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O Congresso Nacional das Escolas de Samba (CONASAMBA) 2026, em seu segundo dia na Fábrica do Samba, em São Paulo (SP), promoveu um encontro crucial. Profissionais, artistas e empreendedores do Carnaval brasileiro debateram os principais desafios para a comunidade que vive e trabalha com a folia, com destaque para a urgência do empreendedorismo consciente e a preservação da ancestralidade.
Sob a condução de Célia Domingues, o painel teve início com a participação de Vanessa Alves, musa da União de Maricá. A nutricionista abordou temas como o empreendedorismo feminino, a importância do cuidado corporal e o resgate da autoestima entre as mulheres do samba.
Alves defendeu veementemente a valorização das sambistas, sugerindo, inclusive, que a performance de musas, madrinhas e rainhas fosse elevada à categoria de quesito. Essa medida, segundo ela, garantiria que apenas mulheres com profundo conhecimento da arte e da história do Carnaval ocupassem esses postos.
A musa enfatizou a necessidade de profissionalizar as figuras femininas do samba. “É fundamental que as escolas de samba valorizem essas meninas, as musas. Se for um quesito, não teremos mulheres alheias à nossa arte ocupando espaços de meninas da comunidade”, afirmou Vanessa.
Ela complementou, ressaltando que novas integrantes devem aprender a história, a ancestralidade e a dança do Carnaval, além de respeitar o pavilhão. “Já passou da hora de profissionalizar as meninas do samba: rainhas, musas e integrantes da ala de passistas”, concluiu, questionando a falta de remuneração para essas participantes.
Escolas de samba como quilombos urbanos e centros de aprendizado
Em seguida, o cantor e compositor Sandro Ferraz, decacampeão do Carnaval gaúcho, compartilhou sua perspectiva. Conhecido como “filho do Carnaval”, Ferraz destacou o papel essencial das escolas de samba como pilares culturais de pertencimento, acolhimento e formação de valores.
Sandro Ferraz citou um amigo que definia as escolas de samba como “quilombos urbanos” contemporâneos. “Lá se discute drogadição, gravidez precoce, a falta de comida na mesa”, pontuou. “Escola de samba é um local de acolhimento e, acima de tudo, de aprendizado”.
Ainda sobre o potencial educativo das agremiações, Ferraz sugeriu um caminho prático: formar membros da comunidade para a elaboração de projetos. Essa capacitação permitiria às escolas buscar recursos públicos e privados, fortalecendo sua estrutura e capacidade de atuação.
Combate ao preconceito e a profissionalização do Carnaval
Felipe Diniz, carnavalesco e enredista mineiro, abordou a legitimidade do Carnaval como cidadania, trabalho e política pública. Ele destacou as barreiras do preconceito que ainda persistem, com parte da sociedade não reconhecendo o labor carnavalesco como uma profissão.
Diniz exemplificou a luta em cidades com Carnaval de porte médio, como Belo Horizonte, onde a liberação de verbas ocorre a apenas 20 dias dos desfiles. Para ele, é fundamental combater esse estigma com conceitos que reforcem o valor da atividade.
Felipe defendeu a importância do reconhecimento e do empreendedorismo carnavalesco. “É importante esse reconhecimento. Esse empreendedorismo carnavalesco. Não só para a gente, mas para o Carnaval como um todo. É a nossa ancestralidade”, afirmou.
Ele concluiu: “Se fosse ruim, ninguém copiava. Nosso produto e nossas profissões precisam ser respeitados”.
A importância da memória e o empreendedorismo na preservação
O painel abordou o complexo dilema do Carnaval, equilibrando empreendedorismo e aprendizado, criação e resistência, cultura e ancestralidade frente às exigências do mercado. Rubens Gordinho, compositor da Baixada Santista, defendeu a preservação da memória e da história do Carnaval.
Ele ressaltou a importância de honrar aqueles que construíram a folia em tempos difíceis, enfatizando que o futuro não deve jamais negligenciar o passado.
Rubens Gordinho afirmou: “Esse debate sobre empreendedorismo é muito interessante, pois fomenta o futuro da escola de samba. Mas é igualmente crucial a preservação da memória, da história do samba e dos nossos sambistas”.
Ele concluiu que é preciso “empreender na preservação dessa história, para não acontecer um apagamento cultural”.
Captação de recursos: o "décimo quesito" do Carnaval
Finalizando o painel, o empresário Renato Cândido compartilhou sua expertise em captação de recursos para o Carnaval. Ele destacou a natureza urgente das necessidades financeiras das escolas de samba e seus membros.
Com uma abordagem pragmática, Cândido brincou ao comparar a captação de recursos a um “décimo quesito”, sublinhando sua importância vital para a realização dos desfiles.
Cândido defendeu a formação de captadores de recursos dentro das próprias comunidades, essencial para o crescimento da cultura como produto. “Alguém tem que pagar a conta. Esse profissional precisa estar preparado para apresentar a agremiação, conhecendo a conduta e as cores do projeto”, explicou.
Ele enfatizou que o “cliente” muitas vezes é a própria comunidade local, como “a padaria que conhece sua mãe, seu pai e você”. “Isso é captação de recurso”, concluiu, reforçando a importância da conexão local.
Descentralização de recursos e política cultural
O painel demonstrou como diferentes perspectivas podem convergir para promover avanços no Carnaval brasileiro. Ao final, Sandro Santos, coordenador-geral do Sistema Nacional de Cultura (MinC), comentou sobre a relevância do debate.
Ele abordou o cenário de descentralização dos recursos do Ministério da Cultura, um ponto crucial para o futuro das agremiações.
Santos explicou que os recursos estão sendo descentralizados via Política Nacional Aldir Blanc, direcionando-os para estados e municípios. “Temos que discutir com os municípios a relação operacional, e com os estados, a discussão tática”, disse.
Ele finalizou, afirmando que o Governo Federal se concentra nas decisões estratégicas, e que a compreensão dessas nuances da política cultural é fundamental.
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