A escola de samba Beija-Flor de Nilópolis anunciou oficialmente seu enredo para o Carnaval de 2027, intitulado "Zeneida: O Sopro do Pó de Louro". Trata-se de uma profunda homenagem à lendária pajé Zeneida Lima, figura venerada da Ilha do Marajó.

A narrativa explora a sabedoria ancestral da Amazônia, detalhando como o ato de soprar o pó de louro abre caminhos, purifica ambientes e invoca abundância. Este ensinamento é central para a jornada espiritual de Zeneida e a mensagem principal da apresentação da Beija-Flor 2027.

A essência do pó de louro e a guia espiritual

O enredo se inicia com a invocação: "Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo e toda a sua falange". A partir daí, a sinopse descreve o poder do pó de louro, cujas partículas, ao serem sopradas, limpam o que pesa, afastam o negativo e atraem a prosperidade.

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Zeneida Lima compartilha esse conhecimento milenar, que fortalece seu espírito, clareia seus pensamentos e orienta seus passos. Para ela, a natureza sempre estende a mão a quem a procura, e cada folha que cai tem um propósito invisível.

Sua vida, compreendida hoje, revela que cada momento, do mais difícil ao mais alegre, teve uma razão. Ela atribui essa percepção à proteção das forças da floresta e às energias de seus Caruanas, com destaque para o Caruana Beija-Flor, que reserva o cuidado aos destinados a serem pajé.

O encontro com o Caruana Beija-Flor e a transformação

O Caruana Beija-Flor a acompanha desde o nascimento. Há quase trinta anos, um evento marcou sua memória: o momento em que, sob as asas do Beija-Flor, ela conheceu seu "maravilhoso e soberano ninho".

Mesmo distante fisicamente, a conexão espiritual era profunda. Diante do "Girador", ela compreendeu os desígnios da lua, equilibrou os três reinos da terra – vegetal, animal e mineral – e presenciou o renascimento de uma nação.

Naquele instante, não era apenas uma comunidade que se transformava; era ela mesma. Esse evento abriu um portal para o mundo místico dos Caruanas, morada dos seres encantados que a guiam e alimentam sua força e coragem. É com orgulho que ela se reafirma: "Eu sou Zeneida Lima, a última pajé do Marajó do povo Sakaka".

A ancestralidade e o chamado da pajerama

Na infância, Zeneida era chamada de "Pajerama", a que nasceu para ser pajé, sem compreender plenamente seu significado. Ela veio de uma linhagem de luta e protagonismo, com ancestrais que trilharam caminhos de resistência.

Pelo lado paterno, herda a bravura de Maria Mineira Naê, a Agotime do clã de Daomé, um exemplo de força inabalável. Pela parte materna, recebeu o profundo saber das ervas, dos rios e da floresta, legado de seu avô, um pajé originário da Ilha do Marajó.

Sua existência é, portanto, uma confluência de mundos, onde a ancestralidade é uma presença viva que a guia. Para Zeneida, há encontros agendados pela ancestralidade, e não há como fugir do que já está traçado.

O despertar da missão e o castigo de Anhanga

Seu chamado começou antes mesmo de nascer, com seu choro ecoando no ventre materno e borboletas azuis e enxames a cercando como guardiões. Ela é a continuidade de um saber antigo que vive e se manifesta através dela.

Entre o medo e o encantamento, foi moldada pelas águas que a escolheram, compreendendo sua missão como ponte entre mundos desde menina. Nascida em Soure, no coração do Marajó, onde "a água conversa com a terra e o céu parece repousar sobre os rios", seu ultimato se revelou gradualmente.

Um dia, Zeneida sentiu o corpo enfraquecer subitamente. Três seres de pele azul incandescente, com "cara de peixe", surgiram. Ao recusar o que lhe ofereciam, foi castigada e desapareceu por dezessete dias. Retornou com o corpo marcado, o que mais tarde compreendeu ser a "flecha de Anhanga".

Anhanga, a força antiga que protege a natureza e pune seus desrespeitadores, a castigou por não ter iniciado sua missão. Essa dor foi o meio pelo qual ela compreendeu sua verdadeira identidade.

