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O espetáculo de teatro “O Irôko, a Pedra e o Sol” ganha uma apresentação única, pelo projeto “Luz negra: o negro em estado de representação”, neste sábado (17 de outubro), no Quilombo dos Camarás, que fica no município de Camaragibe/PE (Rua Manoel Bione de Araújo, nº 10 - bairro Vera Cruz). A sessão ocorre às 18h, com entrada gratuita e classificação indicativa livre. 

O projeto “Luz negra: o negro em estado de representação” é realizado por meio do fomento da Fundação Nacional de Artes, entidade vinculada ao Ministério da Cultura do Governo Federal. Neste mês de outubro, o circuito acontece gratuitamente pelos terreiros e quilombos de Pernambuco, que começou com a apresentação do espetáculo “Ombela”, no Ilé Axé Oyá Guerê, no bairro de Santo Amaro (Recife), na última sexta-feira (09/10). “Ombela” também vai ao terreiro da Xambá, no dia 23/10 (sexta-feira), às 19h. 

Além dos espetáculos “Ombela” e “O Irôko, a Pedra e o Sol”, “A Receita” chega ao Ilê Axé Oxum Ipondá, em Olinda, no bairro de Jardim Fragoso. Todas essas produções teatrais autorais e pernambucanas são assinadas pelo grupo e espaço O Poste Soluções Luminosas.  

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Espetáculo teatral pernambucano com a direção do recifense Samuel Santos e que existe desde 2022, “O Irôko, a Pedra e o Sol” une canto, corpo, dança, música, memória, ancestralidade e atualidade, trazendo também um musical com trilha sonora ao vivo e temas como racismo religioso, LGBTfobia, sorofobia e violência contra a mulher. 

“A peça O Irôko, a Pedra e o Sol é baseada na história de uma paciente com HIV, de Itapipoca/CE, sertão do Ceará, em 1990, que foi abandonada pela família no hospital público durante um mês, porém antes de interná-la a vizinhança e os pais em conjunto derrubaram o banheiro que a jovem tinha utilizado, separaram copos e outros objetos e ela foi isolada dentro de um quarto devido ao medo extremo e à desinformação que cercavam a doença na época. O caso ocorreu no período em que o sertão do Ceará ainda tinha pouco acesso às informações sobre as formas de contágio, o que gerava um ‘terror’ social para os pacientes”, explica Samuel Santos. 

A sinopse da peça é apresentada assim: “Na dramaturgia, o texto conta a estória (tradição oral) de amor de dois adolescentes masculinos, Severino e Sebastião, que moram numa pequena comunidade quilombola evangelizada do sertão pernambucano. Os dois jovens depois de serem descobertos por viver um relacionamento amoroso e também um dos jovens ter contraído HIV, e diante da ignorância das pessoas da comunidade por acreditar que tanto o romance dos dois meninos é o início do fim dos tempos. E assim eles são presos e postos numa pequena casa no meio da caatinga com as portas, janelas vedadas e sem telhado, onde só podem olhar para cima para ver apenas o céu”. 

Toda a narrativa se passa numa comunidade quilombola evangelizada do sertão pernambucano. “Essa comunidade sofreu um processo danoso de apagamento das suas raízes ancestrais e age conforme os preceitos ensinados e dentro desses preceitos há a culpa, o inferno para quem comete o pecado e ‘atenta contra as palavras do grande livro’. Dentro desse contexto, surge o amor de dois jovens, onde Exu, no espetáculo, avisa: ‘Dos ancestrais ventres de duas negras, nasceram dois meninos que fugiram às regras’”, conta Samuel. 

A abertura do espetáculo é guiada por uma mensagem do orixá Exu: “Numa pequena cidade, um quilombo colonizado, fizeram das suas crenças algo amaldiçoado, ruim puseram quebranto, disseram que aquilo não era coisa santo, quebraram pejis (altares), cortaram a mão do Pejigã (primeiro ogã do Candomblé), proibiram canto para Ogum, Xangô e Iansã (que são orixás). Os orixás não teriam naquele quilombo mais vez…”, diz a narração original.  

