A Imperatriz Leopoldinense, em preparação para o Carnaval 2027, divulgou a sinopse de seu enredo intitulado “A Memória do Rei e o Sumiço de Dona Júlia”. A proposta da escola é conduzir o público por uma profunda jornada cultural, explorando a ancestralidade do maracatu e desvendando o enigmático desaparecimento e resgate da sagrada calunga Dona Júlia, um dos mais importantes símbolos da cultura afro-brasileira.

O enredo inicia sua narrativa com a essência do maracatu, que transcende a mera representação de sua própria história. Guiado pelo baque dos tambores, o cortejo atravessa o Atlântico e os séculos, conectando a África ancestral ao Brasil contemporâneo. Essa viagem sonora nos transporta ao antigo Reino do Congo, onde presenciamos a coroação de um monarca negro, em uma celebração exuberante de poder, música e dança.

A ancestralidade do maracatu no Brasil

O eco dos tambores do Reino do Congo ressoa em terras brasileiras, transportando-nos ao Nordeste do Brasil. No velho Recife, o séquito real caminha pelas ruas, e a origem bantu se mescla ao traço nagô. A dor do exílio se transforma em beleza, com novas vestes e caminhos, mas mantendo a mesma dignidade ancestral.

Publicidade

Leia Também:

Nesse novo reino que desfila, o porta-estandarte anuncia a chegada, enquanto a dama do paço conduz os mundos invisíveis. O rei e a rainha, protegidos por suas capas que não tocam o chão, são a memória soberana que resistiu à travessia, o bem mais valioso festejado por sua corte.

É um universo colorido de reinvenções, moldado no chão do Brasil. Uma nova realidade forjada nos terreiros, onde o povo da macumba desfila vestido de rei e rainha. Uma brincadeira séria que exibe ancestrais divinizados, sustentando-se nos mistérios do sagrado.

O mistério da calunga Dona Júlia

Entre os segredos mais representativos do maracatu, destacam-se os mistérios da calunga. Essa boneca fetiche é a guardiã da presença secreta dos ausentes, o assentamento daqueles que vieram antes e continuam a guiar os passos dos que estão por vir.

Um exemplo notável é a princesa Dona Júlia, uma calunga de imbuia e cera tingida de pigmento negro, com braços e pernas articulados, cabeça esculpida em madeira nobre e vestida com rendas, joias e veludo bordado.

Dona Júlia foi confeccionada a mando do rei coroado do Maracatu-Nação Porto Rico, Eudes Chagas, cinco anos após o falecimento de Dona Santa. A boneca servia como um trono em estatueta feminina para que Dona Santa – mãe e iniciadora de Eudes no culto do Xangô de Pernambuco – pudesse permanecer próxima dele. Ela era a presença viva de Maria Júlia do Nascimento, a Dona Santa, reverenciada no terreiro e alimentada pela espiritualidade.

Por mais de uma década, a boneca foi erguida pela dama do paço nas saídas carnavalescas do Maracatu Porto Rico, oferecendo proteção até o encantamento de pai Eudes.

O desaparecimento e o resgate

Com a morte do líder e babalorixá, no final dos anos setenta, os objetos sagrados do Maracatu-Nação Porto Rico foram levados para um museu. Considerado um local seguro, a intenção era resguardar esses artigos de valor simbólico inestimável até que a sucessão do Porto Rico fosse resolvida. Assim, Dona Júlia, calunga sagrada ligada ao culto dos eguns, foi parar no museu.

Longe do terreiro, ela permaneceu em desencanto, transformada em um mero artefato, desprovida de seu sentido sagrado. Dois anos depois, a missão de retirar o Porto Rico do Museu foi confiada à mãe Elda Viana, neta de santo de Eudes e líder confirmada pela ancestralidade para reorganizar o maracatu.

Foi ao reivindicar a calunga sagrada de sua nação que os integrantes do Porto Rico tomaram conhecimento de seu sumiço. O museu, responsável por sua integridade, informou que Dona Júlia havia desaparecido de suas dependências de forma desconhecida. Um mistério duradouro, uma ausência sentida por mais de três décadas, que se acreditava ser um furto definitivo.