O aprendizado com Mestre Mundico e o assentamento da pajé

Sem poder fugir de seu destino, Mestre Mundico a iniciou nos fundamentos da pajelança. O mistério da encantaria é transmitido de pajé para pajé. Com ele, Zeneida aprendeu a interpretar a natureza: o vento, o silêncio da mata, o banzeiro das marés, a influência da lua e os segredos das folhas.

Mundico trouxe seus ancestrais indígenas para ensinar a cura pelas folhas e a abundância natural. Nesta jornada de mais de um ano, Zeneida recebeu suas cordas, elementos fundamentais para um pajé, e conheceu seu guardião, o Caruana Norato Antônio, que se apresenta na forma de uma cobra.

Recebeu também seus três maracás, instrumentos sagrados que conduzem o ritmo, abrem caminhos para o transe e afastam energias negativas. Ao concluir seu aprendizado, o destino da pajerama se cumpriu: estava assentada pajé, aos 12 anos.

Desafios e resiliência da pajé do Marajó

Mesmo menina, Zeneida se tornou uma mulher forte do Norte, forjada nas terras encantadas do Pará, onde o açaí alimenta, o carimbó embala e os rios ensinam a resistência de seu povo. Estava pronta para a vida, mas não sabia o quão pesada seria a realidade de uma mulher com dons que "ultrapassam o pequeno entendimento de muitos".

Ela enfrentou perseguições, teve sua casa cercada e foi chamada de "bruxa", como herdeira da Inquisição. Contudo, não titubeou, não recuou nem renegou sua verdade. Não guarda mágoa ou rancor, pois ocupar seu espaço é a melhor resposta. "Fazer o bem é mais difícil que fazer o mal", uma frase que a inspira.

Amparada pelos seus Caruanas e pela Mãe Nazaré, Zeneida se manteve de pé, encontrando na fé a coragem para vencer. Ela canta para agradecer, afastar o mal e não esmorecer, pois o canto é sua reza e sua forma de se manter firme.

O Instituto Caruanas da Ilha do Marajó: um legado de esperança

Zeneida se vê como mãe de muitos, mas reconhece Nazinha como mãe de todos. Com a ajuda dela e de seus Caruanas, mantém de pé seu maior sonho: o Instituto Caruanas da Ilha do Marajó.

Nesse local, ela reafirma sua promessa de infância: que nenhuma criança da Ilha deva conhecer abusos, explorações ou falta de educação. Nessa "escola-floresta", ela semeia conhecimentos e partilha saberes para construir novas perspectivas de futuro.

Seu desejo é que as crianças cresçam cientes de pertencer a um lugar sagrado, que a pobreza não determine seu espaço, e que tenham acesso à cultura, educação e preservação da memória e da terra. Que conheçam e mantenham a cerâmica, respeitem a natureza e vivam o lema: "se Deus me deu, vou preservar".

Ao ver seus "pequenos uniformizados, alimentados, em sala de aula, lendo um livro e compreendendo a importância da floresta", Zeneida entende todas as perseguições e injustiças. Ela compreende sua missão e afirma que faria tudo de novo.

A permanência da pajé

Para muitos, Zeneida Lima é um "caso de paranormalidade", talvez "assunto para psicólogos". Mas ela se vê "tão somente como uma pajé, alguém que lutou e ainda luta para manter íntegra a sua fé e seus princípios, apesar de todos os abalos violentos que a vida trouxe".

Venceu a inveja, a maledicência e o julgamento, e teve seu saber reconhecido por "aprender a navegar entre mundos que muitos não compreendem". Ela venceu porque "permaneceu", e permanecerá para sempre.

Quando seu corpo virar memória, ela estará na maior árvore de sua escola, "fazendo sombra para minhas crianças e para todos aqueles que precisarem de abrigo". Sua mensagem final para a posteridade: "quando o mundo insistir no desequilíbrio, acredite em mim: sopre o pó de louro. Ele é pai d’égua. Ele não costuma falhar."

FONTE/CRÉDITOS: Colaboração Carnavalesco