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Dennis de Oliveira: ‘o combate ao racismo deve estar no centro da agenda progressista’

Uma das grandes referências do movimento negro, o jornalista Dennis de Oliveira foi o convidado do evento exclusivo promovido pela Ponte

Dennis de Oliveira: ‘o combate ao racismo deve estar no centro da agenda progressista’
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Lançando a obra Racismo Estrutural: Uma Perspectiva Histórico-crítica, pela Dandara Editora, o professor e jornalista participou de evento exclusivo com os membros do Tamo Junto, programa de apoio à Ponte

Uma das grandes referências do movimento negro, o jornalista Dennis de Oliveira foi o convidado do evento exclusivo promovido pela Ponte para membros do Tamo Junto nesta terça-feira (5/10). Professor associado de Jornalismo na Universidade de São Paulo (USP) e militante da Rede Antirracista Quilombação, ele acaba de lançar o livro Racismo Estrutural: Uma Perspectiva Histórico-crítica, pela Dandara Editora, que discute o racismo para além dos comportamentos preconceituosos.

Nas duas horas de encontro, Dennis destrinchou as raízes da discriminação racial, analisou o papel do jornalismo e o avanço da luta antirracista, além de responder a perguntas de apoiadores e leitores da Ponte. A relação entre comunicação, educação e raça são temas que acompanham o professor na sua vida pessoal e acadêmica.

Ele possui mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação pela USP (Universidade de São Paulo), onde também atua como pesquisador no Instituto de Estudos Avançados e coordena o Centro de Estudos Latino-Americanos de Cultura e Comunicação. É também autor de outros livros como Jornalismo e Emancipação – uma prática jornalística baseada em Paulo Freire (2017) e Jornalismo e os Dilemas na Sociedade da Inflação das Informações (2019).

Para trazer um panorama do enfrentamento ao racismo no Brasil, Dennis lembrou de marcos importantes na história como a Lei Caó, de 1989, que tornou o racismo um crime imprescritível e inafiançável, a Marcha Zumbi, de 1995, e a Conferência de Durban, na África do Sul, promovida pela ONU em 2001.

Ao mesmo tempo, explica que se atribuiu aos movimentos contraculturais, a partir dos anos 60, que também aderiram à luta antirracista, o status de identitário, um erro grave repercutido pela mídia e pela política. “Várias bandeiras da contracultura são absorvidas nessa contrarreforma neoliberal, na restauração conservadora, retirando a dimensão do conflito e da contradição”. Nesta perspectiva, o racismo é tratado como um problema individual e comportamental, retirando sua conexão com a ordem social vigente que os movimentos tentam romper.

O professor aponta que esse pensamento ignora uma realidade que é marcada pela concentração de poder por pessoas brancas e uma hierarquização colonial definida pela raça. No livro, ele mostra como a raça é definidora das divisões de trabalho desde a época colonial na América Latina como um todo e cita o sociólogo Aníbal Quijano, um dos grandes pensadores decoloniais, para falar da chegada da modernidade no continente. A partir da redemocratização do país, Dennis diz que o pensamento antirracista passa a se adequar ao chamado “neoliberalismo progressista”, conceito da filósofa Nancy Fraser.

“As demandas do movimento negro, movimento feminista, movimento anti-LGBTfobia são transformadas em políticas focalizadas, identitárias e com perspectivas para você criar um empoderamento via mercado. O termo empoderamento é muito comum e isso é pensado, nos anos 1980 e 1990 com Bill Clinton, e depois o Fernando Henrique Cardoso incorpora essa ideia, como forma de amenizar e atenuar as consequências negativas da aplicação do receituário neoliberal.”

‘Todo racismo é estrutural’

Ao longo da conversa, o professor também expôs como pensamento do sociólogo Gilberto Freyre reforçou o mito da democracia racial no país, a partir da ideia de privatizar o comportamento. “Quando uma pessoa acusada de racismo responde ‘eu não sou racista, tenho amigo negro, uma amiga negra’, isso é Gilberto Freyre, pois tenho uma relação pessoal equilibrada e tolerante. A ideia de ‘racismo cordial’ é uma contradição absurda e que não existe”.

Esta “cordialidade”, do pensamento de Freyre, também é refutada pelo sociólogo Clóvis Moura, autor de obras como Rebeliões da Senzala: Quilombos, Insurreições, Guerrilhas (1959) e O Negro: de bom escravo a mau cidadão? (1977), da qual Dennis escreveu a orelha na edição mais recente lançada pela Dandara Editora. O professor lembra que o Brasil não é um país feliz e cordial, mas um país intolerante, racista e machista. “Quando falo que o Brasil tem esse retrato, não é pela deformação moral e ética do povo brasileiro, é pela estrutura social que é violenta”.

Dennis defende que, para romper essas estrutura, o país precisa reconhecer seus problemas enraizados, sem banalizá-los. “Em última instância, todo racismo é estrutural. Qualquer comportamento racista é estrutural por si. Quando a gente diz que a violência policial na periferia é produto de uma estrutura, não significa não responsabilizar os agentes de serem punidos. Não é esta a questão. O que colocamos é que isso não é suficiente para acabar com o racismo.”

O racismo e a extrema-direita

Em outro momento do evento, o professor Dennis respondeu aos questionamentos dos leitores sobre a luta antirracista frente a um governo de extrema-direita comandado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e ao avanço de uma agenda neoliberal. “O projeto econômico do governo Bolsonaro, ultraneoliberal, tem como elemento central a brutal depreciação da mão-de-obra, com a reforma trabalhista, previdenciária. O projeto econômico do Paulo Guedes é esse, de precarizar no limite. Ao fazer isso, as tensões sociais se intensificam e a forma de tratar isso é a violência policial, para conter potenciais rebeldias que possam acontecer, e a forma que sustenta é o racismo”, explicou.

FONTE/CRÉDITOS: Ponte
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