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As eleições presidenciais de 2026 no Brasil se aproximam, mas os planos de governo dos candidatos ao Palácio do Planalto demonstram uma preocupante lacuna na abordagem do racismo ambiental. Mesmo diante de recordes de eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas e enchentes, a emergência climática permanece à margem do debate eleitoral.
Quando o tema é tangenciado nos documentos protocolados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), raramente há um recorte explícito de raça ou gênero, ignorando o impacto desproporcional em populações vulneráveis.
Essa omissão não é um detalhe irrelevante. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 63% dos lares abaixo da linha da pobreza, chefiados por uma única pessoa com filhos, são liderados por mulheres negras em periferias.
São essas mulheres as mais afetadas por enchentes, altas temperaturas e pela ausência de saneamento básico em cenários de clima extremo. Contudo, a conexão vital entre justiça climática, raça e gênero é raramente articulada nas intenções programáticas dos presidenciáveis.
Análises sobre meio ambiente e clima nos planos de governo
Uma análise comparativa da Política Por Inteiro, divulgada em agosto de 2026, examinou seis planos de governo: Lula (PT), Ronaldo Caiado (PSD), Flávio Bolsonaro (PL), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e Hertz Dias (PSTU).
O estudo focou em transição energética, mineração, adaptação climática e uso da terra. Um achado central foi a completa ausência do termo "racismo ambiental" de forma explícita em qualquer um dos planos analisados.
Lula e Ronaldo Caiado apresentaram as formulações climáticas mais abrangentes, integrando a política de clima a outras agendas governamentais. Lula reafirma o compromisso com a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira até 2035.
Seu plano propõe a criação de um Plano Nacional de Adaptação, além de planos estaduais e municipais para eventos climáticos extremos. A infraestrutura verde e o risco climático seriam variáveis obrigatórias no planejamento energético.
Em contraste, o programa de Flávio Bolsonaro não menciona a mudança do clima como causa de eventos extremos ou fator relevante para um novo governo. O candidato reforçou o negacionismo climático em entrevista ao Jornal Nacional em 28 de agosto.
Hertz Dias reconhece a seriedade da crise climática e a iminente falha das metas do Acordo de Paris, mas não detalha instrumentos de política coordenada. Renan Santos restringe a instabilidade climática apenas ao setor agropecuário.
Romeu Zema, por sua vez, reconhece os extremos climáticos, mas os trata como uma questão de gestão de risco, e não de política climática robusta.
Uma segunda análise, divulgada pelo Observatório do Clima em 10 de setembro de 2026, corroborou essas lacunas. O levantamento avaliou os planos de seis presidenciáveis em 28 itens de oito eixos socioambientais.
Foram identificados 16 compromissos positivos no programa de Lula, enquanto o de Flávio Bolsonaro apresentou apenas um, somando ainda sete propostas classificadas como antiambientais.
Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas da entidade, afirmou que os planos dos demais candidatos são consideravelmente mais frágeis que o de Lula na agenda ambiental, com alguns sendo classificados como inaceitáveis pela organização.
O estudo confirmou que os planos de Caiado e Zema não abordam justiça climática ou racismo ambiental. O programa de Renan Santos sequer cita a agenda climática.
Adicionalmente, a gestão de Zema em Minas Gerais reduziu em 96% os recursos para prevenção de impactos das chuvas entre 2023 e 2025, evidenciando um padrão de omissão em frentes que afetam diretamente populações vulneráveis.
As maiores distinções para o debate racial surgem no tratamento do uso da terra e dos territórios indígenas e quilombolas. Lula e Caiado adotam uma abordagem territorial com foco na proteção da vegetação nativa, unidades de conservação e bioeconomia.
Entretanto, eles divergem em um ponto crucial: Lula mantém a demarcação de terras indígenas como compromisso explícito, enquanto Caiado o remove de seu texto programático.
