O portal Carnavalesco buscou a opinião de mulheres que compõem a escola de samba Porto da Pedra sobre o polêmico e poderoso enredo de 2026. Marcando o capítulo final de uma trilogia concebida pelo carnavalesco Mauro Quintaes ainda nos anos 90, o desfile promete jogar luz sobre a vida das profissionais do sexo.
A professora e assistente social Sérgia Valéria, de 60 anos, com três carnavais na Porto da Pedra, não poupou elogios à audácia da escola.
“O enredo é maravilhoso porque enaltece e nos faz refletir sobre essa 'puta mulher', essa 'tigresa que mata um leão por dia'. Ela sai para trabalhar e enfrenta tudo. É mãe de família, tem filhos. É irmã, tia. Eu falo com orgulho que sou uma puta de uma mulher. Trabalho, criei dois filhos sozinha”, declarou Sérgia, emocionada.
Para a orientadora social Aldaíza Silva, de 29 anos, o maior problema reside no tabu que ainda cerca a profissão.
“A Porto da Pedra ousa falar de uma profissão que muitas exercem, que garante o sustento de famílias e é parte integrante da nossa sociedade, por mais que ela insista em ser preconceituosa”, pontuou Aldaíza.
Nathália Guimarães, assistente social de 37 anos e em seu sexto desfile pela vermelho e branco de São Gonçalo, destacou a profundidade do tema.
“Eu, como mulher, achei o tema incrível não só pela mensagem de empoderamento histórico, da mulher dona do seu corpo, que o utiliza, desde muito tempo até hoje, para ganho financeiro, mas também pela personalidade guerreira que ela encarna. É um prazer imenso representar minha escola, meu São Gonçalo, meu município, com um tema tão relevante”, afirmou Nathália.
A dançarina e bailarina Pâmela Fernandes, de 28 anos, que completa seu quinto ano na agremiação, fez questão de ressaltar o pesado julgamento social que recai sobre as prostitutas.
“É crucial levantar essa questão para desconstruir todo o preconceito que as pessoas nutrem. É uma profissão que a sociedade precisa, urgentemente, respeitar e parar de julgar”, enfatizou Pâmela.
Sérgia Valéria, com a sabedoria de seus 60 anos, argumentou ainda que a origem dessa profissão está intrinsecamente ligada à demanda masculina.
“A mulher só se encontra nessa posição porque o homem, a sociedade machista, a empurrou para lá. Contudo, hoje ela está muito mais consciente, ciente de seus direitos e de sua força”, declarou.
Apesar da crescente organização dessas trabalhadoras na luta por dignidade, um ponto destacado por Sérgia, o caminho para o pleno reconhecimento de seus direitos ainda se mostra árduo, como detalhou Nathália.
“Essa profissão ainda carece de reconhecimento formal. Assim como eu tenho uma profissão, você tem outra e tantas outras pessoas também têm. O problema fundamental reside aí. Precisamos, sim, insistir que isso é uma profissão legítima, por meio da qual muitas mulheres, inclusive casadas, garantem sua independência financeira, sustentam seus filhos e realizam seus próprios desejos”, ressaltou Nathália, com veemência.
A ausência de registro em carteira, no entanto, não é o único obstáculo enfrentado, conforme apontaram as entrevistadas.
“A maior dificuldade é a forma como a sociedade as encara. Julgam sem sequer tentar compreender o que elas enfrentaram, sem conhecer a história e a dura realidade de cada uma”, refletiu Pâmela.
Sérgia concordou plenamente: “É um desafio diário enfrentar os obstáculos de uma sociedade que não valoriza e, pior, usa o corpo da mulher apenas como objeto de prazer e descarte”.
Com o ousado objetivo de provocar uma profunda reflexão sobre o estigma e a alarmante falta de garantias sociais enfrentadas pelas profissionais do sexo, a Porto da Pedra, sob a genialidade de Mauro Quintaes, promete cantar e encantar, celebrando a força dessas "putas mulheres".
“A escola quebra essa corrente de preconceito e mostra para todo mundo, em forma de samba, que ser profissional do sexo é, sim, uma profissão digna. Viemos mostrar a força do nosso enredo e a inabalável força do tigre de São Gonçalo”, finalizou Aldaíza, com orgulho.
Comentários: