As renomadas escolas de samba **Beija-Flor** de Nilópolis e Paraíso do **Tuiuti** revelaram, em um evento no Renascença Clube, no Andaraí, seus enredos para o Carnaval 2027, que terão como fio condutor o **protagonismo feminino**. Enredistas como Vivian Pereira, Guilherme Niegro, Claudio Russo e Josyane Almeida participaram dos debates, enfatizando a importância de transformar histórias de mulheres inspiradoras em narrativas centrais na Sapucaí.

Para a **Beija-Flor**, a decisão pelo enredo de 2027 representa um retorno às raízes do Brasil indígena, um território temático já explorado com êxito em desfiles memoráveis. A escola de Nilópolis, que mantém uma conexão profunda com a região Norte e com a figura de Dona Zeneida desde o campeonato de 1998 com “O Mundo Místico dos Caruanas nas Águas do Patu-Anu”, buscou exaltar uma liderança feminina. Esta escolha também reflete a preocupação com o aumento de casos de feminicídio e violência contra a mulher no país.

A intenção da agremiação é abordar a temática sob a perspectiva da resiliência e poder de Dona Zeneida, uma mulher indígena, a última pajé marajoara. Autora do livro “O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó” (1992), obra que serviu de inspiração para o enredo campeão, ela também é reconhecida por seu ativismo, que lhe concedeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade do Estado do Pará (UEPA).

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Vivian Pereira, enredista da Beija-Flor, explicou a visão da escola: “As mulheres têm sido pauta no Brasil devido à violência diária que enfrentam. Nossa intenção não era focar nessa ótica, mas sim na força feminina e em seu poder transformador para a sociedade. Enquanto Tia Ciata, uma mulher negra, utilizou as ferramentas de sua época para pavimentar o caminho do samba, Dona Zeneida representa a potência da mulher amazônica, frequentemente marginalizada nas discussões sociais. Ela, apesar das adversidades e perseguições, converteu suas experiências em uma obra social valiosa para a proteção de meninas e mulheres.”

A presença de Dona Zeneida na trajetória da **Beija-Flor** é constante desde 1998. Guilherme Niegro, também enredista, revela que a pajé manteve sua ligação espiritual com a escola, inclusive visitando o barracão antes do desfile de 2026 para oferecer orientações para um ritual pré-Sapucaí. Esse reencontro foi interpretado pela equipe criativa como um sinal da espiritualidade, solidificando a decisão de homenageá-la.

Guilherme detalhou o enredo: “Nosso objetivo é narrar o reencontro de Dona Zeneida com a Beija-Flor, revisitando ‘Caruanas’ sob uma nova ótica. Vamos explorar sua ancestralidade, desde a infância e sua predestinação como pajé, até sua jornada como mulher guerreira que superou inúmeras adversidades, construindo resistência. O enredo também abordará temas cruciais como a questão ambiental, a educação e a preservação da Amazônia e do Marajó. O ponto alto será a celebração de Dona Zeneida, que receberá as homenagens na Sapucaí em vida, um gesto de reconhecimento fundamental.”

Em São Cristóvão, o Paraíso do **Tuiuti** se prepara para reverenciar a “matriarca do samba”, Tia Ciata. Mãe de santo e quituteira, ela foi uma figura central no acolhimento de sambistas e na efervescência das rodas de samba em sua casa. Este enredo marca a estreia de Renato Lage na escola, contando com o suporte dos pesquisadores Claudio Russo e Luiz Antônio Simas.

Claudio Russo detalhou a relevância de Tia Ciata: “Ela foi pioneira ao vestir a roupa de baiana, com seus apetrechos, para vender quitutes no centro. Essa faceta por si só já renderia um enredo grandioso. Tia Ciata foi fundamental para o samba alcançar seu status atual. Em sua residência, coexistiam samba, choro e macumba. Em momentos de repressão policial, ela astutamente alegava que se tratava de choro, que não era proibido. Essa estratégia, isoladamente, já justificaria um enredo de peso. Hoje, ela é a base para a existência da ala de baianas. Contudo, sua história transcende tudo isso. O público já se encantou por sua trajetória; Tia Ciata é uma referência constante no samba carioca, sempre mencionada. Agora, ela deixa de ser coadjuvante para ter sua história contada e cantada como a verdadeira protagonista de toda essa cultura.”

Compondo um samba campeão

Mantendo sua tradição, o Paraíso do **Tuiuti** optará novamente por um samba-enredo encomendado para 2027, com a autoria de Claudio Russo e Gustavo Clarão, a exemplo de “Quem Tem Medo de Xica Manicongo?”, e com Luiz Antônio Simas em “Lonã Ifá Lukumi” e “Tia Ciata, a Mãe Preta do Samba”. Russo considera a criação de um samba por encomenda mais desafiadora do que uma disputa interna.

“A responsabilidade é exponencialmente maior”, afirmou Russo. “Um erro do compositor na encomenda significa um ano comprometido para a escola, pois o samba é um pilar fundamental do Carnaval. Há uma percepção equivocada de que o compositor encomendado está mais à vontade, mas a realidade é oposta. Em uma disputa, há outras opções; na encomenda, o peso da responsabilidade recai integralmente sobre o autor.”

Em Nilópolis, a **Beija-Flor** iniciará sua disputa de samba em agosto, com uma orientação específica aos compositores: criar um samba em primeira pessoa. O objetivo é que a protagonista narre sua própria história, estabelecendo uma conexão direta com o público.

Guilherme Niegro esclareceu a diretriz: “A sinopse foi concebida em primeira pessoa. Nossa prioridade era que Dona Zeneida contasse sua própria história, como se estivesse em um diálogo íntimo com a comunidade, a escola, o público e o Brasil. A única instrução clara foi essa: que o samba fosse estruturado em primeira pessoa, como se uma mulher estivesse narrando sua própria jornada.”

Sobre os elementos que consagram um samba, Josyane Almeida enfatiza o poder da melodia. Ela cita “Lonã Ifá Lukumi”, samba do Paraíso do **Tuiuti** de 2026, como exemplo de como uma boa melodia é capaz de cativar e envolver o público, superando até mesmo a percepção inicial de dificuldade.

“Acredito que a melodia foi o fator determinante”, avaliou Josyane. “Inicialmente, o samba foi considerado complexo, um ‘trava-língua’. No entanto, mesmo após o Carnaval de 2026, e já projetando o de 2027, ele permanece como o mais executado. Foi a melodia, a ‘pegada’, o ‘molho’ que conquistaram. É impossível ficar indiferente ao samba do Paraíso do Tuiuti de 2026.”

Corroborando essa visão, Claudio Russo defende que a gênese de um grande samba, com potencial para se eternizar nos carnavais, reside fundamentalmente em uma sinopse bem elaborada.

“Não há uma fórmula mágica para criar um samba de qualidade”, ponderou Russo. “Frequentemente, o compositor superestima ou subestima suas próprias criações. Contudo, o pilar essencial para um samba grandioso é, sem dúvida, um enredo robusto. E, além de um enredo forte, é imprescindível uma narrativa cativante, expressa pela sinopse. Via de regra, grandes enredos e sinopses bem construídas dão origem a grandes sambas. É raro encontrar um samba memorável que não tenha emergido de um enredo impactante. Embora não haja uma receita exata, a tríade enredo, narrativa e sinopse é o alicerce para a criação de um samba que marca a história.”

FONTE/CRÉDITOS: Colaboração Carnavalesco