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O que aconteceria se o nosso corpo fosse um circo, onde cada órgão ganhasse vida como um artista e as batidas do coração ditassem o ritmo do maior espetáculo da Terra? É a partir dessa ideia inicial de um raciocínio que surge “Maria Preta – Ou a Incrível História da Menina que Entrou no seu Próprio Corpo e Descobriu que Dentro Dela é um Circo". Baseado no livro de mesmo nome, lançado pelo pernambucano Samuel Santos, O Poste Soluções Luminosas apresenta o primeiro espetáculo de teatro infantojuvenil “Maria Preta”, estreando a temporada com seis apresentações durante o mês de novembro, nos dias 07, 08, 14, 15, 21 e 22, sempre aos sábados, às 16h, e aos domingos, às 15h, no Espaço O Poste (Rua do Riachuelo, nº 641 - bairro da Boa Vista, centro do Recife), com entrada gratuita, classificação indicativa livre e duração de 1h06 minutos.
A sinopse, também conhecida como texto de abertura, que acompanha Maria Preta, diz “uma menina negra, filha de artistas circenses, que nasce com um sopro no coração. Durante um episódio de parada cardíaca, ela mergulha em si mesma e descobre que seu interior é um picadeiro extraordinário. Unindo humor, poesia e musicalidade, a jornada lúdica apresenta dois Rins palhaços que comandam as gargalhadas, o Estômago cozinheiro, duas Amígdalas equilibristas e um Fígado mágico. Entre números circenses, canções, tiradas cômicas e descobertas profundas, cada personagem aponta caminhos líricos para que a menina reencontre o compasso de seu coração através de sua ancestralidade. Maria Preta habita um território de afeto, arte e imaginação”.
Autoral e com trilha sonora ao vivo de matriz ancestral, a inédita peça teatral pernambucana para as infâncias e juventudes contribui para o universo das artes cênicas a partir de uma história e uma montagem que transformam o corpo humano em um lugar central e circular. Vale explicar que o picadeiro é justamente onde artistas circenses, como palhaços, acrobatas e malabaristas, fazem suas exibições e espetáculos.
Além disso, toda a narrativa é potencializada pela atuação coletiva do elenco de artistas da cultura negra e afro-indígena do Núcleo O Postinho, com Cecília Chá (protagonista Maria Preta), Larissa Lira (Médico, Amígdalas e Estômago), Sthe Vieira (Mãe, Rim e Amígdala) e Thallis Ítalo (Pai, Rim e Fígado). Em cena, tocam, cantam, dançam, realizam palhaçaria negraíndia e acrobacias e representam a vida de diferentes personagens ao mesmo tempo. Ou seja, atuam em diversas funções. Esse mesmo conjunto de artistas, unindo aprendizado e prática, assina o espetáculo “Awon Irugbin” como produção pernambucana autoral para as juventudes e novas gerações.
“Sabemos por que existe uma história tão potente em ‘Maria Preta’. Temos o protagonismo positivo de colocar uma menina negra como a heroína de sua própria jornada de cura e autodescoberta e a pedagogia afetiva de ensinar as funções biológicas do corpo humano sem parecer uma aula chata de ciências. Trazemos a pauta do acolhimento da enfermidade, por meio da voz e representatividade dessas crianças que lidam com condições crônicas de saúde desde cedo, e a poesia, diante da morte, transforma o momento em quase-morte (a parada cardíaca) e consequentemente passa a ser um sonho vibrante e cheio de vida, ajudando o público infantojuvenil a encarar a fragilidade da vida sem traumas”, destaca Samuel Santos, natural do Recife e morador do Alto José Bonifácio, comunidade recifense.
É importante dizer que o elenco do Núcleo O Postinho fez preparações técnicas e de matriz ancestral com referências das artes cênicas e tradicionais locais e do Nordeste. Essas atividades e vivências foram realizadas por temáticas: “Palhaçaria Negraíndia e de Terreiro” (por Raquel Franco, artista maranhense radicada em Pernambuco); “Musicalidade e Percussão” (com o pernambucano Thúlio Xambá); “Corpo e Acrobacia” (facilitação de Rob Silva, pesquisador e integrante do Circo Experimental Negro (CEN)); e “Potência Vocal” (assinada por Naná Sodré, co-fundadora do próprio Grupo O Poste).
Criado em 2023 pelo Grupo O Poste, o Núcleo O Postinho tem o objetivo de formar jovens das periferias do Recife e da Região Metropolitana, trazendo também os recortes de identidade racial, gênero, classe social, pertencimento, representatividade e juventude.
“Para dar vida a esse universo de realismo fantástico, houve encontros formativos que somaram justamente pela diversidade de temas, como encantamento dos brincantes e as referências do Cavalo Marinho para a construção do riso ancestral, preparação musical com elenco criando uma trilha original com alfaias, pandeiros, bombos e agogôs, até porque todo o elenco toca e canta inteiramente ao vivo na cena. Também um treinamento de rolamentos, equilíbrio e acrobacias e toda a atividade de preparação vocal, valorizando os conceitos de voz em movimento e criativa e a potência para a cena”, acrescenta Samuel.
A realização e a produção são assinadas coletivamente pelo Grupo O Poste Soluções Luminosas e Núcleo O Postinho. A temporada é fruto do projeto “Luz negra: o negro em estado de representação”, por meio Programa Funarte de Apoio a Ações Continuadas 2025 – Teatro, iniciativa da Fundação Nacional de Artes (Funarte) e do Ministério da Cultura (MinC) com o intuito de fortalecer redes de criação e circulação artística no país.
