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Conseguir trazer as pessoas para o teatro, sejam aquelas com vivências no espaço cultural ou as que chegam pela primeira vez, e despertar o interesse pela arte, cultura e educação também são propósitos. Entre os objetivos está a realização de ações afirmativas de acessibilidade, gênero, identidade racial e classe social. Diante dessas possibilidades, o espetáculo pernambucano teatral e musical “O Irôko, a Pedra e o Sol” garante o acesso gratuito para pessoas travestis, trans e soropositivas, com retirada do ingresso antecipadamente na internet.
A gratuidade vale para as três sessões, nos dias 17, 18 e 19 de abril, todas no Teatro Hermilo Borba Filho, que fica no centro do Recife (rua Cais do Apolo, nº 142). Na sexta-feira e no sábado às 19h, e no domingo às 17h. Para o público em geral, o ingresso custa R$ 15 (meia-entrada) e R$ 30 (inteira). A classificação indicativa da peça é de 16 anos de idade e tem duas horas de duração. A partir da sua existência e continuidade, o espetáculo reforça temas como LGBTfobia; racismo religioso, de raça, gênero e classe; violência contra a mulher; evangelização nos quilombos; sorofobia; amor; fé; e homoafetividade negra.
Também como gesto de solidariedade, 10% da renda de bilheteria vão ser doados para uma entidade que acolhe pessoas travestis, trans e soropositivas, sobretudo as que são mais jovens e que vivem em situação de vulnerabilidade social. É importante informar que as apresentações no Teatro Hermilo Borba Filho têm recurso de acessibilidade em Libras para as pessoas com deficiência auditiva.
A nova temporada de “O Irôko, a Pedra e o Sol”, que existe desde 2022 juntando canto, corpo, dança, música, memória e atualidade, é realizada por meio do projeto “Luz negra: o negro em estado de representação”. Este incentivo público compõe a rede de ações artísticas brasileiras fomentada pelo Programa Funarte de Apoio a Ações Continuadas, executado pela Fundação Nacional de Artes, entidade vinculada ao Ministério da Cultura (MinC) do Governo do Brasil. Com direção do pernambucano Samuel Santos, o espetáculo é assinado coletivamente pelo grupo e espaço “O Poste Soluções Luminosas”, do Recife/PE.
“O projeto ‘Luz Negra’, do grupo e espaço O Poste Soluções Luminosas, fortalece em Pernambuco essa representatividade da atriz negra e do ator negro no campo do teatro, reforçando o contexto histórico, social e cultural”, declara Samuel Santos.
Nessa circulação mais recente, a abertura foi no terreiro Ilê Àse Òrìsànlá Tàlábí, no município de Paulista (Região Metropolitana do Recife), no dia 11 de abril.
O espetáculo é baseado na história de uma paciente com HIV, de Itapipoca/CE, sertão do Ceará, em 1990, que foi abandonada pela família no hospital público durante um mês, porém antes de interná-la a vizinhança e os pais em conjunto derrubaram o banheiro que a jovem tinha utilizado, separaram copos e outros objetos e ela foi isolada dentro de um quarto devido ao medo extremo e à desinformação que cercavam a doença na época. O caso ocorreu no período em que o sertão do Ceará ainda tinha pouco acesso às informações sobre as formas de contágio, o que gerava um "terror" social para os pacientes.
A trilha sonora ao vivo une natureza, vida e religião, com canções para o trabalho, o casamento, a caça, o parto e para afastar maus espíritos e homenagear mestras e mestres. A origem é o terreiro, levando como inspiração a Umbanda, o Candomblé, a Jurema Sagrada e a tradição Xambá, além da Nagô. A partir dessas ideias coletivas de pertencimento, das referências e das vivências, é criada a sonorização do espetáculo afroancestral e musical, com identidade pernambucana.
Em 2023, "O Irôko, a Pedra e o Sol" foi um dos espetáculos teatrais mais aclamados do Estado de Pernambuco. No ano de 2022, conquistou inclusive o Prêmio Sesc Nacional de Artes Cênicas.Além das apresentações no Recife, a peça teatral já foi encenada em municípios do interior de Pernambuco, como Garanhuns, no Agreste, Arcoverde, no Sertão, e Goiana, na Zona da Mata Norte. Houve também encenações em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife.
