Surgem novas oportunidades de vivenciar “O Irôko, a Pedra e o Sol”, espetáculo pernambucano de teatro que une canto, corpo, dança, música, memória e atualidade. As apresentações da peça autoral — assinada pelo grupo e espaço “O Poste Soluções Luminosas”, do Recife/PE — entram em circulação em Pernambuco pelo projeto “Luz negra: o negro em estado de representação”, que está possibilitando a realização de cinco sessões neste mês de abril. A classificação indicativa é de 16 anos de idade. 

Em 2026, o espetáculo amplia sua existência com continuidade e reforça pautas como LGBTfobia, racismo, violência contra a mulher, evangelização nos quilombos e sorofobia. A estreia da nova temporada ocorre gratuitamente no dia 11/04 (sábado), no terreiro Ilê Àse Òrìsànlá Tàlábí, no município de Paulista (Região Metropolitana do Recife), às 19h. As apresentações seguintes acontecem no Teatro Hermilo Borba Filho, nos dias 17/04 (sexta-feira) e 18/04 (sábado), ambas às 19h, e no dia 19/04 (domingo), às 17h, no centro do Recife, com os ingressos à venda na internet e custando R$ 15 (meia-entrada) e R$ 30 (inteira). Já a conclusão é em Salgueiro (município no Sertão do estado), no dia 25/04 (sábado), no Quilombo Conceição das Crioulas, com entrada gratuita, às 19h.  

Vale dizer que o projeto Luz negra: o negro em estado de representação compõe a rede de ações artísticas brasileiras fomentada pelo Programa Funarte de Apoio a Ações Continuadas, executado pela Fundação Nacional de Artes, entidade vinculada ao Ministério de Cultural do Governo do Brasil. Por meio desse incentivo público, é possível realizar a nova temporada da peça teatral e musical “O Irôko, a Pedra e o Sol”, que existe desde 2022 com direção do pernambucano Samuel Santos, morador do Alto José Bonifácio, comunidade na Zona Norte do Recife. 

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“O que as pessoas precisam saber antes de assistir ao espetáculo: Irôko fala sobre amor, mas não é qualquer amor. É um amor que enfrenta o preconceito; fala sobre fé, mas não a fé que impõem, e sim a que nasce da ancestralidade; fala sobre violência, mas não só a física, como também a simbólica e cultural; fala sobre apagamento da história, da identidade e da cultura afro-indígena; e fala principalmente sobre resistência. Diante desses fatos, surgiu a necessidade de levar aos palcos um projeto que agregasse valores sociais, históricos e poéticos ao tema”, declara Samuel Santos, responsável também pelo texto, cenário e iluminação. 

Destaque-se o elenco, com uma formação toda da negritude, periférica e popular, trazendo para as artes cênicas o recorte de raça, além das pautas de gênero e classe. São 12 pessoas entre mulheres pretas e negras, assim como homens, que atuam, cantam e dançam coletivamente durante duas horas (tempo de duração do espetáculo): Agrinez Melo, Ariel Sobral, Ester Soares, Fernanda Spíndola, Itioko, Jully, Lucas Ferr, Naná Sodré, Pedro Félix, Talles Ribeiro, Thallis Ítalo e Vanise Souza. É importante informar que Ester Soares divide a atuação com Larissa Lira. Toda essa junção fortalece o encontro de tons e vozes. 

“O projeto ‘Luz Negra’, do grupo O Poste Soluções Luminosas, fortalece em Pernambuco essa representatividade da atriz negra e do ator negro no campo do teatro, reforçando o contexto histórico, social e cultural”, afirma Samuel Santos. 

Também tem destaque a trilha sonora tocada ao vivo, reunindo 15 músicas autorais. Todas as letras têm a autoria do próprio diretor Samuel Santos. Já a criação e a produção da composição musical da trilha (melodia, harmonia e arranjo) levam a assinatura dos artistas locais Beto Xambá e Thulio Xambá, ambos do grupo pernambucano Bongar (autoral e da cultura popular), composto juntamente com Meme Bongar, Henrique Xambá e Yngrid da Xambá, que são de Pernambuco e estão como musicistas do espetáculo. A Xambá é uma comunidade que fica no bairro de São Benedito, em Olinda/PE. Nessa nova temporada da peça teatral, o percussionista pernambucano Ninho Brow entra como convidado. 

O espetáculo “O Irôko, a Pedra e o Sol“ é baseado na história de uma paciente com HIV, de Itapipoca/CE, sertão do Ceará, em 1990, que foi abandonada pela família no hospital público durante um mês, porém antes de interná-la a vizinhança e os pais em conjunto derrubaram o banheiro que a jovem tinha utilizado, separaram copos e outros objetos e ela foi isolada dentro de um quarto devido ao medo extremo e à desinformação que cercavam a doença na época. O caso ocorreu no período em que o sertão do Ceará ainda tinha pouco acesso às informações sobre as formas de contágio, o que gerava um "terror" social para os pacientes.

