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A justiça climática sofre com desigualdades profundas que ainda não encontram eco nas obrigações formais dos Estados. Lançada em 29 de setembro na sede de Geledés – Instituto da Mulher Negra, em São Paulo, a pesquisa que fundamenta o livro homônimo mapeou 115 documentos globais entre a Eco-92 e 2025. O estudo, conduzido em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), revelou que apenas 23% dos textos citam afrodescendentes e somente 4,35% possuem caráter vinculante.
O levantamento contextualiza como a herança histórica da escravidão molda as vulnerabilidades atuais diante de eventos extremos. A mediação do debate esteve a cargo de Mariana Belmont, líder de Clima e Racismo Ambiental de Geledés. O evento reuniu especialistas como Thaynah Gutierrez e Thiago Amparo, além de representantes do Ministério das Relações Exteriores, discutindo o peso político de cada termo nos acordos internacionais.
Metodologia e os desafios da linguagem
A pesquisadora Odara Gonzaga de Andrade detalhou a estrutura metodológica da análise, dividida em características formais, processos de construção e a incidência de termos raciais. Foram identificados 70 vocábulos distintos associados à dimensão racial. Apesar do aumento na menção a esses grupos nos textos recentes, a falta de força jurídica impede que as recomendações se transformem em deveres concretos para os governos.
Para o pesquisador Thiago Amparo, a disputa em torno das palavras molda o horizonte das políticas públicas possíveis. Já a pesquisadora Lígia Cerqueira destacou que o recorte voltado para as cidades carece totalmente de instrumentos obrigatórios, invisibilizando o debate urbano contemporâneo.
Perspectivas futuras e ação diplomática
O embaixador Maurício Lyrio pontuou a intensa pressão diplomática em torno da inclusão terminológica, classificando a menção inédita aos afrodescendentes em pautas climáticas como um avanço relevante. No mesmo sentido, a embaixadora Claudia de Angelo Barbosa reforçou que a degradação ambiental atinge de maneira desigual grupos historicamente vulneráveis, configurando o chamado racismo ambiental.
O desafio central agora reside em transitar do reconhecimento conceitual para mecanismos efetivos de financiamento, proteção territorial e responsabilização estatal. A atuação de organizações como Geledés busca pressionar fóruns multilaterais — incluindo as próximas conferências da ONU — para que a incidência política resulte em políticas de reparação e decisões vinculantes.
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