A capital federal testemunhou, hoje, 30 de junho de 2026, um marco significativo para o empreendedorismo brasileiro com o chancelamento oficial do Comitê Temático 9 (CT9) – Mulher e Diversidade. Liderado por Daise Natividade, a primeira mulher negra a pautar as diretrizes do Fórum Permanente das Micros e Pequenas Empresas e Empresas de Pequeno Porte nacionalmente, o comitê propõe uma profunda transformação na gestão pública. Ele incorpora as teorias da interseccionalidade de Lélia Gonzalez e Kimberlé Crenshaw diretamente nas políticas de Estado, visando combater 20 anos de silenciamento sobre as assimetrias de gênero e raça no ecossistema econômico.

A iniciativa, que teve seu voto no Tocantins e início no Amapá, representa uma vitória coletiva da articulação política e do pensamento progressista. Ela redefine o papel do Fórum que, por duas décadas, operou sob uma lógica majoritariamente eurocêntrica, tecnocrata e masculina.

A escrevivência institucional da interseccionalidade: Virada de chave no empreendedorismo nacional
A escrevivência institucional da interseccionalidade: Virada de chave no empreendedorismo nacional

Um retrovisor histórico de exclusão e a ascensão da diversidade

Analisar o Fórum Permanente das Micros e Pequenas Empresas sem considerar o retrovisor histórico de exclusão significa invisibilizar o racismo estrutural que tem moldado as instituições brasileiras. Tradicionalmente, a administração pública relegou a população negra, especialmente as mulheres, à margem dos processos decisórios da macroeconomia.

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A ascensão de Daise Natividade não é um mero evento de meritocracia, mas o resultado de um tensionamento necessário e da consolidação de vozes que clamam por representatividade. Ela, juntamente com Synthia Santana e Mariana Rodrigues, forma o triunvirato que lidera o CT9, prometendo uma revolução conceitual e prática.

A interseccionalidade na veia das políticas de estado

O CT9 vai além do debate tradicional sobre “negócios”. Ele se propõe a compreender as barreiras específicas enfrentadas pela mulher negra empreendedora, que incluem:

  • A barreira intransponível do racismo institucional no acesso ao crédito;
  • A exclusão tecnológica;
  • As assimetrias educacionais;
  • O afunilamento do mercado.

A conexão direta com as teorias da interseccionalidade busca desmantelar essas estruturas de desigualdade, propondo soluções que reconheçam a complexidade das identidades e experiências.

Alianças estratégicas e o brasil real espelhado

O cenário político atual, sob a égide de um governo progressista alinhado às demandas populares, fomenta um ambiente propício para a inclusão e reorganização social. Instituições como a REAFRO, em aliança com a Aliança Empreendedora, IPEA e parceiros históricos como Sérgio Mileto (Alampyme), Mauro Oddo (IPEA), Mauro Leônidas (Conselho de Administração) e Dr. Ramalho (Universidade Medicina Regenerativa), apoiaram ativamente a inserção do CT Mulher e Diversidade.

Nesta data, o Fórum receberá, pelas mãos da REAFRO e como pauta do CT9, uma relação para a inclusão de mais 14 organizações negras. Este movimento é um passo crucial para desconstruir o anacronismo demográfico de um colegiado majoritariamente branco e patronal, historicamente dominado por setores tradicionais como a CNI e o Sebrae.

Reafirmando o ubuntu e redefinindo o empreendedorismo

É inegável que 56% da população brasileira é negra, que as mulheres negras representam 28% do país e que mais de 52% dos empreendedores nacionais são pretos e pardos. A presença de apenas uma organização negra em meio a tantas vozes era insustentável.

A inclusão desta rede de apoio afro-organizada desconstrói a falácia do “empreendedorismo por sobrevivência” como um fim em si mesmo. Pelo contrário, ele passa a ser enxergado como uma ferramenta de emancipação política, soberania econômica e transformação social, alinhando-se ao conceito africano de coletividade e Ubuntu.

Com a presença negra em Brasília, o Estado se reposiciona não como um mero balcão de negócios das elites, mas como o indutor de uma economia justa, plural e verdadeiramente democrática, espelhando finalmente o Brasil real em suas instituições.