Após trinta e quatro anos de desaparecimento, a boneca reapareceu. Foi levada a um terreiro de candomblé em Olinda, acusada de assombrar o morador da residência que, por acaso, escondia seu paradeiro. Deixada no Ilê Axé Oyá Meguê, a calunga foi entregue aos cuidados das tradições do Xambá.

Guiados pela ancestralidade e pela dúvida, os sacerdotes recorreram à tábua sagrada e ao jogo dos dezesseis búzios. A vontade dos orixás foi clara: a boneca não podia permanecer naquele Ilê, e todos os esforços deveriam ser prioridade para que ela atingisse o seu verdadeiro propósito.

O retorno e o encantamento

A calunga finalmente retornou ao seu Maracatu de origem dias antes do Carnaval de 2014. Seu reaparecimento foi notícia que correu de boca em boca. De volta aos preceitos religiosos do Ilê Axé Oxóssi Guangoubira, após décadas sem cuidados, Dona Júlia estava em desencanto espiritual, uma madeira morta e inanimada.

Para que voltasse à vida, era necessário preceito e encantamento. Seu corpo foi limpo com morim vermelho, roxo, branco e preto, e quatro carreteis de linha foram desenrolados, livrando-a de qualquer embaraço ou presença da morte. Um acaçá percorreu sua silhueta, e grãos secos foram lançados sobre a madeira escura.

Uma limpeza profunda foi realizada com cantigas sagradas, e a energia das folhas de boldo e colônia despertou antes de se misturarem às águas que banhariam a boneca, abrindo as portas para a incorporação. No terreiro, seu corpo foi colocado diante de um vasilhame de barro com mingau de farinha, um abanador de palha e uma colher de pau. Velas acesas, copo d'água e pólvora incendiada aqueceram seus pés, e o orixá derramou encantamento para animá-la. Em sua cabeça – o orí esculpido em madeira – o mistério é guardado por entre três frestas.

O ichãn tocou o chão, e o galho, preparado no quarto de igbalé, guiou o caminho do egun evocado. Dona Júlia se encantou, tornando-se madeira viva e sagrada. Levada ao igbá de Oxalá, sua energia pulsou mais forte com o sangue de uma cabra, um casal de pombos e cinco galinhas escorrendo por seu corpo. Em seguida, foi vestida de branco e recolhida no peji (roncó), cumprindo um resguardo de três dias antes de ganhar a rua e a folia.

Agora, como boneca que guarda egun, Dona Júlia passou a falar pela boca de Oyá Igbalé, a senhora dos ventos e da vida e da morte, que a anima durante o cortejo do Maracatu-Nação Porto Rico. Encantada, ela foi erguida pelas mãos da dama do paço e conduzida ao carnaval, retornando às ruas do Recife em um domingo de Momo, brincando à frente da corte, guiada pelo estandarte que leva a caravela de Santa Maria.

No dia seguinte, em uma segunda-feira, foi levada em cortejo noturno para o Pátio do Terço. A folia de seu retorno às tradições carnavalescas culminou em uma noite de maracatu, onde os tambores tocaram e se silenciaram para reverenciar quem partiu. Diante da igreja, a ausência dos encantados se conecta à memória dos reis e rainhas coroados sob o olhar da Virgem do Rosário.

À meia-noite, sob o céu escuro, a lua flutua no mundo visível dos vivos, fazendo resplandecer o sol do meio-dia que anima o reino invisível dos mortos. É nesse instante que as luzes se apagam e a senhora do portão, que cede a passagem do Òrun para o Àiyé, se manifesta. Os tambores tocam e a ancestralidade baila. Dona Júlia se mostra viva, energizada, dançando ao sabor das mãos da dama do paço, girando no sentido contrário ao do relógio, buscando um encontro marcado com aquilo que já se foi.

ENREDO, PESQUISA, DESENVOLVIMENTO E TEXTO: LEANDRO VIEIRA.

PS: Agradeço imensamente a Mestre Chacon pela generosidade de me presentear com a sua sabedoria, abrir os caminhos e me permitir adentrar os mistérios que as calungas iniciam e encerram entre as quatro paredes dos terreiros. Bato cabeça pro filho de Xangô, sucessor de Mãe Elda, mestre do Maracatu Porto Rico e sacerdote do Ilê Axê Oxóssi Guangoubira.

FONTE/CRÉDITOS: Colaboração Carnavalesco