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“Luz do Túnel”, espetáculo da Flor de Maio Teatro, grupo de artistas mineiras, será apresentado, nos dias 9, sábado, às 20h, e dia 10, domingo, às 19h, no Teatro João Ceschiatti (Av. Afonso Pena, 1537 – Centro, dentro do Palácio das Artes). Inspirada em relatos históricos, memórias familiares e investigações pessoais das atrizes, a obra amplia o olhar sobre o sofrimento psíquico, o preconceito e a intolerância religiosa. Com texto e direção de Dhu Rocha, estrelado por Bárbara Sill e Larissa Ribeiro, produção tem consultoria artística de Rejane Faria, do grupo Quatroloscinco. Mais do que revisitar um capítulo histórico, “Luz do Túnel” atravessa histórias vividas por inúmeras famílias marcadas pelos internamentos psiquiátricos de parentes e pessoas próximas, experiências cujos impactos atravessam gerações e permanecem presentes na memória coletiva. Os ingressos, que podem ser adquiridos no site da Sympla, custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). A classificação indicativa é 14 anos.
No palco, é contada a história de Celeste, que entre as décadas de 1930 e 1940, vê sua vida mudada por uma gravidez e pelo abandono de um grande amor. Sensível ao invisível e considerada inadequada pelos padrões da época, passa a ser alvo das pressões sociais e familiares, que conduzem seu destino a um caminho irreversível. Internada no Hospital Colônia de Barbacena, por meio de suas experiências e olhar, são mostrados para o público a dor do preconceito e a crueldade do abandono. “O espetáculo perpassa a história de nove mulheres, sendo Celeste, que é enviada ao Colônia, a figura central que costura essas narrativas. Acompanhamos um relato histórico e poético que nos leva a refletir sobre saúde mental, institucionalização, intolerância religiosa e posição social da mulher”, diz Bárbara Sill. Com uma linguagem que articula teatro, música e poesia, o espetáculo propõe uma experiência de escuta e empatia, tensionando os limites entre sanidade e exclusão.
“Luz do túnel” parte de pesquisas sobre histórias de mulheres silenciadas ao longo do tempo, especialmente aquelas consideradas inadequadas por uma sociedade marcada pelo preconceito, pela misoginia e pela intolerância religiosa. “Levo ao palco a narrativa de uma mulher que poderia ser tantas outras marcada pelo sofrimento, pela fé e por uma escuta sensível do invisível. Como atriz, pesquisadora e familiar de pessoas em sofrimento mental, encontro neste espetáculo um caminho de memória e reflexão”, afirma Larissa Ribeiro.
O espetáculo convida o público a uma imersão na dor e na luta pela aceitação e dignidade. “A religiosidade de matriz africana também atravessa a encenação como força espiritual, estética e simbólica. Em cena, espiritualidade e resistência caminham juntas, evocando saberes historicamente marginalizados e reafirmando a potência de culturas que sobreviveram ao apagamento”, afirma Bárbara. A Flor de Maio Teatro, por meio deste espetáculo, reafirma seu compromisso com uma cena que investiga a memória, dialoga com urgências sociais e cultiva a sensibilidade como caminho para iluminar transformações e fazer florescer novas perspectivas sobre a nossa história.
Sobre a Flor de Maio
Criada em 2015, na cidade de Itabirito (MG), a Flor de Maio Teatro nasceu do encontro entre artistas movidas pelo desejo de criar obras autorais conectadas com o território, memória e temas sociais contemporâneos. Atualmente formada por mulheres artistas mineiras, o grupo desenvolve uma pesquisa cênica que atravessa teatro, música, poesia e narrativas populares. Ao longo de sua trajetória, o grupo construiu trabalhos pautados pelo afeto, pela criação coletiva e pelo interesse em contar histórias que provocam reflexão e pertencimento.
Sobre o Hospital Colônia Barbacena
Fundado em 12 de outubro de 1903, em Barbacena, o Hospital Colônia é dedicado ao tratamento psiquiátrico. O local fazia parte de um grupo de sete instituições psiquiátricas edificadas na cidade que, segundo alguns, recebeu o epíteto de "Cidade dos Loucos”. O manicômio era formado por dezesseis pavilhões independentes, tendo cada um deles a sua função específica. O Hospital Colônia de Barbacena tornou-se conhecido na década de 1980 por conta do tratamento desumano que oferecia aos pacientes, chegando a ser comparado pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia com campo de concentração nazista. Os pacientes chegavam no espaço em grandes vagões de carga, conhecidos como "trem de doido". Criado para atender 200 leitos, no local se internava cerca de cinco mil pacientes em 1961. Para lá eram enviadas pessoas “não agradáveis", como opositores políticos, prostitutas, homossexuais, mendigos, pessoas sem documentos, entre outros grupos marginalizados na sociedade. Acredita-se que a maior parte dos internos do Hospital Colônia, cerca de 70% dos pacientes, não tinham de doença mental. Nas décadas de 1960 e 1970, calcula-se que morreram cerca de 60 mil pessoas no local, recebendo a alcunha de "Holocausto Brasileiro".
Serviço
Luz do Túnel | Espetáculo da Flor de Maio Teatro
Data: 9, sábado, e 10, domingo, de maio
Horários: sábado às 20h, domingo às 19h
Local: Teatro João Ceschiatti (Av. Afonso Pena, 1537 – Centro, dentro do Palácio das Artes)
Duração: 75 minutos
Classificação etária: 14 anos
Ingressos: R$ 30 (inteira) | R$ 15 (meia)
Publicado por:
Camila de Ávila
Camila de Ávila é mulher preta, jornalista cultural e assessora de imprensa especializada em cultura. Lê e escreve resenhas sobre peças, shows, espetáculos de dança, livros, discos, exposições e rodas de samba.
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