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Apesar dos avanços da medicina terem ampliado as chances de cura e sobrevida de pacientes com câncer, um tema continua sendo pouco discutido nos consultórios e hospitais: a sexualidade. Questões como desejo, autoestima, intimidade, imagem corporal e identidade ainda recebem pouca atenção durante o tratamento, embora influenciem diretamente a qualidade de vida de quem enfrenta a doença.
Para a doutora em Enfermagem Oncológica, sexóloga e pesquisadora em Neurociência da Sexualidade, Íris Bazílio, essa lacuna está relacionada à formação dos profissionais de saúde, que ainda prioriza os aspectos biológicos da doença em detrimento das dimensões emocionais e relacionais do paciente. "Quando fazemos essa pergunta, não estamos falando apenas de sexo. Estamos dizendo ao paciente: 'Eu vejo você inteiro. Não apenas o seu câncer'. É exatamente nesse momento que a ciência encontra a humanidade", afirma.
Segundo a especialista, tratamentos como quimioterapia, cirurgia e hormonioterapia podem provocar alterações que vão muito além dos efeitos físicos, afetando autoestima, desejo sexual, imagem corporal e os vínculos afetivos.
Além disso, experiências traumáticas anteriores ao diagnóstico também podem interferir na forma como cada paciente vivencia sua sexualidade durante e após o tratamento. "Não basta tratar a doença. É preciso compreender como o cérebro, as emoções e a história de vida influenciam a recuperação e a qualidade de vida dessas pessoas", explica.
Um cuidado mais humano e baseado em evidências
De acordo com Íris Bazílio, recursos como práticas integrativas, mindfulness e outras intervenções baseadas em evidências científicas podem auxiliar na redução da ansiedade, do estresse e de sintomas que comprometem a intimidade e o bem-estar, sempre como complemento ao tratamento convencional.
No SUS, onde está a maior parte da população negra brasileira, falar sobre sexualidade durante o tratamento oncológico ainda é um desafio atravessado por desigualdades sociais, raciais e pelo acesso limitado a um cuidado integral. A enfermeira oncológica Natália Moreira, que atua no Instituto Nacional de Câncer (INCA) e uma das alunas da Dra. Íris Bazílio, afirma que esse olhar ainda é pouco explorado na formação dos profissionais. "Minha área de estudo é a sexualidade humana e o câncer, mas nunca havia estudado pela perspectiva da neurociência. Achei inovador", relata.
Segundo ela, compreender a influência dos traumas na resposta sexual trouxe uma nova forma de enxergar o atendimento. "Esse entendimento me fez estar mais atenta e sensível em como as mulheres com câncer vivenciam sua sexualidade e ao que pode estar oculto nessa experiência."
Para Natália, discutir sexualidade durante o tratamento exige preparo. "Não adianta o profissional mencionar o tema apenas para dizer que foi mencionado. É preciso estudo, aprofundamento, reflexão e capacitação. A neurociência traz uma nova perspectiva de cuidado."
Capacitação busca preparar profissionais para essa realidade
Com 28 anos de atuação na enfermagem, Íris Bazílio desenvolveu o minicurso "A Neurociência da Sexualidade: Qualidade de Vida Após o Câncer", voltado a profissionais interessados em incorporar uma abordagem mais humanizada ao cuidado oncológico.
A especialista é enfermeira do Instituto Nacional de Câncer (INCA), doutora em Saúde da Mulher e Oncologia, sexóloga e pesquisadora em Neurociência da Sexualidade na UFRJ e criadora de um ambulatório pioneiro dedicado à sexualidade de mulheres com câncer de mama. O curso reúne sua experiência clínica, acadêmica e científica para apresentar estratégias que ajudam profissionais da saúde a compreender os aspectos neurobiológicos, emocionais e relacionais envolvidos na recuperação dos pacientes.
Outras informações sobre os cursos e projetos desenvolvidos por Íris Bazílio estão disponíveis no site de seu Instituto (irisbazilio.com), no seu Instagram (@iris.bazilio) e em seu canal no YouTube.
Publicado por:
Ana Magal
Sou jornalista, blogueira, escritora e Assessora de Imprensa Freedom. Mas, antes de tudo, sou uma mulher que vive e resiste com TAB II — uma deficiência invisível que muita gente ainda insiste em não enxergar.
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