A Unidos de Padre Miguel anunciou seu grandioso enredo para o Carnaval de 2027, intitulado "Yèyé Omó Ejá – A Coroação das Rainhas das Águas". A agremiação da Vila Vintém levará para a Sapucaí uma profunda homenagem a Yemanjá e Oxum, as divindades das águas, mergulhando nos Itans ancestrais para celebrar a força feminina e a ancestralidade do Axé.

Os Itans, narrativas sagradas que fluem de geração em geração, são a base para a Unidos de Padre Miguel revisitar a mitologia africana. Essas histórias, que se transformam e se enriquecem na oralidade, mantêm seu fundamento enquanto atravessam o tempo, correndo de boca em boca e ganhando novas águas na voz de quem conta.

A escola se propõe a transformar esses mitos em um espetáculo de canto e conto na Avenida, reverenciando Yemanjá, a mãe primordial, e Oxum, a senhora das águas doces, como fontes de mistério e poder. Este enredo é também uma homenagem às mulheres da comunidade – filhas, mães, avós – que carregam em si a correnteza do Axé.

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Sinopse do enredo: Yèyé Omó Ejá – A Coroação das Rainhas das Águas

A narrativa do enredo se desdobra a partir de um diálogo íntimo e ancestral. Em um terreiro sagrado, uma avó, conhecedora profunda do Axé e de suas tradições, acolhe sua neta e compartilha uma história de fundamento, um rio feito de muitas versões. A menina, com olhos atentos, ouve a sabedoria de quem já testemunhou muitas partidas.

A avó inicia a narração: "No tempo em que o Infinito era a única morada, Olodumare-Olofin soprou o fogo e deu origem ao começo. Mas a solidão é deserto, e do peito do Senhor do Princípio, brotou o mar que engoliu o mundo. Lá embaixo, onde o sol não alcança, Olokun fez seu trono de mistério. Mas, acima, onde o sal corta a espuma e nina o balanço dos barcos, quem reina é sua filha, Yemanjá, mãe de tudo o que o mundo ainda haveria de conhecer."

A Rainha se casou com Olofin-Odudua e pariu dez filhos. Guardava consigo um frasco sagrado, além de conchas, pentes e búzios — lembranças do mar dadas por sua mãe Olokun. Contudo, até a água salgada se cansa quando lhe querem impor margens demais. Triste nas terras de Ifé, Yemanjá buscou o horizonte e partiu.

Foi parar em Abeocutá, onde encontrou Okerê, o Rei de Xaci. Desse encontro nasceu um amor, e o casamento foi selado por um pacto de silêncio: ele jamais zombaria de seus seios sagrados, fonte perene de nutrição e amor; e ela jamais revelaria as fraquezas que ele escondia quando a noite lhe tirava a compostura.

"O pacto é fundamento. Quem rompe o segredo desperta a fúria." Um dia, Okerê voltou tomado pela bebida, e a cachaça lhe incendiou a língua, fazendo-o cuspir fogo dentro do próprio lar. Yemanjá ergueu a voz, não aceitando a afronta nascida da quebra do pacto. Okerê, ferido no orgulho, zombou do corpo da Rainha e afrontou sua grandeza.

Yemanjá, soberana como o oceano, não aceitou a traição e decidiu partir. Levava consigo a força e a certeza de seu poderio, buscando o reencontro com a ancestralidade profunda de Olokun. Na pressa da fuga, o frasco sagrado que trazia consigo, presente de sua mãe, partiu-se ao chão.

A água doce rasgou a terra e abriu um rio caudaloso. Ali, desabrochou a força de Oxum, que surgiu no brilho das águas doces e caminhou lado a lado com sua mãe, Yemanjá. Okerê, cego de soberba, tentou barrar a passagem e transformou-se em uma imensa montanha, o grande Oquê, para represar Yemanjá e Oxum.

Mas a bravura das Yabás não conhece cabresto. Yemanjá evocou a justiça do fogo e convocou seu sangue: Xangô. O céu virou breu, e o couro do mundo respondeu ao chamado da Mãe. Sob o comando de Yemanjá, o trovão anunciou o acerto de contas: o raio de Xangô e a correnteza furiosa partiram a soberba de Oquê. A montanha cedeu à força das águas, rachou-se em duas, e o rio encontrou caminho.

Yemanjá seguiu. Oxum seguiu com ela. Quando enfim chegaram ao colo de Olokun, o mar se abriu como ventre antigo para receber e coroar suas filhas. Daquele encontro, a avó conclui: "Água de Rainha não se barra. Yemanjá é mãe de amor imenso. Oxum é ouro vivo na correnteza doce. Quando o rio beijou o mar na foz sagrada, o Axé passou de uma mulher para outra e nunca mais deixou de ser encontro."

A neta ouviu tudo em silêncio. A menina cresceu, os anos passaram, mas a voz da avó permaneceu guardada, ressoando como atabaque. Mais tarde, descobriu-se Filha de Yemanjá e compreendeu que sua avó era Filha de Oxum. Entre as duas havia uma foz: o encontro de uma avó-rio que banhou a vida de uma neta-mar.

A neta prometeu que aquela voz atravessaria a Avenida em forma de Escola de Samba. Na Sapucaí, a Unidos de Padre Miguel desfilará o encontro de Yemanjá e Oxum, inspirada pelos Itans das águas e pela memória desse Axé. Hoje, a neta não caminha sozinha; carrega a avó na fúria das águas que lavam o Pavilhão do Boi Vermelho.

A Vila Vintém, pedindo licença apenas ao Sagrado, abre seus caminhos para contar que nenhuma mulher se curva diante de montanha alguma. Onde a avó ensinou amor, a neta conduz o destino. O Boi Vermelho brada na Sapucaí: a história de uma mulher pode abrir passagem para muitas.

No Carnaval de 2027, a voz da avó correrá na neta. A Coroa de Yemanjá e o amor de Oxum romperão a pedra, e o Boi Vermelho atravessará a Sapucaí levado pela força das águas. A Unidos de Padre Miguel, banhada em Axé, deságua na Sapucaí como a eterna correnteza da ancestralidade da Vila Vintém.

Carnavalescos: Allan Barbosa e Ricardo Hessez
Enredistas: Clark Mangabeira e Victor Marques

FONTE/CRÉDITOS: Colaboração Carnavalesco