No dia 18 de agosto, sexta-feira, estreia o espetáculo "Otelo, o Outro" na Sala Jardel Filho do Centro Cultural São Paulo, às 20 horas, com ingressos gratuitos. A montagem é uma releitura do clássico "Otelo, o Mouro de Veneza", de William Shakespeare, com encenação por Miguel Rocha e dramaturgia de Israel Neto, Joaci Pereira Furtado e Kenan Bernardes.

A peça parte do protagonista da tragédia shakespeariana para refletir poeticamente sobre a identidade do sujeito negro em diáspora. A jornada interna de Otêlo se desdobra em um mergulho no autodescobrimento, encontrando outros dois "Otelos" que o habitam e o conduzem por caminhos intrincados e dolorosos. A história passa necessariamente por Desdêmona, mas explora outras facetas, abordando ambiguidades e aporias da memória e da identidade afrodiaspóricas, marcadas pelo deslocamento social e cultural.

A releitura brasileira não trata apenas da inadequação moral e emocional do personagem, mas coloca em foco o confronto entre duas culturas inconciliáveis, interdependentes e desiguais. A entrega incondicional de Otêlo ao sistema de valores e comportamentos que o estigmatizam como "o mouro", enquanto este se utiliza dele, é a metáfora do deslocamento que o separa irrevogavelmente do "Ocidente" que almeja incorporar. A consciência dividida de Otêlo revela a origem do conflito que o atormenta e a perversidade da adesão inconsciente do homem negro ao papel que lhe é imposto.

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A montagem apresenta alter egos de Otêlo que trazem verdades incômodas extraídas de histórias reais de homens negros contemporâneos ou do discurso sutil do racismo. Esses personagens refletem sobre ações, atitudes e o espaço do sujeito negro no mundo. A encenação busca ampliar o discurso pela dramaturgia da cena, explorando imagens, ações e movimentos do corpo no espaço.

A peça traça uma ponte entre a tragédia original e a experiência contemporânea de negros e negras, que buscam se lembrar de suas origens apagadas pela história e cultura, em uma jornada para "tornarem-se negros" novamente. Sob o pensamento de Frantz Fanon, Otêlo se expõe à ruptura com o discurso que o inventa como "homem negro", ao mesmo tempo em que recusa qualquer forma de tutela de sua consciência, incluindo aquela que nega até o direito de odiar.

Foto: Divulgação

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