Entre os teatros, espaços e festivais que receberam a peça estão Hermilo Borba Filho (centro do Recife - 2023 e 2024), Cine Teatro Samuel Campelo (Jaboatão - 2022), Teatro Reinaldo de Oliveira (Arcoverde - 2022), Teatro Marco Camarotti (Recife, bairro de Santo Amaro - 2022), Teatro do Parque (Recife - 2023), Centro Cultural Grupo Bongar - Guitinho da Xambá (Olinda - 2023), 22º Festival Recife do Teatro Nacional (2023), Palco Giratório Sesc PE (2024) e Mostra Goyanna de Artes (2024).
Confira detalhes do espetáculo “O Irôko, a Pedra e o Sol”
Sinopse
Na dramaturgia, o texto conta a estória (tradição oral) de amor de dois adolescentes masculinos, Severino e Sebastião, que moram numa pequena comunidade quilombola evangelizada do sertão pernambucano. Os dois jovens são descobertos por viver um relacionamento amoroso e também um dos jovens contrai HIV, e diante da ignorância das pessoas da comunidade por acreditar que tanto o romance dos dois meninos é o início do fim dos tempos. E assim eles são presos e postos numa pequena casa no meio da caatinga com as portas, janelas vedadas e sem telhado, onde só podem olhar para cima para ver apenas o céu.
“O que as pessoas precisam saber antes de assistir ao espetáculo: Irôko fala sobre amor, mas não é qualquer amor. É um amor que enfrenta o preconceito; fala sobre fé, mas não a fé que impõem, e sim a que nasce da ancestralidade; fala sobre violência, mas não só a física, como também a simbólica e cultural; fala sobre apagamento da história, da identidade e da cultura afro-indígena; e fala principalmente sobre resistência. Diante desses fatos, surgiu a necessidade de levar aos palcos um projeto que agregasse valores sociais, históricos e poéticos ao tema”, afirma Samuel.
Evangelização nos quilombos
Este fato é mais atual. Em 2023, a Revista Agência Pública, referência no jornalismo investigativo do Brasil, publicou uma reportagem com o seguinte título: “Avanço evangélico ameaça religiões afro em quilombos de Pernambuco”. A matéria escrita pela jornalista Géssica Amorim relata histórias de seu Abel e seu Joaquim Firmo, moradores do quilombo Sítio Bredos, no município de Betânia, no Sertão do Moxotó, em Pernambuco, e de dona Maura Maria da Silva (do quilombo São Caetano). De acordo com a publicação, nessas comunidades as pessoas de religiões de matriz africana foram perdendo espaço.
“A reportagem explica como as igrejas evangélicas se multiplicaram dentro dos territórios dos quilombos e afetaram diretamente as religiões de matrizes africanas. Em 2025, por exemplo, a Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro) e o Ilê Omolu Oxum (do Rio de Janeiro) lançaram uma pesquisa sobre racismo religioso no Brasil para a realização de um levantamento, entrevistando 255 lideranças religiosas de terreiros em todo o país. 80% confirmou que as pessoas das suas comunidades já tinham sofrido algum tipo de violência, física ou verbal, por racismo religioso”, acrescenta Samuel Santos.
Elenco
Além de uma formação toda da negritude, periférica e popular, a peça traz para as artes cênicas o recorte de raça, assim como as pautas de gênero e classe. São 12 pessoas afropernambucanas que atuam, cantam e dançam coletivamente: Agrinez Melo, Ariel Sobral, Ester Soares, Fernanda Spíndola, Itioko, Jully, Lucas Ferr, Naná Sodré, Pedro Félix, Talles Ribeiro, Thallis Ítalo e Vanise Souza. Vale dizer que Ester Soares divide a atuação com Larissa Lira. Toda essa junção fortalece o encontro de tons e vozes.
Trilha sonora
15 músicas autorais são tocadas na íntegra. Todas as letras têm a autoria do próprio diretor Samuel Santos. Já a criação e a produção da composição musical da trilha (arranjo, harmonia e melodia) levam a assinatura dos artistas locais Beto Xambá e Thulio Xambá, ambos do grupo pernambucano Bongar (autoral e da cultura popular), composto juntamente com Meme Bongar, Henrique Xambá e Yngrid da Xambá, que são de Pernambuco e estão como musicistas do espetáculo. A Xambá é uma comunidade que fica no bairro de São Benedito, em Olinda/PE. Nessa nova temporada da peça teatral, o percussionista pernambucano Ninho Brow está como convidado.