A sinopse de “O Irôko, a Pedra e o Sol” apresenta: “Na dramaturgia, o texto conta a estória (tradição oral) de amor de dois adolescentes masculinos, Severino e Sebastião, que moram numa pequena comunidade quilombola evangelizada do sertão pernambucano. Os dois jovens depois de serem descobertos por viver um relacionamento amoroso e também um dos jovens ter contraído HIV, e diante da ignorância das pessoas da comunidade por acreditar que tanto o romance dos dois meninos é o início do fim dos tempos. E assim eles são presos e postos numa pequena casa no meio da caatinga com as portas, janelas vedadas e sem telhado, onde só podem olhar para cima para ver apenas o céu”. 

Por falar em ancestralidade, a abertura do espetáculo é guiada por uma mensagem do orixá Exu: “Numa pequena cidade, um quilombo colonizado, fizeram das suas crenças algo amaldiçoado, ruim puseram quebranto, disseram que aquilo não era coisa santo, quebraram pejis (altares), cortaram a mão do Pejigã (primeiro ogã do Candomblé), proibiram canto para Ogum, Xangô e Iansã (que são orixás). Os orixás não teriam naquele quilombo mais vez…”, diz a narração original.  

Toda a narrativa se passa numa comunidade quilombola evangelizada do sertão pernambucano. “Essa comunidade sofreu um processo danoso de apagamento das suas raízes ancestrais e age conforme os preceitos ensinados e dentro desses preceitos há a culpa, o inferno para quem comete o pecado e ‘atenta contra as palavras do grande livro’. Dentro desse contexto, surge o amor de dois jovens, onde Exu, no espetáculo, avisa: “Dos ancestrais ventres de duas negras, nasceram dois meninos que fugiram às regras”, explica Samuel Santos. 

Em 2023, "O Irôko, a Pedra e o Sol" foi um dos espetáculos teatrais mais aclamados em Pernambuco. No ano de 2022, conquistou inclusive o Prêmio Sesc Nacional de Artes Cênicas. 

Evangelização nos quilombos

Este fato é mais atual. Em 2023, a Revista Agência Pública, referência no jornalismo investigativo do Brasil, publicou uma reportagem com o seguinte título: “Avanço evangélico ameaça religiões afro em quilombos de Pernambuco”. A matéria escrita pela jornalista Géssica Amorim relata histórias de seu Abel e seu Joaquim Firmo, moradores do quilombo Sítio Bredos, no município de Betânia, no Sertão do Moxotó, em Pernambuco, e de dona Maura Maria da Silva (do quilombo São Caetano). De acordo com a publicação, nessas comunidades as pessoas de religiões de matriz africana foram perdendo espaço. 

“A reportagem explica como as igrejas evangélicas se multiplicaram dentro dos territórios dos quilombos e afetaram diretamente as religiões de matrizes africanas. Em 2025, por exemplo, a Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro) e o Ilê Omolu Oxum (do Rio de Janeiro) lançaram uma pesquisa sobre racismo religioso no Brasil para a realização de um levantamento, entrevistando 255 lideranças religiosas de terreiros em todo o país. 80% confirmou que as pessoas das suas comunidades já tinham sofrido algum tipo de violência, física ou verbal, por racismo religioso”, acrescenta Samuel Santos. 

Música pernambucana 

A trilha sonora da peça teatral une natureza, vida e religião, com canções para o trabalho, o casamento, a caça, o parto e para afastar maus espíritos e homenagear mestras e mestres. A origem é o terreiro, levando como inspiração a Umbanda, o Candomblé, a Jurema Sagrada e a tradição Xambá, além da Nagô. A partir dessas ideias de pertencimento, das referências e das vivências, é criada a sonorização do espetáculo afroancestral e musical, com identidade pernambucana. 

“As letras (composições escritas) são de Samuel Santos, enquanto a gente (músicos Thulio Xambá e Beto Xambá) criou a composição musical da trilha sonora, realizando a produção das melodias e harmonias. A ideia surgiu justamente quando Samuel trouxe as letras sem harmonia e sem melodia. Lembro dele cantando e contando como imaginava a música, mas não sabia o que dizer. Então, a partir daí, entramos no processo de criação e as músicas ganharam vida”, lembra Thulio Xambá.

