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Quilombo Sacopã resiste há 105 anos em meio a prédios e mansões na Lagoa

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Por Lívia Torres, Jorge Soares e Marcos Serra Lima, G1 Rio

Foto – Luiz Sacopã em meio a retratos de família (Foto: Marcos Serra Lima/G1)

e você criar um passarinho durante cinco anos em uma gaiola, se você abrir a porta dessa gaiola, esse pássaro vai sair, vai para o chão. Não sabe como se defender, não tem condições. A mesma coisa fizeram com os meus ancestrais.”

A metáfora é de José Luiz Pinto, mais conhecido como Luiz Sacopã, e explica o motivo de muitos negros preferirem não comemorar a Lei Áurea, que no domingo (13) completa 130 anos. A medida assinada pela Princesa Isabel pôs fim à escravidão no Brasil, mas foi só o início de uma luta que, para ele e seus familiares, nunca acabou.

Aos 76 anos, Luiz é músico e patriarca da sexta geração de uma família descendente de escravos, acostumada a lutar e a resistir. São os moradores do Quilombo Sacopã, pequena comunidade situada em área de 18 mil m² de mata em meio a prédios de luxo e mansões no bairro com o terceiro metro quadrado mais caro do Rio, a Lagoa, na Zona Sul.

“Nós aqui somos 9 famílias, com 32 pessoas. Estamos na sexta geração. Todos temos traços sanguíneos, não tem ninguém de fora. Somos uma comunidade negra, cercada por brancos de todos os lados. Então, ninguém melhor do que eu para entender de racismo.”

A família Pinto ocupa o local há 105 anos. A batalha que começou por liberdade e sobrevivência teve vários outros capítulos ao longo dos anos. Por décadas, eles tentaram junto à União o reconhecimento da propriedade, o que só saiu em 2014.

“Houve a forte remoção nos anos 1960, quando tiraram a maioria dos favelados daqui. Tínhamos que tomar um rumo, porque na época não tínhamos documento. Começamos a bolar uma forma para nossa permanência. Por eu ser o caçula, consegui dar o maior avanço em escolaridade e vim descobrir na Justiça uma coisa chamada usucapião”, lembra.

Para se manter em uma das áreas mais valorizadas da cidade, a família Pinto se agarrou à Constituição de 1988, que garante propriedade aos remanescentes dos quilombos. Há quatro anos, o espaço foi reconhecido pela Fundação Cultural Palmares (FCP). Segundo o órgão do governo federal, em todo Brasil existem 2.465 certificados emitidos para 2.890 comunidades quilombolas; só 29 no Rio.

Especulação imobiliária

Agora, um dos desafios é resistir à especulação imobiliária, que tenta comprar o terreno para erguer mais imóveis luxusos na Rua Sacopã, com vista privilegiada para a Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos mais belos cartões-postais do Rio.

“Eles chegam com dinheiro, com uma oferta imoral, e não querem saber da sua situação judicial. Dizem: Eu dou R$ 2 milhões, e em 90 dias e você sai. O metro quadrado está R$ 16 mil. Um metro! Faz as contas de quanto isso vale”, diz.

Ex-presidente da Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Rio (Acquilerj), Luiz nasceu no quilombo. Ele conta que o espaço foi criado no fim do século 19 por escravos fugidos de Macaé, na Região dos Lagos, e de Friburgo, na Região Serrana.

“Houve uma liberdade, mas sem a dignidade. Essa data [13 de maio] não é festejada pelo povo afrodescendente. Ela é repugnada pela maioria.”

Disputas judiciais

A briga com vizinhos é recorrente. Em 2015, os moradores do quilombo foram proibidos de realizar suas atividades culturais, como as tradicionais rodas de samba e feijoadas. Fonte de renda da família, os eventos já tiveram presença de artistas como Zeca Pagodinho e Beth Carvalho. A proibição se deu depois que vizinhos alegaram perturbação da ordem e muito barulho.

“Como uma medida judicial vai sobrepor a Constituição? Quando a gente faz algum tipo de manifestação, vem logo a polícia para nos silenciar. Eles têm força, poder. E nós temos simplesmente a insistência, persistência e a coragem”, reclama Sacopã.

‘Choviam reclamações’, dizem moradores

Em nota, a Associação dos Moradores da Fonte da Saudade (Amofonte) diz que o quilombo começou a funcionar como uma casa de shows.

“O som se propagava por diversos quarteirões, durante meses a fio, e choviam reclamações dos demais moradores do bairro. Como você pode ver, nada que caracteriza a cultura quilombola. Música a toda, numa área de preservação ambiental, com artistas que podemos ouvir num “gadget”, ou numa casa de shows, infernizando quarteirões de um bairro residencial é algo que não faz o menor sentido. Não se trata de preconceito, mas de bom senso e de entender o entorno de onde se está situado”, diz a Amofonte.

A associação diz ainda que, apesar de o território ter sido reconhecido como quilombo, o local não foi um refúgio de escravos.

“O que é de ciência da nossa associação é que a área hoje ocupada pelo quilombo era de uma empresa privada, pertencente à família Darke Bhering de Mattos por volta dos anos 20 ou 30. Eles lotearam o que hoje são as ruas Sacopã e Vitória Régia, tendo como contrapartida doado o restante da propriedade ao Estado, para fins de preservação da mata. Um funcionário, contratado pelos Mattos, o Sr. Manoel Pinto Júnior, passou a morar no local e seus descendentes permanecem lá até hoje, tendo dado entrada num pedido de usucapião”, diz o texto.

De acordo com o historiador Luiz Antônio Simas, o fim da roda de samba pôs fim a uma tradição carioca. “É uma roda com quase meio século de duração. Mais do que ser um evento de mídia, é um evento consolidado na cultura do samba do Rio de Janeiro”, pontua.

Quilombos

Antes da assinatura da Lei Áurea, os quilombos eram os locais de refúgio dos negros. Com o tempo, o termo foi ganhando novos significados, como explica o historiador.

“Quilombos, tradicionalmente, eram comunidades majoritariamente formadas — mas não apenas — por pessoas escravizadas fugidas. Tinham estruturas econômicas comunitárias, estruturas de poder estabelecidas e relações sociais e de identidade construídas. Com o tempo, o termo quilombo adquiriu outros significados. Hoje designa, sobretudo, espaços de solidariedade que buscam, a partir da identidade étnica, garantir o seu território, consolidando uma história de resistência ancestral e autonomia, garantindo com segurança jurídica o direito à propriedade, rompendo o ciclo de segregação espacial”, conta Simas.

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