A professora Monique Medeiros, mãe de Henry Borel e ré no processo sobre a morte do filho, declarou nesta terça-feira (2) no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ) que suspeita ter sido dopada na madrugada de 8 de março de 2021, dia em que o menino faleceu. O depoimento ocorreu no nono dia do júri, onde ela e o ex-vereador Jairinho são acusados pelo crime.

Monique e o então vereador Jairo Souza Santos Júnior, conhecido como Dr. Jairinho, enfrentam acusações pela morte da criança. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) sustenta que Jairinho torturava o enteado, e Monique foi omissa em proteger o filho.

Durante seu depoimento, a ré afirmou que, inicialmente, não acreditava que o padrasto da criança seria capaz de agredir o menino. Contudo, ela ressaltou que, atualmente, há elementos que a levam a crer que Jairinho pode ter sido o responsável pela morte.

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“Pode ser muita burrice, mas em nenhum momento pensei que ele pudesse fazer qualquer tipo de agressão ao meu filho”, declarou Monique, ao ser questionada pela juíza Elizabeth Machado Louro, presidente da sessão no 2º Tribunal do Júri.

No início de sua fala, Monique descreveu a relação de Jairinho com ela e Henry como boa. No entanto, admitiu que o então namorado era ciumento e que, cerca de um mês após o início do relacionamento, sofreu uma tentativa de enforcamento por parte de Jairinho durante uma “crise de ciúme mais grave”.

O relacionamento teve início em outubro de 2020, e em janeiro de 2021, Monique foi morar com Jairinho. Ela relatou que, no final de janeiro, Henry se queixou ao pai, Leniel Borel, de ter recebido “um abraço forte do tio”.

Este episódio levou Leniel a conversar com o padrasto, pedindo que não repetisse o gesto. Monique contou que, a pedido de Leniel, passou a evitar que a criança ficasse sozinha com Jairo.

Episódios de agressão e a babá

Monique Medeiros mencionou um dia em que, mesmo com ela em casa, Henry a procurou e disse que Jairinho tinha dado uma banda (rasteira) e uma moca (soco na cabeça) nele. Ao confrontar Jairo, ela disse que o então vereador negou, alegando que era apenas uma brincadeira e que segurou o menino para que não caísse.

Segundo Monique, Jairinho teria dito ainda que a mãe mimava o menino e que ele “viraria veadinho”. O vereador prometeu que tal comportamento não se repetiria, e, de acordo com a mãe, esse episódio marcou um distanciamento da criança com Jairo.

Em vários momentos, Monique chorou durante o depoimento. Ela contestou a informação da babá de Henry, Thayná de Oliveira Ferreira, de que teria sido avisada de uma agressão de Jairinho a Henry no dia 2 de fevereiro. A babá havia prestado depoimento no júri no último domingo (31).

“Ela falou que contou no mesmo dia, é mentira! Se tivesse contato, eu nunca deixaria os dois juntos", afirmou Monique no júri.

Troca de mensagens com a babá

Monique apresentou sua versão sobre a troca de mensagens de 12 de fevereiro com a babá, a respeito da suspeita de novas agressões de Jairinho. Ela relatou ter sido surpreendida ao saber que o namorado chegou em casa antes do horário e afirmou ter evitado que ele ficasse sozinho com Henry.

Ao receber mensagens da babá informando que o menino estava no quarto com Jairinho, Monique disse que ficou "apavorada", temendo que Jairinho pudesse ter sido rígido com a criança. “Em nenhum momento achei que meu filho tinha sido agredido. Não queria que ele se comunicasse da forma rígida que ele era”.

Durante a troca de mensagens, ela insistiu para que a babá interrompesse os dois e levasse Henry para a brinquedoteca ou para o shopping onde ela estava. Em uma das mensagens, a babá contou que o garoto tinha saído do quarto e que “estava bem”.