Produção visual

O conjunto de vestuários, trajes e acessórios para o espetáculo é transformado em gesto político de empoderamento, que dialoga com a ancestralidade e a valorização artístico-cultural. A pernambucana Agrinez Melo está à frente da criação do figurino, sendo pensado pela conexão entre o afro-brasileiro e as regiões do continente africano por meio da memória e do atemporal. Toda a produção visual acompanha a história do espetáculo, juntando cortes, texturas, volumes e tonalidades como elementos da dramaturgia, que se renovam ao longo do desdobramento da encenação.

“A concepção vem de referências atemporais de países da África e da relação com estruturas sociais ainda existentes. Em cena, os figurinos têm relação com os corpos, destacando características físicas e psicológicas. Os traços africanos nos tecidos, cores e cortes são sobrepostos por paletós e estruturas rígidas que buscam encobri-los. Origina-se uma sobreposição simbólica: por baixo, o colorido pulsante, enquanto por cima a sobriedade opressora”, diz Agrinez Melo. 

Acessibilidade 

O Espaço O Poste realiza uma ação afirmativa para as três sessões de “O Irôko, a Pedra e o Sol” no Teatro Hermilo Borba Filho. Uma parte do arrecadado na bilheteria será doada para uma entidade que acolhe pessoas travestis, trans e soropositivas, com gratuidade dos ingressos.  

Histórico

Além das apresentações no Recife, a peça teatral já foi encenada em municípios do interior de Pernambuco, como Garanhuns, no Agreste, Arcoverde, no Sertão, e Goiana, na Zona da Mata Norte. Houve também encenações em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife. Entre os teatros, espaços e festivais que receberam o espetáculo estão Hermilo Borba Filho (centro do Recife - 2023 e 2024), Cine Teatro Samuel Campelo (Jaboatão - 2022), Teatro Reinaldo de Oliveira (Arcoverde - 2022), Teatro Marco Camarotti (Recife, bairro de Santo Amaro - 2022), Teatro do Parque (Recife - 2023), Centro Cultural Grupo Bongar - Guitinho da Xambá (Olinda - 2023), 22º Festival Recife do Teatro Nacional (2023), Palco Giratório Sesc PE (2024) e Mostra Goyanna de Artes (2024). 


“O Irôko, a Pedra e o Sol” (classificação indicativa: 16 anos de idade) - confira as datas e locais da nova temporada do espetáculo de teatro (agenda de apresentações)

11/04 (sábado): terreiro Ilê Àse Òrìsànlá Tàlábí (Paulista/PE - rua Orobó, nº 257 - bairro Paratibe)

Horário: 19h

Gratuito


17/04 (sexta-feira), 18/04 (sábado): Teatro Hermilo Borba Filho (Recife/PE - Cais do Apolo,  nº 142 - centro)

Horário: 19h

Ingressos: R$ 15 (meia-entrada) e R$ 30 (inteira)

Gratuidade para pessoas travestis, trans e soropositivas


19/04 (domingo): Teatro Hermilo Borba Filho (Recife/PE - Cais do Apolo,  nº 142 - centro)

Horário: 17h

Ingressos: R$ 15 (meia-entrada) e R$ 30 (inteira) 

Gratuidade para pessoas travestis, trans e soropositivas

25/04 (sábado): Quilombo Conceição das Crioulas (Salgueiro/PE)

Horário: 19h

Gratuito

Ficha técnica

Texto, direção, letras, cenário e iluminação: Samuel Santos

Idealização e produção geral: O Poste Soluções Luminosas (grupo e espaço)

Criação e produção da composição musical da trilha sonora (melodias, harmonias e arranjos): Beto Xambá e Thulio Xambá

Musicistas do grupo Bongar: Meme Bongar,  Henrique Xambá, Yngrid da Xambá, Beto Xambá e Thulio Xambá; percussionista convidado: Ninho Brow

Figurino: Agrinez Melo

Preparação musical: Surama Ramos 

Preparação de dança afro e direção de movimentos: Darana Costa 

Operação de luz: André Cordeiro 

Contrarregra: Núcleo O Postinho (Larissa Lira, Sthe Vieira e Cecília Chá) 

Fotografias: @ga_olho e @domarrrrrrr 

Elenco: Agrinez Melo, Ariel Sobral, Ester Soares, Fernanda Spíndola, Itioko, Jully, Lucas Ferr, Naná Sodré, Pedro Félix, Talles Ribeiro, Thallis Ítalo e Vanise Souza; é importante informar que Ester Soares divide a atuação com Larissa Lira

Realização: projeto “Luz negra: o negro em estado de representação” - Programa Funarte de Apoio a Ações Continuadas, executado pela Fundação Nacional de Artes, entidade vinculada ao Ministério de Cultura do Governo do Brasil