Antirracismo e futebol estiveram no centro das conversas após a Copa do Mundo 2026. Em um texto assinado por Tiago Paraíba, a avaliação é de que a visibilidade conquistada durante o torneio corre o risco de se transformar em uma atuação pontual, concentrada no ritmo dos eventos e da viralização.

O caráter performático da mobilização

Segundo o autor, parte do debate nas redes e na mídia acabou organizando-se como uma demonstração pública de virtude, em que o principal objetivo passou a ser identificar quem estava do “lado certo” da história, mais do que construir respostas duradouras às desigualdades.

Esse formato, aponta o texto, privilegia a velocidade e o gesto simbólico: o algoritmo muda de assunto e boa parte da militância que surge em torno do jogo também muda. O efeito é a fragmentação da agenda e a transformação do tema em marcador de distinção moral, em vez de prática coletiva de transformação.

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Da atenção midiática às políticas públicas

O texto lista áreas que perderam espaço depois da final: violência policial, encarceramento em massa, desigualdade educacional, racismo religioso, acesso ao mercado de trabalho, representação política, titulação de territórios quilombolas, ações afirmativas e financiamento de políticas públicas de igualdade racial. A preocupação é que a energia concentrada no espetáculo não se converta em apoio contínuo a essas pautas.

Também é apontada a omissão diante da criminalização de expressões culturais produzidas pelo povo negro — funk, brega, hip hop, capoeira — e das religiões de matriz africana, que historicamente enfrentaram repressão e estigmatização. Para o autor, defender o antirracismo implica defender o direito à produção cultural, à fé e à identidade.

Estrutura, história e responsabilidades

O argumento central recorre a referências da tradição intelectual e política do país. O sociólogo Clóvis Moura é citado para reafirmar a ideia do racismo como elemento estrutural ligado a formas de organização socioeconômica; Lélia Gonzalez e o conceito de amefricanidade são invocados para destacar dimensões culturais e políticas da resistência e da elaboração política dos povos negros e indígenas nas Américas.

O texto lembra a trajetória do movimento negro brasileiro — menções ao Teatro Experimental do Negro, ao Movimento Negro Unificado, às Marchas Zumbi dos Palmares e à Conferência de Durban — como a origem de reconhecimentos institucionais e de políticas públicas. A crítica é dirigida a quem participa de gestos antirracistas pontuais durante grandes eventos, mas raramente se envolve na defesa permanente dessas conquistas e iniciativas.

O autor conclui apontando que a Copa poderia ter sido um ponto de partida para fortalecer movimentos, ampliar o debate sobre ações afirmativas e consolidar uma agenda antirracista permanente, mas que isso exige abandonar a lógica da performance e assumir compromisso contínuo com organização política e transformação social.

*Texto assinado por Tiago Paraíba. Membro da Executiva Nacional do PSOL, militante da Ação Negra e torcedor do Santa Cruz.

Foto: Divulgação