“As letras (composições escritas) são de Samuel Santos, enquanto a gente (músicos Thulio Xambá e Beto Xambá) criou a composição musical da trilha sonora, realizando a produção das melodias, harmonias e arranjos. A ideia surgiu justamente quando Samuel trouxe as letras sem harmonia e sem melodia. Lembro dele cantando e contando como imaginava a música, mas não sabia o que dizer. Então, a partir daí, entramos no processo de criação e as músicas ganharam vida”, conta Thulio Xambá.
Produção visual
O conjunto de vestuários, trajes e acessórios para o espetáculo é transformado em gesto político de empoderamento, que dialoga com a ancestralidade e a valorização artístico-cultural. A pernambucana Agrinez Melo está à frente da criação do figurino, sendo pensado pela conexão entre o afro-brasileiro e as regiões do continente africano por meio da memória e do atemporal. Toda a produção visual acompanha a história do espetáculo, juntando cortes, texturas, volumes e tonalidades como elementos da dramaturgia, que se renovam ao longo do desdobramento da encenação.
“A concepção vem de referências atemporais de países da África e da relação com estruturas sociais ainda existentes. Em cena, os figurinos têm relação com os corpos, destacando características físicas e psicológicas. Os traços africanos nos tecidos, cores e cortes são sobrepostos por paletós e estruturas rígidas que buscam encobri-los. Origina-se uma sobreposição simbólica: por baixo, o colorido pulsante, enquanto por cima a sobriedade opressora”, explica Agrinez Melo.
“O Irôko, a Pedra e o Sol” (classificação indicativa: 16 anos de idade) - confira as datas e locais da nova temporada do espetáculo de teatro (agenda de apresentações)
17/04 (sexta-feira), 18/04 (sábado): Teatro Hermilo Borba Filho (Recife/PE - Cais do Apolo, nº 142 - centro)
Horário: 19h
Ingressos: R$ 15 (meia-entrada) e R$ 30 (inteira)
Recurso de acessibilidade em Libras para as pessoas com deficiência auditiva.
19/04 (domingo): Teatro Hermilo Borba Filho (Recife/PE - Cais do Apolo, nº 142 - centro)
Horário: 17h
Ingressos: R$ 15 (meia-entrada) e R$ 30 (inteira)
Recurso de acessibilidade em Libras para as pessoas com deficiência auditiva.
Ficha técnica
Texto, direção, letras, cenário e iluminação: Samuel Santos
Idealização e produção geral: O Poste Soluções Luminosas (grupo e espaço)
Criação e produção da composição musical da trilha sonora (arranjo, harmonia e melodia): Beto Xambá e Thulio Xambá
Musicistas do grupo Bongar: Meme Bongar, Henrique Xambá, Yngrid da Xambá, Beto Xambá e Thulio Xambá; percussionista convidado: Ninho Brow
figurino: Agrinez Melo
Preparação musical: Surama Ramos
Preparação de dança afro e direção de movimentos: Darana Costa
Operação de luz: André Cordeiro
Contrarregra: Núcleo O Postinho (Larissa Lira, Sthe Vieira e Cecília Chá)
Fotografias: @ga_olho e @domarrrrrrr
Elenco: Agrinez Melo, Ariel Sobral, Ester Soares, Fernanda Spíndola, Itioko, Jully, Lucas Ferr, Naná Sodré, Pedro Félix, Talles Ribeiro, Thallis Ítalo e Vanise Souza; é importante informar que Ester Soares divide a atuação com Larissa Lira
Realização: projeto “Luz negra: o negro em estado de representação” - Programa Funarte de Apoio a Ações Continuadas, executado pela Fundação Nacional de Artes, entidade vinculada ao Ministério de Cultura do Governo do Brasil
Publicado por:
Daniel Lima
Comunicador social & jornalista. De Caruaru/PE, criado no Recife. Atua com assessoria de imprensa artístico-cultural e atualmente é assessor de imprensa/mídias sociais do Coco Raízes de Arcoverde/PE.
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