No dia 30 de abril de 2026, a cantora e performer Dandara Modesto e o guitarrista franco-brasileiro Edwin Correia lançam Chama, um álbum que se inscreve no campo das produções afro-diaspóricas contemporâneas ao afirmar a música como território de memória, reinvenção e conexão.

Gravado no Beyond Groove Studio, em Basel, na Suíça, o disco nasce de um princípio simples e potente: registrar o encontro. Sem pós-produção, sem correções, sem filtros, Chama aposta na escuta, na presença e na imperfeição como linguagem. O resultado é uma obra que valoriza o gesto ao vivo e recupera a dimensão coletiva e ritualística da música.

Nesse sentido, o trabalho pode ser lido como um exercício de continuidade cultural. Ao articular referências do samba de roda, da capoeira, das claves afroindígenas e da oralidade, o duo constrói uma sonoridade que não apenas cita tradições, mas as ativa como prática viva. A influência do jazz — especialmente no campo da improvisação — amplia esse vocabulário, criando uma linguagem que se move entre estrutura e liberdade.

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Mais do que uma fusão estética, Chama propõe um pensamento sobre a diáspora. Produzido fora do Brasil, o álbum não se afasta de suas raízes, mas as desloca, revelando como identidades culturais se transformam quando atravessam territórios. Nesse contexto, a obra se aproxima de uma lógica afro-diaspórica em que memória, corpo e som operam como ferramentas de continuidade, mesmo em contextos de deslocamento.

A trajetória de Dandara Modesto, marcada por investigações sobre corpo, espacialidade e ancestralidade, encontra no álbum um campo expandido de expressão. Sua voz não atua apenas como instrumento melódico, mas como presença — um canal que atravessa camadas simbólicas e afetivas. Já Edwin Correia contribui com uma abordagem que transita entre o jazz, o blues e as tradições musicais brasileiras, criando texturas que sustentam e tensionam a narrativa sonora.

Ao longo do disco, essa construção se desdobra em múltiplas direções. “Luz” abre o álbum em um gesto introspectivo, convidando à desaceleração e à escuta interior. “Couro” afirma a força da afro-brasilidade como resistência, enquanto “Forêt” propõe uma travessia poética entre natureza e memória. Em “Corte e Costura”, o amor aparece como processo de reconstrução, refletindo sobre as complexidades dos vínculos.

Na sequência, “Bate Chão” e “Sentir Sentido” exploram a fluidez da existência e a relação entre corpo e transformação. “Asa do Desejo” amplia o campo simbólico ao tratar o amor como força primordial, enquanto “Malícia” evoca o universo da capoeira como espaço de jogo e estratégia. Encerrando o álbum, “Chama” retorna ao coletivo, à roda, à celebração — reafirmando a música como prática de encontro e continuidade.

A participação de Paulo Almeida, na bateria, percussões e voz, reforça essa dimensão comunitária, adicionando camadas rítmicas que dialogam com tradições afro-brasileiras e ampliam o alcance do projeto.

Em um cenário global marcado por deslocamentos e reconfigurações identitárias, Chama se apresenta como uma obra que não apenas atravessa fronteiras, mas também constrói pontes. Um álbum que reafirma a música como espaço de memória ativa, resistência e criação de futuros possíveis a partir das heranças do passado.

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