A atriz e pesquisadora Suelen Gom se prepara para um novo e significativo capítulo em sua carreira, embarcando para Angola para integrar o elenco do espetáculo “Cinderela Negra”. A artista participará do FESTECA – Festival Internacional de Teatro do Cazenga, levando aos palcos africanos uma releitura de um dos contos mais conhecidos da cultura ocidental. A viagem representa a confluência de anos de dedicação à investigação da representação da mulher negra na literatura e à atuação artística.

Pesquisa e palco: Um encontro de trajetórias

Mineira radicada no Rio de Janeiro, Suelen Gom é Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Sua pesquisa acadêmica aprofundou-se na construção e ressignificação das imagens da mulher negra, com foco nas obras de Carolina Maria de Jesus e da pensadora portuguesa Grada Kilomba.

A oportunidade de apresentar “Cinderela Negra” em Angola simboliza o encontro de suas duas principais paixões: a pesquisa acadêmica e a atuação artística. Ambas as frentes são impulsionadas pelo compromisso de edificar novos imaginários, capazes de romper barreiras geográficas e culturais.

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'Cinderela Negra': Reimaginar o imaginário

A artista destaca a importância de revisitar clássicos para semear novas perspectivas. “É preciso lançar novas sementes ao imaginário e não esquecer de regá-las. E é interessante fazer isso através de um clássico, conhecido praticamente no mundo todo”, comenta Suelen.

Ela vê a transposição da história de Cinderela para o contexto africano como uma forma de “reimaginar o imaginário”, provocando reflexão e um movimento filosófico sobre as imagens que moldam o mundo em que vivemos.

A origem ancestral do conto

Uma curiosidade apontada por Suelen é que, apesar de associado à cultura ocidental, o conto de Cinderela possui raízes muito mais antigas, com indícios de origem no continente africano:

  • A versão ocidental mais antiga é da Itália, seguida pela clássica francesa de 1697, que inspirou o filme da Disney.
  • Registros de contos semelhantes foram encontrados na China (860 d.C.) e no Egito Antigo (território africano, século I a.C.).
  • No Egito Antigo, a história envolve uma águia que rouba a sandália de uma jovem humilde e a deixa cair nos pés do faraó, que ordena a busca pela dona para desposá-la, demonstrando uma correlação com os elementos centrais de Cinderela.

A personagem Kalima: Humor e empoderamento

No palco de “Cinderela Negra”, Suelen interpreta Kalima, uma das filhas da madrasta de Cinderela. Apesar de integrar o núcleo das antagonistas, a personagem é construída com nuances de humor, música e dança.

“Interpreto essa meia-irmã da Cinderela que tem em sua mãe um ideal de beleza e uma referência. Mesmo fazendo parte do time de pequenas vilãs, Kalima tem uma ingenuidade de uma adolescente que só quer ser igual à mãe”, explica Suelen.

A atriz ressalta que, apesar de um pouco atrapalhada, Kalima demonstra uma noção de empoderamento feminino. “É uma personagem divertida de jogar, porque tem nuances de humor e um jogo bastante direto com o público, principalmente quando canta e dança durante diferentes momentos da peça”, revela.

Ampliação de referências de negritude

Para Suelen Gom, um dos aspectos mais poderosos de “Cinderela Negra” reside na capacidade de expandir as referências de negritude, tanto físicas quanto de personalidade. Com um elenco inteiramente negro, a montagem celebra a diversidade.

A peça apresenta múltiplas formas de ser, visíveis nos discursos, gestos, corpos, tonalidades de pele e texturas de cabelo em cena, contrapondo séculos de estereótipos negativos e fortalecendo um imaginário positivo da negritude.