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Racismo e paranoia marcam novo filme de Lúcia Murat

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A relação entre elas avança à medida que as sessões de terapia evoluem e expõem o fosso social entre as duas, em trama emoldurada pelas transformações físicas do Rio de Janeiro. O filme marca a primeira experiência com o cinema de gênero da diretora de “Que bom te ver viva” (1989), “Doces poderes” (1996) e “Quase dois irmãos” (2004), entre outros títulos de fundo sociopolítico, muitos deles inspirados pelo contato pessoal da realizadora com a tortura e a perseguição a presos políticos durante a ditadura militar.

Foto: Papel de Glória rendeu troféu de melhor atriz para Grace Passô no Festival do Rio, que também consagrou a direção de Lúcia Murat – Thiago Theo / Divulgação

— O filme conta como o medo do outro leva uma pessoa com as melhores intenções a se transformar em alguém racista e perverso — resume Lucia, prêmio de direção no mesmo Festival do Rio.

Há quanto tempo vem maturando a ideia de um filme sobre paranoia social e racismo?

Há uns 10 ou 15 anos, em um momento bem anterior à criação das UPPs, quando a violência começou a explodir do Rio. Na época, uma amiga psicanalista que coordenava um grupo de apoio a pessoas carentes em uma universidade particular comentou comigo que integrantes do programa, que atendiam pacientes com histórico de violência, começaram a desenvolver paranoias, dentro de um processo de contratransferência. Retomei o assunto anos atrás, após a falência das UPPs como projeto social.

A essa altura, a situação das comunidades já havia se deteriorado muito, não?

Quando a gente saiu em campo para fazer as pesquisas, ainda conseguia subir o Morro da Providência, conversar com os integrantes das ONGs. Mas já naquela época era claro o que estava acontecendo na comunidade. Os sinais de decadência e de violência eram visíveis, a guerra já havia sido declarada. Ao começarmos as filmagens, no primeiro semestre de 2016, já não era possível mais subir o morro: uma semana antes havia morrido gente lá. O pouco que a gente conseguiu rodar lá dentro já foi bastante difícil, envolveu várias negociações.

Entregar o papel da psicanalista a uma atriz portuguesa foi uma imposição da coprodução com Portugal?

Não, foi exatamente o oposto. Pôr uma estrangeira no papel da protagonista é uma opção dramática: ela acirra a sensação de estranhamento e as diferenças culturais entre as duas personagens. Escolhi uma portuguesa por causa da língua e porque seria interessante trabalhar a relação com o ex-colonizador. A partir dessa decisão, procurei a Fado Filmes (coprodutora).

A Praça Paris do título é apenas um lugar ligado a um antepassado da psicanalista.

A Praça Paris, na Glória, é uma metáfora do próprio filme. Minha ideia original era fazer um filme que se passava nos anos 1920 e nos dias de hoje, mostrando como, no início do século passado, quando a referência para o Brasil ainda era a França, o Rio tentava se adotar um modelo parisiense. E agora, neste início de século XXI, novamente se transmutando em uma cidade moderna, cheia de elefantes brancos. É uma cidade que não consegue se assumir.

Você dedica o filme à Uerj, uma das locações da trama, lembrando que ela foi “a primeira universidade brasileira a adotar as cotas sociais”.

A ideia de filmar na Uerj foi proposta pelo Raphael, que havia estudado lá. Glória, a protagonista, trabalha como ascensorista, uma profissão claustrofóbica, e ele achava que a arquitetura da universidade transmitia essa sensação. Quando filmamos, a crise já havia chegado ao campus, mas não com a gravidade em que se encontra hoje, uma instituição fundamental para a cidade e o país a ponto de desaparecer. Usamos vários funcionários terceirizados como figurantes, o que foi bom para eles porque, na época, já não estavam recebendo em dia.

O filme também toca na influência das igrejas neopentecostais nas favelas. Em que momento isso ficou claro?

A força dos evangélicos ficou evidente já em nossas pesquisas. A grande tragédia dessas comunidades carentes é a opção que está sendo dada aos jovens: ou você vira pastor, ou vira traficante. Incluímos essa influência no roteiro, mas muita coisa foi se transformando nas filmagens, tiradas da realidade: os pastores da igreja que a Glória frequenta são pastores de verdade, por exemplo. Meus filmes tentam manter o documental dentro da ficção.

Como “Praça Paris” se encaixa em sua filmografia?

Mais uma vez, a questão da violência e do distanciamento do outro estão no centro de um filme meu. Até parece, de certa maneira, que fico falando a mesma coisa de formas diferentes. Mostrei o roteiro para a minha filha (a também cineasta Julia Murat) e ela disse que era “bem autobiográfico”. Mas é verdade. Por causa de minha experiência com a violência ainda muito jovem, o medo e a paranoia são sentimentos que sinto muito próximos de mim. Estamos vendo no país hoje pessoas amedrontadas começando a fazer coisas terríveis.

Especial para O GLOBO

Fonte O GLOBO
Leia mais: https://oglobo.globo.com/cultura/filmes/racismo-paranoia-marcam-novo-filme-de-lucia-murat-22620487#ixzz5ECJ8vZzn

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