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A recente onda de protestos em Portugal por conta do custo de vida e da crise imobiliária colocou o país no mapa das manifestações que varrem a Europa. Em entrevista à RFI, a historiadora Raquel Varela analisou a forte presença da juventude nessas mobilizações e destacou que o continente pode estar diante de um novo ciclo de contestação social impulsionado pela perda do poder de compra.

A ruptura com o isolamento digital

Segundo a especialista Raquel Varela, o movimento atual difere de paralisações tradicionais. Ela enfatiza a participação ativa de jovens que anteriormente viviam isolados nas redes sociais. Para a pesquisadora, as ruas tornaram-se o palco onde essa geração vivencia a democracia de base e constrói seus próprios rituais de consolidação política.

Essa mobilização coletiva representa uma resposta direta às políticas neoliberais consolidadas desde a década de 1980. Ao transferirem seus dilemas pessoais para a esfera pública, os manifestantes passam a responsabilizar diretamente o Estado e a classe política pelas incertezas do futuro.

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Demandas específicas e o papel dos sindicatos

Embora a insatisfação seja generalizada pela Europa, as pautas ganham contornos próprios em cada nação. Enquanto na Alemanha e na Itália as manifestações abordam questões de militarização e guerra, em Portugal o foco principal reside na grave incompatibilidade entre salários e o preço da habitação.

Apesar do clamor das ruas por uma greve geral unificada no continente, Varela aponta a resistência das direções sindicais tradicionais. Na visão da historiadora, muitas dessas estruturas burocratizadas buscam controlar a intensidade das pautas para evitar a perda de espaço diante da organização autônoma dos trabalhadores.

O mito dos brandos costumes

A historiadora também rejeita a ideia de que o povo português seja passivo. Raquel Varela classifica a tese dos brandos costumes como uma construção ideológica do período ditatorial, recordando que a história do país é marcada por revoltas operárias, processos revolucionários e resistência popular urbana.

Diante da forte resposta policial aos atos recentes, a investigadora ressalta que o aumento do aparato repressivo reflete o temor das elites econômicas. Com a inviabilidade financeira enfrentada pela classe trabalhadora, a especialista prevê que novas situações de contestação crítica continuem a emergir no cenário europeu.

FONTE/CRÉDITOS: Vitor Lúcio Andrade