A ideia de Maria Preta como protagonista surge de um diálogo direto com a provocação histórica do artista Gilberto Gil ao relembrar os questionamentos que enfrentou no cartório ao registrar sua filha, Preta Gil: "Se registrar Branca, Bianca ou Clara pode, por que não Preta?".
“Transformá-la em nome próprio e dar título à obra é um ato de fomento ao pertencimento, à identidade e à dignidade histórica. A existência da personagem colabora para uma quebra fundamental dos estereótipos de vulnerabilidade, além de que Maria Preta vive num território de afeto, arte e imaginação”, explica.
Também é válido lembrar que em 2025 Samuel Santos lançou o livro “Maria Preta ou A incrível história da menina que entrou no seu próprio corpo e descobriu que dentro dela é um circo”, com uma leitura dramatizada feita pelo Núcleo O Postinho. A obra literária autoral busca inspirar a literatura infantojuvenil para jovens das novas e futuras gerações, sobretudo das periferias. A leitura é composta por reflexões empoderadas, de identidade e pertencimento sobre a reparação das feridas do racismo desde a primeira infância, incluindo a criança negra como destaque da transformação social. Saúde, cultura negra e ancestralidade são referências que caminham juntas por toda a história de Maria Preta, existindo um elo entre as temáticas.
O Picadeiro Interno de Maria Preta
Os Rins são dois palhaços incompreendidos, chateados com o trocadilho de que são "ruinzinhos". Já o Estômago é representado por um cozinheiro bufão que sofre com as próprias dores (uma analogia para a digestão e a gastrite). As Amígdalas trazem duas cantoras e equilibristas histriônicas que dão show no "céu da boca". O Fígado é o grande mágico e apresentador do circo, responsável pelas transformações químicas do corpo, enquanto o Coração, objetivo final da saga, é o tambor principal que dita o ritmo da vida da menina.
Retorno à produção infantil
Com mais de 37 anos de carreira artístico-cultural no teatro pernambucano, Samuel Santos retorna à produção infantil depois de 13 anos. Em “Maria Preta”, ele assina o texto inédito, a direção e a criação de luz, cenário e figurinos. Como diretor teatral, tem conquistas e reconhecimento pelas premiações com espetáculos infantis, como “A Terra dos Meninos Pelados” (2002), “O Amor do Galo pela Galinha D’Água” (2006), e “Historinhas de Dentro” (2008). Já “O Menino da Gaiola” foi a última peça infantil dirigida pelo pernambucano, em 2013.
"O espetáculo ‘Maria Preta’ chega para coroar essa trajetória coletiva das pessoas que fazem O Poste Soluções Luminosas como a primeira produção totalmente voltada para o público infantil do grupo. Trabalhamos com a ideia do jogo lúdico e das brincadeiras, onde tudo no palco se transforma por meio do encantamento. As cenas são pequenos quadros construídos sem o compromisso com o real, mas guiados pela poesia e pela magia. Teatro é jogo, e jogo é liberdade de ser, ter e zelar", afirma.
Samuel Santos reúne diversas vivências artístico-culturais como diretor, roteirista, ator, produtor, professor e arte-educador de oficinas e formações de teatro e dramaturgia etc. Ele é um dos responsáveis pelo grupo teatral recifense O Poste Soluções Luminosas, além de artista que lidera o espaço há mais de 20 anos.
Territórios
Já preparado para a continuidade, o espetáculo “Maria Preta” também vai ser apresentado nos quilombos, terreiros e diversos espaços artístico-culturais da RMR e do interior do estado. Em novembro, chega ao Terreiro de Salinas (município de São José da Coroa Grande, Litoral Sul de Pernambuco), no dia 27/11 (sexta-feira), e ao Quilombo Xambá, em Olinda, no dia 29/11 (domingo).
Espetáculo de teatro infantojuvenil “Maria Preta – Ou a Incrível História da Menina que Entrou no seu Próprio Corpo e Descobriu que Dentro Dela é um Circo" (2026) - confira a temporada
Datas: 7, 8, 14, 15, 21 e 22 de novembro (sábados e domingos)
Local: Espaço O Poste (Rua do Riachuelo, nº 641 - bairro da Boa Vista, centro do Recife)
Horário: 16h (sábado) e 15h (domingo)
Entrada: gratuita (sujeito à lotação para 30 pessoas por sessão)
Classificação indicativa: livre
Duração: 1h06 minutos
Ficha técnica
Texto, direção, criação de luz, cenário e figurinos: Samuel Santos
Elenco: Cecília Chá, Larissa Lira, Sthe Vieira e Thallis Ítalo (Núcleo O Postinho - juventude)
Execução da luz: Cacau Andrade
Fotografias: Henrique FT
Preparações técnicas: Raquel Franco (palhaçaria), Thúlio Xambá (percussão), Rob Silva (corpórea/circense) e Naná Sodré (vocal)
Realização e produção: Grupo O Poste Soluções Luminosas e Núcleo O Postinho
Publicado por:
Daniel Lima
Comunicador social & jornalista. De Caruaru/PE, criado no Recife. Atua com assessoria de imprensa artístico-cultural e atualmente é assessor de imprensa/mídias sociais do Coco Raízes de Arcoverde/PE.
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