras. O dado foi obtido através da Lei de Acesso à Informação. Organizadas com base em boletins de ocorrência da Polícia Civil, as informações mostraram que, ao menos, 1227 pessoas foram mortas pela força policial entre janeiro de 2016 e março de 2017. Metade delas tinham até 29 anos. A maioria na periferia.

Mesmo diante desses números, o que assusta de verdade é que muitos dos homens, brancos e ricos, moradores de regiões nobres, não conseguem entender por que muita gente pobre no país teme a polícia tanto quanto ou mais do que teme os próprios bandidos. Sem demérito para outras pautas sociais e políticas, essa concentração de mortes seria razão mais do que suficiente para ocuparmos as ruas do país em protesto. Mas morte de jovem negro e pobre não vale o arranhão deixado na caçarola por uma bateção de panelas.

É claro que não há ordens diretas para metralhar todos os jovens negros e pobres da periferia dados pelo comando do poder público. Mas nem precisaria. As forças de segurança em grandes metrópoles, como o Rio ou São Paulo, são treinadas para garantir a qualidade de vida e o patrimônio de quem vive na parte ”cartão postal” das cidades e, ao mesmo tempo, controlar e reprimir os mais pobres.

As batalhas do tráfico sempre aconteceram longe dos olhos da classe alta, uma vez que a imensa maioria dos corpos contabilizados sempre é de jovens, negros, pobres, que se matam na conquista de territórios para venda de drogas, pelas leis do tráfico e pelas mãos da polícia e das milícias. Os mais ricos sentem a violência, mas o que chega neles não é nem de perto o que os mais pobres são obrigados a viver no dia a dia. Considerando que policiais, comunidade e traficantes são de uma mesma origem social e, não raro, da mesma cor de pele, é uma batalha interna. Mortos pelos quais pouca gente fora das comunidades irá prantear.

Policiais envolvidos nessas mortes não são monstros alterados por radiação para serem insensíveis ao ser humano. Não é da natureza da maioria das pessoas que decide vestir farda (por opção ou falta dela) tornar-se violenta. Elas aprendem a agir assim. No cotidiano da instituição a que pertencem (e sua natureza mal resolvida), na formação profissional que tiveram, na superexploração diária que sofrem como trabalhadores e na internalização de sua principal missão: manter a ordem (e o status quo) a qualquer preço. Esse problema não se resolve apenas com aulas de direitos humanos e sim com uma revisão sobre o papel, a estrutura e os métodos da polícia em nossa sociedade.

E, apesar de haver uma grande maioria honesta de policiais (que também são vítimas de estúpidas mortes, em serviço ou fora dele), há setores das corporações que estão impregnados com a ideia de que nada vai mudar. Por isso, é  preciso avançar no debate sobre qual corporação queremos. Não é possível que a polícia atue como se estivesse em guerra contra seu próprio povo, aquele que ela deveria proteger.

Como já disse aqui, ao se criticar as mortes pelas mãos do Estado, não defendemos ”bandido”, mas sim o pacto que os membros da sociedade fizeram entre si para poderem conviver (minimamente) em harmonia. Não entregamos para o poder público a autorização para usar a violência a fim de proteger os cidadãos para que ele a utilize como ferramenta básica de solução de conflitos, muito menos contribua com uma matança de jovens negros. Se for para isso, não precisamos de um Estado, muito menos de governantes.

Túmulo de Ítalo, 10 anos, no Cemitério São Luiz. Ele havia sido morto a tiros pela polícia, que afirma que ele havia furtado um carro com um colega de 11 anos. Foto: Zanone Fraissat/Folhapress

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