Destaca-se o elenco, com uma formação toda da negritude, periférica e popular, trazendo para as artes cênicas o recorte de identidade racial, além das pautas de gênero e classe social. São 12 pessoas entre mulheres pretas e negras, assim como homens, que atuam, cantam e dançam coletivamente durante duas horas (tempo de duração do espetáculo): Agrinez Melo, Ariel Sobral, Ester Soares, Itioko, Jully, Lucas Ferr, Naná Sodré, Pedro Félix, Sthe Vieira, Talles Ribeiro, Thallis Ítalo e Vanise Souza. Toda essa junção fortalece o encontro de tons e vozes. 

Também tem destaque a trilha sonora tocada ao vivo, reunindo 15 músicas autorais. Todas as letras têm a autoria do próprio diretor Samuel Santos. Já a criação e a produção da composição musical da trilha (melodia e harmonia) levam a assinatura dos artistas locais Beto Xambá e Thulio Xambá, ambos do grupo pernambucano Bongar (autoral e da cultura popular), composto juntamente com Meme Bongar, PH Xambá e Yngrid da Xambá, que são de Pernambuco e estão como musicistas do espetáculo. A Xambá é uma comunidade que fica no bairro de São Benedito, em Olinda/PE. 

Vale dizer que neste ano de 2026 houve três sessões do espetáculo nos seguintes espaços: terreiro Ilê Àse Òrìsànlá Tàlábí (Paulista/PE) e Teatro Hermilo Borba Filho (centro do Recife), com duas apresentações. 

Evangelização nos quilombos

Este fato é mais atual. Em 2023, a Revista Agência Pública, referência no jornalismo investigativo do Brasil, publicou uma reportagem com o seguinte título: “Avanço evangélico ameaça religiões afro em quilombos de Pernambuco”. A matéria escrita pela jornalista Géssica Amorim relata histórias de seu Abel e seu Joaquim Firmo, moradores do quilombo Sítio Bredos, no município de Betânia, no Sertão do Moxotó, em Pernambuco, e de dona Maura Maria da Silva (do quilombo São Caetano). De acordo com a publicação, nessas comunidades as pessoas de religiões de matriz africana foram perdendo espaço. 

“A reportagem explica como as igrejas evangélicas se multiplicaram dentro dos territórios dos quilombos e afetaram diretamente as religiões de matrizes africanas. Em 2025, por exemplo, a Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro) e o Ilê Omolu Oxum (do Rio de Janeiro) lançaram uma pesquisa sobre racismo religioso no Brasil para a realização de um levantamento, entrevistando 255 lideranças religiosas de terreiros em todo o país. 80% confirmou que as pessoas das suas comunidades já tinham sofrido algum tipo de violência, física ou verbal, por racismo religioso”, acrescenta Samuel Santos. 

Música pernambucana 

A trilha sonora da peça teatral une natureza, vida e religião, com canções para o trabalho, o casamento, a caça, o parto e para afastar maus espíritos e homenagear mestras e mestres. A origem é o terreiro, levando como inspiração a Umbanda, o Candomblé, a Jurema Sagrada e a tradição Xambá, além da Nagô. A partir dessas ideias de pertencimento, das referências e das vivências, é criada a sonorização do espetáculo afroancestral e musical, com identidade pernambucana. 

Produção visual

O conjunto de vestuários, trajes e acessórios para o espetáculo é transformado em gesto político de empoderamento, que dialoga com a ancestralidade e a valorização artístico-cultural. A pernambucana Agrinez Melo está à frente da criação do figurino, sendo pensado pela conexão entre o afro-brasileiro e as regiões do continente africano por meio da memória e do atemporal. Toda a produção visual acompanha a história do espetáculo, juntando cortes, texturas, volumes e tonalidades como elementos da dramaturgia, que se renovam ao longo do desdobramento da encenação.

“A concepção vem de referências atemporais de países da África e da relação com estruturas sociais ainda existentes. Em cena, os figurinos têm relação com os corpos, destacando características físicas e psicológicas. Os traços africanos nos tecidos, cores e cortes são sobrepostos por paletós e estruturas rígidas que buscam encobri-los. Origina-se uma sobreposição simbólica: por baixo, o colorido pulsante, enquanto por cima a sobriedade opressora”, diz Agrinez Melo. 

“O IRÔKO, A PEDRA E O SOL” (ESPETÁCULO DE TEATRO)

Data: 17 de outubro de 2026 (sábado)

Local: Quilombo dos Camarás, em Camaragibe/PE (Rua Manoel Bione de Araújo, nº 10 - bairro Vera Cruz)

Horário: 18h 

Entrada: gratuita 

Classificação indicativa: 16 anos de idade