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A Unidos do Viradouro divulgou a sinopse do seu enredo "Griô" para o Carnaval de 2027, propondo uma profunda imersão na **oralidade** e na essencial função dos guardiões da **memória** que, através de suas **histórias**, mantêm viva a **tradição** ancestral. O texto, assinado por Tarcísio Zanon e João Gustavo Melo, convida a um ritual noturno, onde um ancião Griô acende a fogueira do terreiro para saudar divindades e iniciar uma narrativa milenar.
A jornada começa em uma noite mística, com uma fogueira ardendo no coração do terreiro. Um ancião Griô congrega os iniciados, proferindo palavras que dão voz a uma saudação ancestral: "Laroyê, Exu! Mojubá!", reverenciando o Senhor das Encruzilhadas que abre caminhos e faz a história fluir.
Em seguida, a homenagem se estende a "Saluba, Nanã!", a divina senhora que, com o barro, molda a memória. "Iroko Issó! Iroko Kisselé!", saúda-se o Senhor do tempo, a árvore sagrada que governa a eternidade, antes que o Griô inicie seu relato.
A origem das histórias e o poder da palavra
O narrador primordial, o Griô, emerge do silêncio do mundo, de um tempo em que a humanidade não possuía a capacidade de recordar. Sem passado ou futuro, existia apenas o presente, o pulsar contínuo da vida.
A narrativa então transporta a audiência para o reino Ashanti, onde o sábio caminheiro Kwaku Ananse, uma divindade aranha-humana, almejava preencher a Terra com narrativas. Com destreza, Ananse teceu uma teia prateada e ascendeu ao céu para encontrar Nyame, o grande deus.
Nyame, detentor de todos os enredos do universo, duvidou das capacidades de Ananse, desafiando-o a capturar as criaturas mais ferozes e astutas do reino. Com paciência, convencimento e encantamento, Ananse superou todas as provas, obtendo as histórias.
Ao descer com os contos em uma cabaça, o artefato se rompeu, espalhando as narrativas por todos os cantos do mundo. Assim, Ananse se tornou o narrador primordial, entrelaçando a humanidade com seus fios de histórias, e o ato de contar transformou-se em uma força vital.
Desde então, a palavra justa e bem moldada revelou-se o mais poderoso instrumento para esculpir lembranças e preservar a existência.
Os Griôs no Mali e a resistência cultural
O Griô prossegue sua jornada temporal, renascendo no Mali, uma encruzilhada africana, como membro do prestigiado clã dos Djéli. Essa casta social, composta por músicos e poetas, era responsável por perpetuar a memória entre os Mandingas, transmitindo saberes por meio da palavra falada e cantada.
Ele relata como aprendeu com seus antepassados e ensinou a seus sucessores a arte de tocar o Balafon e as cordas sagradas do Korá, instrumentos que carregavam uma força mística. A cadência, o ritmo e o timbre de sua voz revelavam poderes encantatórios.
Foi assim que narrou aos descendentes o apogeu do suntuoso Império Mali, sob o reinado do lendário mansa Sundiata Keita, unificador e rei de cem reis vencidos.
Sem a atuação dos Djéli, a comunidade estaria fadada ao esquecimento, o que lhes conferia grande respeito e o status de eixo da continuidade dos saberes, baseada na escuta e na memorização.
A chegada do colonizador trouxe uma nova denominação: Griôs. Este nome foi atribuído a diversos povos contadores de histórias e cantadores de loas na África Atlântica, mas muitos desses narradores tiveram seus enredos silenciados, ameaçando a **memória** coletiva.
No entanto, as histórias sobreviveram na fala, no corpo e no canto dos Griôs. A oralidade, um tecido social indestrutível, costurou as lembranças e salvou a cultura do fogo do esquecimento, preservando a herança ancestral através da voz.
A presença do Griô no Brasil e a celebração da cultura popular
O Griô reexiste na fala dos que o precederam e ressurgiu nos versos das minerações das Gerais, garimpando ouro e diamante, reatando laços ao som dos vissungos, cantos de esperança e saudade da terra original.
Nutrido pela palavra e pela canção, partilhou o banquete de mistérios preparados por seus antepassados. Aprendeu a conservar o Axé nas casas de santo, a guardar segredos espirituais e a reconhecer o invisível, embalando-se em pontos firmados e banhando-se em saudações e ensinamentos de itãs e oríkìs.
Hoje, o Griô se alimenta coletivamente de cantigas, sambas de roda e repentes. Faz coro nos jongos, congos e folias, revivendo nos saberes das mestras e mestres da cultura popular.
Seu impulso vital é despertar a recordação adormecida, contar as histórias que o Brasil nem sabia que precisava conhecer. Ele se tornou o guardião dos enredos vindouros, mobilizando o terreiro místico para alimentar o sagrado com seu samba.
A voz do Griô ecoa no futuro através da voz de cada um. Ele é a sabedoria acumulada, uma entidade viva, detentora dos saberes de seu ilê, um baluarte e orixá em Terra. É também a comunidade em voz altiva que bordou as glórias do pavilhão da escola, regando as raízes para o amanhã.
É essa **memória** que agora ele faz despertar: cumprir o rito anual de narrar **histórias** ao redor do fogo em terreiro sagrado, como faz desde o princípio.
"Eu sou Griô! Samba! Escola! Guardião da memória preta! E vim aqui para contar o meu enredo", conclui o texto, que tem carnavalesco Tarcísio Zanon e texto de João Gustavo Melo.
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