Em mensagens seguintes, Monique recebeu a informação de que o menino reclamava de dor no joelho e na cabeça. Ela chegou a receber um vídeo de Henry, mas afirmou que não percebeu que ele mancava. “Hoje acredito que houve, sim, alguma coisa com o meu filho dentro do quarto”.

Em outra mensagem, a babá relatou que Henry disse ter levado uma banda e um chute, e que foi avisado para não contar à mãe, sob a ameaça de que Jairinho “iria pegá-lo”. Pouco depois, o próprio menino participou de uma ligação de vídeo com a mãe, na qual contou que “o tio tinha brigado com ele” e que ele atrapalhava o relacionamento do casal.

Monique relatou que, antes de sair do shopping, chegou a comprar câmeras de vigilância com a intenção de instalá-las no apartamento. A professora acrescentou que, no dia seguinte, ela e o padrasto levaram o garoto a um hospital, onde um raio-x foi feito e constatou que não havia nada no joelho.

Apagamento de mensagens e a noite da morte

Em outro momento do depoimento, Monique Medeiros garantiu que não ordenou que a babá Thayná apagasse as mensagens de celular entre as duas. “Eu tenho prova de que não mandei ela apagar as mensagens. Por que eu mandaria apagar, se eu tinha os prints no meu telefone?”, declarou no júri.

Segundo Monique, a ordem para apagar as mensagens teria partido da família de Jairinho. Ela contextualizou que várias pessoas da família da babá eram empregadas da família de Jairinho, citando um tio que seria motorista do Coronel Jairo, pai do então vereador.

Sobre o dia do crime, na madrugada de 8 de março de 2021, Monique Medeiros contou que Henry estava dormindo no quarto do casal, e ela e Jairinho foram para outro quarto. Ela suspeita que o então namorado havia lhe dado remédio para dormir, prática que alega já ter flagrado em outras ocasiões. Segundo ela, Jairinho fazia isso “para que ela não conversasse com outros homens enquanto ele estava dormindo”.

Monique narrou ter sido acordada por Jairinho por volta das 3h40. Ele teria contado a ela que tinha ouvido um barulho e, ao entrar no quarto, encontrou o menino no chão e o recolocou na cama. Jairinho repetia que Henry não estava respirando direito. O casal seguiu para o hospital. Lá, o então vereador dizia que tinha ouvido um barulho. No hospital, ela endossou a versão do namorado, mas, em depoimento, admitiu à juíza que não tinha ouvido.

Monique descreveu que, no hospital, começou “um pesadelo”, referindo-se a duas horas e meia de manobras de ressuscitação. Ela disse que o menino chegou ao hospital com o corpo “branquinho”, sem marcas e lesões. “Na minha cabeça, como não tinha nenhum sinal, então, só podia ser uma queda da cama”.

Durante o depoimento, a mãe de Henry Borel afirmou que não havia, na época, conhecimento público de outras denúncias de agressão de crianças por parte de Jairinho. Na última quinta-feira, duas ex-namoradas de Jairinho prestaram depoimento e confirmaram as denúncias de agressão contra duas crianças.

Monique Medeiros afirmou que, poucos dias antes de sua prisão e a de Jairinho, que aconteceria em 7 de abril de 2021, confrontou o ex-companheiro. “Eu realmente dei alguns tapas no rosto dele e falei ‘você matou meu filho’”. Em resposta, ele teria pegado uma bíblia e jurado nunca ter encostado um dedo no filho dela.

Ela atribuiu a Jairinho o fato de os telefones celulares dos dois terem sido arremessados pela janela, quando investigadores foram ao apartamento deles. “Eu estava dormindo”. Questionada pela juíza Elizabeth Machado Louro se Jairinho é responsável pela morte de Henry Borel, Monique Medeiros respondeu “acho que pode ter sido”.

FONTE/CRÉDITOS: Bruno de Freitas Moura - Repórter da Agência Brasil