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Em meio ao intenso debate nacional sobre o fim da escala 6x1, o curta-metragem independente "Me Desculpa Nathan" emerge como uma poderosa ferramenta de conscientização. Dirigido por Kauã Pereira e estrelado pela atriz Isabele Brum, o filme acompanha a rotina de Thamires, uma mãe negra, solo e periférica, que enfrenta o desafio de equilibrar trabalho exaustivo, sobrevivência e maternidade, pagando um alto preço pela falta de tempo.
A produção, que estreou nos cinemas Estação Net Rio e Ponto Cine, está disponível gratuitamente no YouTube e vem ampliando seu alcance por meio de exibições e debates em diversos espaços culturais. Sua repercussão foi tamanha que a obra recebeu uma Moção de Aplausos da Câmara Municipal de Niterói.
O impacto da escala 6x1 na tela
A trama de Thamires ressoa profundamente com a realidade de milhares de trabalhadores brasileiros. O filme não apenas ilustra as dificuldades diárias impostas pela jornada 6x1, mas também dá rosto e voz às consequências humanas dessa estrutura de trabalho.
A mensagem do curta-metragem alcançou figuras públicas, ampliando a discussão para além dos círculos tradicionais. Personalidades como Erika Hilton, Sonia Guajajara, Leci Brandão, Luiz Antonio Simas e Chico Felitti compartilharam espontaneamente o projeto nas redes sociais, sublinhando sua relevância social. Além disso, professores têm procurado a equipe para exibir o filme em salas de aula, utilizando-o como material didático.
A atriz e sua conexão com a causa
Para Isabele Brum, o contato com a personagem Thamires foi transformador. "Quero que esse filme seja um furacão na luta pelo fim da escala 6x1", declara a atriz. "Depois desse trabalho, fiquei ainda mais inquieta, com vontade de gerar movimento e dar visibilidade ao filme para que ele provoque debates e reflexões entre as pessoas."
Mesmo sem ter vivenciado a escala 6x1 pessoalmente, Isabele foi imediatamente atraída pela temática urgente do roteiro. Ela reflete sobre a dor da mãe solo, a dificuldade de acompanhar o crescimento de um filho, o peso do corpo e o impacto na saúde mental.
A atriz chegou ao papel por acaso, via redes sociais, mas o que a motivou a seguir em frente foi a oportunidade de discutir o tema e a origem do projeto. O filme foi idealizado por formandos da Faetec Adolpho Bloch, a única instituição pública do Rio de Janeiro com formação técnica em audiovisual.
Realismo e imersão na produção
Um dos momentos mais marcantes para Isabele foi a filmagem dentro de um mercado em funcionamento, cercada por funcionárias reais que compartilhavam a rotina da personagem. "Eu estava cercada de várias 'Thamires' da vida real", comenta. "As funcionárias não sabiam a história do filme, mas nos ajudaram, foram maravilhosas. Gostaria muito que elas assistissem."
A preparação para o papel também se fundiu com a própria experiência da atriz. Os dois meses de gravação coincidiram com uma crise de insônia que Isabele enfrentava na época. Em vez de esconder o cansaço, ela o utilizou para dar autenticidade a Thamires. "A privação de sono me deixou com muita dificuldade para trabalhar. Em várias cenas eu estava exausta, com tontura, e isso acabou me aproximando da exaustão física e emocional que eu imaginava para uma mãe negra, solo, periférica e submetida à escala 6x1", explica.
Arte como denúncia e acolhimento
Atualmente em cartaz no Sesc Tijuca com o espetáculo infantil "Ibejis", Isabele Brum propõe uma reflexão contundente sobre a barreira imposta pela escala 6x1 ao acesso à cultura e ao lazer. Ela questiona como as "Thamires" e os "Nathans" da vida real conseguem desfrutar de momentos lúdicos e de afeto diante de uma rotina tão massacrante.
A atriz defende que o verdadeiro papel da arte é atuar tanto na denúncia quanto no acolhimento social. "Como artista, busco usar minha arte para provocar debates urgentes, como no curta 'Me desculpa Nathan', mas também para oferecer cura, afeto e imaginação, como neste espetáculo 'Ibejis'", afirma. Ela conclui com uma pergunta crucial:
- Como uma mãe solo, submetida a essa jornada, conseguiria levar o filho para assistir a uma peça de teatro no fim de semana?
- Na única folga, o cansaço acumulado é tão grande que mal passa pela cabeça priorizar um passeio cultural.
- O lazer e a cultura são direitos que deveriam ser acessíveis a todos, mas o desafio vai muito além do preço do ingresso; envolve transporte, alimentação e, fundamentalmente, tempo.
A obra e a visão de Isabele Brum reforçam a urgência de repensar as condições de trabalho e o impacto social da escala 6x1 na vida dos brasileiros.
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