Caiado defende que qualquer consulta a comunidades deve seguir a Constituição, sem "tutela que impeça autonomia nas decisões" sobre exploração econômica. Flávio Bolsonaro e Romeu Zema compartilham essa posição.
Renan Santos vai além, propondo um marco legal para viabilizar a exploração mineral controlada em terras indígenas, o que pode agravar o racismo ambiental nesses territórios.
Na contramão, o PSTU é o único, entre os seis partidos, a associar a agenda ambiental à demarcação e titulação quilombola como compromissos fundamentais em seu plano de governo.
Esta formulação é a que mais se aproxima do vocabulário de combate ao racismo ambiental defendido por movimentos negros e indígenas, embora sem detalhar instrumentos de implementação.
Sobre o desmatamento, quase todos os planos convergem no discurso de combate. Flávio Bolsonaro promete erradicá-lo até 2029, Lula até 2030, e Zema não estabelece um prazo.
As lógicas, porém, são distintas: Lula o trata como parte de uma política territorial ampla, ligada a povos indígenas e comunidades tradicionais. Bolsonaro e Zema o enquadram como questão de segurança pública e fiscalização por satélite. Renan Santos é o único a não citar o desmatamento como problema.
O que os movimentos sociais demandam
Enquanto os planos de governo separam as agendas de raça, gênero e clima, organizações da sociedade civil pressionam por uma integração. O Observatório do Clima, em seu documento "Propostas para a Política Ambiental Brasileira" (2026), dedicou um capítulo à "Justiça Climática, Racismo Ambiental e Direitos Humanos".
O documento recomenda que recursos de adaptação climática considerem raça, gênero e território, propondo conselhos locais de justiça climática com participação de mulheres negras, quilombolas e indígenas.
A discrepância entre as demandas dos movimentos sociais e as propostas governamentais não surpreende. Políticas públicas frequentemente compartimentalizam raça, gênero e meio ambiente, mesmo quando dados científicos e oficiais mostram a intersecção desses eixos.
Essa intersecção afeta diretamente os corpos e territórios daqueles que sofrem primeiro e mais intensamente os efeitos das mudanças climáticas.
O fato de nenhum plano analisar explicitamente o "racismo ambiental" como algo a ser combatido por políticas de Estado evidencia a profundidade desse abismo no debate público, apesar da pressão social.
A Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) nº 26.916/2025, aprovada em 3 de dezembro de 2025, é um avanço.
Ela estabelece princípios e diretrizes para incorporar a justiça climática e o combate ao racismo ambiental nas políticas e ações ambientais, prevendo até o letramento racial e de gênero de agentes públicos. Contudo, o tema ainda enfrenta resistência nos espaços de produção política.
Os planos de governo completos dos candidatos estão disponíveis para consulta pública no sistema DivulgaCandContas do TSE. É fundamental que os eleitores leiam, diferenciem propostas e cobrem do presidente eleito compromissos com políticas públicas que protejam toda a população.
Mariana Belmont é jornalista, nascida em Parelheiros (extremo sul da cidade de São Paulo), trabalha com articulação e comunicação para políticas públicas. Atuou em cargos no governo sobre questões ambientais e de habitação na Prefeitura da cidade de São Paulo. Trabalhou como coordenadora de comunicação e articulação do Mosaico Bocaina de Áreas Protegidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Foi Superintendente de Programas e Diretora de Clima e Cidade no Instituto de Referência Negra Peregum. Foi colunista do UOL e agora escreve mensalmente para a Gênero e Número. Também é ativista, parte de movimentos ambientalistas e periféricos. Recentemente foi editora convidada da Revista "Diálogos Socioambientais: Racismo Ambiental" da Universidade Federal do ABCD. É organizadora do livro “Racismo Ambiental e Emergências Climáticas no Brasil” (Oralituras, 2023). Atualmente é Assessora sobre Clima e Racismo Ambiental de Geledés – Instituto da Mulher Negra.
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