A luta das mulheres contra a violência e o preconceito ganha força no Brasil e no mundo quando relatos pessoais de trauma se convertem em ação política e conquistas jurídicas históricas. Em eventos recentes, trajetórias marcantes como as de Angela Davis, Inês Etienne Romeu e Maria da Penha exemplificam como a denúncia de abusos abre caminhos para transformações sociais permanentes e punição de criminosos.

Durante sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a filósofa e ativista estadunidense Angela Davis destacou o conceito de "escrevivência", formulado pela autora brasileira Conceição Evaristo. Essa ideia defende a criação literária baseada na vivência do próprio autor. Para a pensadora, a obra de intelectuais negros carrega potencial universal, capaz de ressoar em todas as sociedades.

A própria história de Davis reflete essa premissa. Detida três vezes no início da década de 1970 pelo FBI sob acusações infundadas relacionadas ao movimento Panteras Negras, a intelectual ressaltou que o tempo na prisão redefiniu sua trajetória acadêmica. A partir dessa dor, ela se consolidou como uma das maiores referências globais do abolicionismo penal.

Publicidade

Leia Também:

Mobilização internacional e solidariedade

A solidariedade internacional recebida por Angela Davis durante seu encarceramento consolidou sua convicção no poder da sociedade civil organizada. Décadas mais tarde, a ativista uniu sua voz à busca de justiça por Marielle Franco e Anderson Gomes, executados no Rio de Janeiro em 2018, um crime cujos mandantes e executores levaram quase oito anos para serem condenados.

A força do testemunho individual também marcou a História do Brasil na figura de Inês Etienne Romeu, única sobrevivente do centro clandestino de tortura conhecido como Casa da Morte, em Petrópolis. Mesmo após décadas de impunidade, a Justiça Federal condenou em segunda instância o ex-sargento Antonio Waneir Pinheiro Lima pelos crimes de sequestro qualificado e estupros cometidos contra a estudante durante a ditadura militar.

A condenação fixou a pena do acusado em quase 13 anos de reclusão, reconhecendo os atos como crimes contra a humanidade. Dessa forma, a punição impediu a aplicação da Lei da Anistia e a prescrição do caso. O veredito, ocorrido 55 anos após as torturas, trouxe reparação simbólica e histórica às mulheres aviltadas pelo regime autoritário.

Avanços na legislação e no Judiciário

Outro marco divisor de águas é a trajetória de Maria da Penha Maia Fernandes. Após sobreviver a tentativas de feminicídio e enfrentar anos de omissão estatal, sua denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos resultou na criação da Lei Maria da Penha. Ao completar 20 anos, o texto legal segue fundamental para conceituar formas de violência e proteger brasileiras.

A busca por responsabilização alcança hoje até as altas esferas do Poder Judiciário. Recentemente, duas mulheres viabilizaram a condenação do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Marco Buzzi, punido por acusações de assédio e importunação sexual. O caso reforça a urgência do combate aos crimes sexuais no país.

FONTE/CRÉDITOS: Thays Andrade