Integrantes de diversas casas de axé de Campo Grande uniram-se em protesto nesta semana, ocupando as ruas do bairro Parque do Lageado para denunciar a crescente intolerância religiosa e clamar por respeito às religiões de matriz africana. A mobilização ocorreu dias após o pai de santo Paulo Henrique da Silva registrar mais um episódio de preconceito na capital sul-mato-grossense, reacendendo o debate sobre a discriminação enfrentada por essas comunidades.

O ato público, que reuniu o povo do Axé, teve como objetivo principal expor a realidade de perseguição e desrespeito vivenciada diariamente por praticantes de Candomblé, Umbanda e Quimbanda, conforme explicou o babalorixá Augusto de Logunedé, presidente do Instituto Yalodê e organizador da manifestação.

A rotina da discriminação

Augusto de Logunedé enfatizou que o caso de Paulo Henrique não é isolado, mas sim parte de um cenário comum. Ele citou exemplos de interrupções de cultos e até denúncias de moradores que ameaçam incendiar casas por motivos religiosos, como a realização de um 'despacho'.

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“Nas religiões de matriz africana, é tradição oferecer alimentos como farofa de dendê, mel e água em busca de proteção e bênçãos. Não era um ataque contra ninguém, era apenas a expressão da fé dela”, exemplificou, desmistificando a prática.

O babalorixá reiterou a necessidade de respeito mútuo entre as diferentes crenças. “As pessoas, sejam evangélicas ou de qualquer outra religião, precisam aprender a respeitar a crença alheia. O povo do Axé não tem nada a ver com o demônio. Nós cultuamos os orixás e as entidades ancestrais brasileiras”, declarou.

A mãe de santo Iyalorixá Janayna de Obaluaê compartilhou que, embora sua longa trajetória na fé a tenha fortalecido contra o preconceito, os praticantes mais jovens sofrem intensamente. “O bullying é constante. As pessoas fazem da gente monstros, dizem que sacrificamos animais, e não é nada disso. Nós apenas cultuamos uma religião de matriz afro-brasileira”, afirmou.

A intolerância religiosa, segundo Janayna, manifesta-se em diversas esferas, desde a busca por serviços públicos até situações cotidianas como ir ao supermercado. “Quando buscamos um benefício ou atendimento na rede pública de saúde, muitas vezes somos vistos com outros olhares e sentimos que outras pessoas recebem preferência”, relatou.

Ela também mencionou um incidente em que seus filhos foram desrespeitados em um supermercado e a frequência com que são chamados de “demônio” ou “capeta”. A vestimenta branca, símbolo de paz para o povo do Axé, é lamentavelmente vista por muitos como motivo de discriminação.

O caso que motivou o protesto

A manifestação foi impulsionada por um incidente ocorrido em 3 de junho, quando o pai de santo Paulo Henrique da Silva, de 34 anos, registrou uma denúncia de intolerância religiosa em Campo Grande. O pastor Sérgio Britto, da igreja Ministério de Jesus Cristo da Última Hora, teria abordado familiares de Paulo Henrique com declarações ofensivas contra a Umbanda.

Segundo a denúncia, o pastor proferiu frases como “todo macumbeiro, feiticeiro e umbandeiro vai ser julgado e vai parar no inferno”. Além disso, ele se ajoelhou próximo à residência, recitando trechos bíblicos e perturbando o sossego da família. Paulo Henrique registrou um boletim de ocorrência e busca assessoria jurídica para as devidas ações criminais.