No encerramento do Seminário Nacional das Rodas de Samba, o debate central focou na imprescindibilidade de políticas públicas robustas e maior reconhecimento para as rodas de samba em todo o Brasil. Especialistas, sambistas e gestores culturais reuniram-se para discutir estratégias de controle e participação social que possam auxiliar no mapeamento e na sustentabilidade desses importantes espaços culturais. A discussão ressaltou a urgência de apoio institucional para a preservação e o fomento dessa manifestação artística.

O sambista baiano Thiago Carvalho, por exemplo, ilustrou a complexa realidade enfrentada pelos blocos de carnaval em Salvador. Ele destacou a escassez de patrocínio da iniciativa privada, que obriga esses grupos a dependerem quase exclusivamente de leis de incentivo e do suporte governamental, como o do Governo do Estado da Bahia.

Carvalho enfatizou a disparidade na distribuição de recursos, afirmando que “as grandes marcas que podem patrocinar não querem ter as suas marcas vinculadas a projetos que são voltados para o povo preto periférico”. Essa dificuldade persiste mesmo para grupos tradicionais dos bairros afro-brasileiros da Bahia, como Ilê, Mudança do Garcia e Velha Guarda, que mantêm uma luta contínua pela sobrevivência, dependendo majoritariamente do financiamento público.

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Incentivo e mapeamento de espaços

Em outra frente, Anderson Lins, analista técnico do Senai RJ, apresentou os esforços da instituição para impulsionar as rodas de samba. Ele detalhou o desenvolvimento de um plano que visa analisar esses movimentos e forjar parcerias estratégicas, garantindo a criação de espaços dedicados à sua realização.

Lins mencionou que o Senai RJ já possui 14 unidades com uma categoria específica para Rodas de Samba, com potencial para expandir para 30. Ele sublinhou que a sustentabilidade desses grupos artísticos vai além dos músicos, envolvendo articuladores e profissionais cruciais que viabilizam sua existência e atuam na formulação de políticas culturais.

Samba como tecnologia de sobrevivência

Wanderson Luna, diretor da Rede Nacional das Rodas de Samba, reforçou a identidade do samba como um pilar da cultura brasileira. Ele salientou que o samba representa “a tecnologia que o nosso povo inventou para poder sobreviver, para poder ter espaço numa sociedade que muitas vezes nos excluiu”.

Luna fez um apelo por maior atenção das autoridades públicas, ressaltando a importância histórica e social do samba. “O samba também é entretenimento, a gente precisa ganhar dinheiro, precisa viver da arte, mas tem que ter a responsabilidade de entender a sua importância histórica e social”, disse, enfatizando o legado daqueles que lutaram para que o samba pudesse prosperar.

Organização espontânea não é desculpa para falta de apoio

A cantora Marina Íris, por sua vez, criticou o uso da capacidade de organização espontânea do samba como justificativa para a falta de apoio. “Sim, a gente sabe se virar sozinha, mas não pode e não merece se virar sozinha”, afirmou, destacando que a natureza agregadora do samba não deve ser explorada para minimizar a necessidade de suporte.

Íris pontuou que a roda de samba é um espaço “formador da infância, da imaginação, da construção de afeto e do respeito a quem veio antes”, e que subestimá-la é ignorar seu papel fundamental na preservação da memória e na construção do futuro.

Compromisso e desafios do Ministério da Cultura

O secretário do Ministério da Cultura, Fabrício Antenor, contextualizou a iniciativa do seminário, explicando que a decisão de ouvir os sambistas diretamente foi crucial para aprimorar as políticas públicas destinadas às rodas de samba. Ele reconheceu os desafios enfrentados pelo Ministério e elogiou o evento por sua valiosa contribuição ao fortalecimento do setor cultural.

Finalizando o debate, Aline Vila Real, presidente substituta da Funarte, informou sobre o interesse de diversos estados em organizar fóruns regionais sobre o tema. Ela também relembrou o período em que as manifestações culturais e as rodas de samba foram impedidas de ocupar espaços públicos, reiterando a importância de garantir a visibilidade e o talento desses artistas à população brasileira.

FONTE/CRÉDITOS: Colaboração Carnavalesco