No dia 18 de dezembro (domingo), às 20h, a Funmilayo Afrobeat Orquestra – primeira banda de afrobeat brasileira formada por mulheres negras e uma pessoa não-binária, lança seu álbum de estreia com show na Sala Olido. O disco, que leva o nome do grupo, Funmilayo, teve apoio do Rumos Itaú Cultural 2019-2020 e já está disponível nas plataformas digitais. A direção musical é de Allan Abbadia, que já atuou com nomes como Elza Soares, Zeca Pagodinho, Baby do Brasil, Mano Brown, Racionais MC’s, Emicida, Liniker, Luiz Melodia, Beth Carvalho, Jards Macalé e Moacyr Luz. Além disso, a banda contou com a monitoração e assistência de direção de Jess Melo.

Formada por Rosa Couto, Stela Nesrine, Jasper Okan, Sthe Araujo, Afroju Rodrigues, Ana Goes, Tamires Silveira, Vanessa Soares, Larissa Oliveira, Bruna Duarte e Priscila Hilário, a Funmilayo Afrobeat Orquestra é conduzida por uma sonoridade que perpassa o afrobeat e a música afrobrasileira.

“Essa estreia é o resultado de um processo coletivo de uma banda que se constituiu meses antes de o mundo ser atravessado pela pandemia, em um momento de medo generalizado e em um governo caótico e autoritário, que realizou imensos cortes na área da cultura e da educação”, fala Rosa. “Apesar de todo o contexto jogando contra, esse disco vem ao mundo carregado de amor e vida, no intuito de ser semente.”

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“O álbum surgiu da vontade e ímpeto de homenagear mulheres negras brasileiras que representem a luta pela igualdade”, continua ela. “Para isso, escrevemos um projeto – posteriormente contemplado pelo Rumos Itaú Cultural – que propunha um estudo sobre essas mulheres, ações diretas com o público e imersão para o processo de composição”.

Este conceito começa pelo próprio nome da banda, que celebra a nigeriana Funmilayo Anikulapo Kuti, professora, política militante e ativista. Ela liderou a luta das mulheres por liberdade, direito ao voto e por justiça social. Foi assassinada aos 78 anos de idade.

Faixa a faixa

O álbum conta com 10 faixas e foi gravado no Estúdio Experimental da Faculdade de Tecnologia de Tatuí (SP), acompanhado por uma equipe majoritariamente feminina, composta por estudantes do curso de Produção Fonográfica da universidade.

Ori é uma faixa ritual de abertura, com texto composto por Rosa Couto, declamado por Vanessa Soares e acompanhado pelas percussionistas Afroju Rodrigues e Sthe Araújo. Ondina, a segunda do álbum, tem letra de Jasper Okan, com arranjos criados coletivamente. Essa faixa conta a trajetória da preta velha Ondina na luta pela liberdade através da fuga.

Foz foi composta coletivamente a partir da harmonia proposta por Tamiris Silveira e letra de Rosa Couto. Para e respira é um afrobeat ao estilo dos anos 1970, com letra e voz de Ana Goes. Aaliyah é a única faixa instrumental do disco, composta por Tamiris Silveira e é fruto de um processo de cura e de luto.

Fruta Semente tem construção coletiva a partir da melodia e letra criadas por Larissa Oliveira. Conta com a participação especial de Josy.Anne. Wikipreta é de autoria de Stela Nesrine e Monna Brutal, que participa compondo e cantando.

Manifesto parte de uma composição original de Afroju Rodrigues. A letra é um protesto contra as opressões que os corpos femininos, negros e LGBTQIAP+ suportam na lógica da colonialidade. Luvemba surge a partir de uma composição de Jasper Okan e conta sobre a travessia e o firmamento, em uma terra de encruzilhadas, de cultura negra, de encontro com os povos de Abya Yala – na língua do povo Kuna, “terra madura”, “terra viva”, “terra em florescimento”, sinônimo para América.

A música que fecha o álbum, Nascer para Dentro, é também de Ana Goes - um mantra e um chamado para o auto amor e cuidado, como uma viagem interior pelo caminho do reconhecimento, principalmente considerando a necessidade de transformação da experiência negra de autonegação. “A de luta, de ímpeto de transformação, de raiva, de luto, mas principalmente a de resistência e crença no coletivo”, explica a artista.

 Sobre Funmilayo Ransome Kuti

(Abeocutá, Nigéria, 1900 – Lagos, Nigéria, 1978)

Professora, política, militante, ativista dos direitos das mulheres e aristocrata tradicional da Nigéria, Funmilayo se transformou em uma das mais importantes líderes de sua geração. Ela teve forte influência na defesa do direito ao voto das mulheres nigerianas e esteve à frente das ebás, que viviam em uma região próxima ao rio Oxum, em uma campanha contra a tributação arbitrária. O movimento resultou na abdicação do obá Ademola II, em 1949. Funmilayo também foi a primeira mulher no país a dirigir um carro.

O seu ativismo político a levou a ser descrita como a decana dos direitos femininos de seu país e a ser considerada mãe da África. Ela foi mãe biológica de três outros ativistas, além da filha Dolapo Ransome-Kuit: o músico Fela Anikulapo Kuti, o médico Beko Ransome-Kuti e o professor e médico que chegou a ser ministro da saúde Olikoye Ransome-Kuti. Em 1978, militares armados invadiram a comuna conhecida como República de Kalakuta, criada e fundada por Fela Kuti em 1970 – onde, com sua banda África 70 desenvolveu mais o Afrobeat. Nesta ação, Funmilayo foi jogada pela janela do terceiro andar, entrou em coma e morreu passados dois meses, aos 78 anos.

Sobre o Rumos Itaú Cultural

Um dos maiores editais privados de financiamento de projetos culturais do país, o Programa Rumos é realizado pelo Itaú Cultural desde 1997, fomentando a produção artística e cultural brasileira. A iniciativa recebeu mais de 75,8 mil inscrições desde a sua primeira edição, vindos de todos os estados do país e do exterior. Destes, foram contempladas 1,5 mil propostas nas cinco regiões brasileiras, que receberam o apoio do instituto para o desenvolvimento dos projetos selecionados nas mais diversas áreas de expressão ou de pesquisa.

Os trabalhos resultantes da seleção de todas as edições foram vistos por mais de 7 milhões de pessoas em todo o país. Além disso, mais de mil emissoras de rádio e televisão parceiras divulgaram os trabalhos selecionados.

Na última edição, de 2019-2020, os 11.246 projetos inscritos foram examinados, em uma primeira fase seletiva, por uma comissão composta por 40 avaliadores contratados pelo instituto entre as mais diversas áreas de atuação e regiões do país. Em seguida, passaram por um profundo processo de avaliação e análise por uma Comissão de Seleção multidisciplinar, formada por 23 profissionais que se inter-relacionam com a cultura brasileira, incluindo gestores da própria instituição. Foram selecionados 90 projetos.