O Carnaval de rua, uma das mais vibrantes manifestações culturais do Brasil, marcou presença inédita e reivindicou seu protagonismo no Congresso Nacional das Escolas de Samba (CONASAMBA) 2026. Realizado na sexta-feira, o painel "O Futuro do Carnaval de Rua no Brasil: Governança, Financiamento e Impacto Territorial" reuniu especialistas e líderes para discutir os desafios e a valorização dos blocos, que buscam reconhecimento e apoio público condizentes com sua relevância cultural e econômica.

Debate plural: vozes do Carnaval de rua

O painel contou com uma formação diversificada de especialistas e representantes de diversas regiões do Brasil. Presencialmente, participaram Carla Wendling, coordenadora administrativa da Associação Carioca de Blocos e Bandas Folia Carioca e diretora do Departamento de Blocos e Bandas do Carnaval de Rua da FENASAMBA (RJ); Bell Xavier, vice-presidente da UBCRESP (União dos Blocos do Carnaval de Rua do Estado de São Paulo); Elisa Santos, gestora cultural e presidenta da Sambúrbio Produções; José Claudemir Martins, vice-presidente da União dos Blocos Carnavalescos da Cidade de Porto Alegre; e Kitanji Nogueira, presidente da Liga dos Cordões e Blocos Carnavalescos da Cidade de Pelotas.

A discussão foi enriquecida com contribuições em vídeo de Lucas Moraes, representante da Liga Belorizontina dos Blocos de Rua; Jairo Araújo, gestor e articulador dos blocos de rua do Carnaval do Piauí; e Messias Júnior, sociólogo e coordenador do movimento THE CARNAVAL, de Teresina. A mediação ficou a cargo de Renata Masf, diretora executiva da UBCRESP, que conduziu o debate com expertise em Comércio Exterior e Projetos.

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Os desafios do fortalecimento do Carnaval de rua

Renata Masf iniciou a mesa questionando sobre o principal desafio para o fortalecimento do Carnaval de rua e seus impactos nos blocos, fazedores de cultura e na população. A partir dessa indagação central, os convidados apresentaram suas perspectivas, contextualizando as realidades de seus respectivos territórios.

Carla Wendling, do Rio de Janeiro, ressaltou a evolução dos blocos cariocas, que, apesar de sua forte ligação com a tradição, souberam incorporar a tecnologia. Ela exemplificou que, enquanto no passado muitos blocos sequer dispunham de sistema de som, os atuais megablocos, como os de Ivete Sangalo, contam com uma infraestrutura tecnológica grandiosa.

Kitanji Nogueira, de Pelotas, cidade com mais de um século de tradição em blocos, enfatizou a importância da união entre as diversas manifestações carnavalescas. “Carnaval de concurso fortalece o carnaval de rua e vice-versa. Não pode existir dicotomia”, afirmou, destacando a complementaridade entre os blocos e as escolas de samba.

José Claudemir Martins, de Porto Alegre, corroborou a visão de Kitanji, ressaltando a interconexão entre as modalidades: “Não podemos falar do carnaval de blocos sem antes falar do carnaval de escolas de samba. O pessoal que sai regrado nas escolas de samba vai para os blocos se divertir”. Ele pontuou que, embora a Prefeitura de Porto Alegre ofereça o Orçamento Participativo para captação de recursos, o montante é insuficiente.

Martins criticou a postura governamental, afirmando que “Por mais que o poder público faça, eles não sabem fazer como a gente faz — e eles não querem que a gente faça. Não vamos pedir dinheiro para o governo, vamos pedir o retorno dos impostos que nós pagamos”, defendendo uma visão de direito e não de favor.

Elisa Santos alinhou-se aos colegas, destacando a dependência dos blocos de editais públicos. “Nesse ano, para o Sambúrbio, os recursos chegaram quinze dias depois do Carnaval”, lamentou, evidenciando a fragilidade do modelo. Para ela, a principal barreira é a “respeitabilidade do poder público”, que se foca apenas em estatísticas. “Temos que nos fortalecer e nos unir porque juntos somos muito mais fortes”, concluiu, apelando por maior reconhecimento.

De forma contundente, Jairo Araújo, em sua participação por vídeo, resumiu um dos maiores obstáculos: “O primeiro desafio é a ausência de apoio público: isso tem que ser política de estado, não de gestor”, defendendo a institucionalização do suporte ao Carnaval de rua.

Vislumbrando o futuro e o protagonismo do Carnaval de rua

A segunda questão proposta por Renata Masf abordou o futuro: “O que deve acontecer para que o cenário seja modificado e para que haja a valorização do Carnaval de rua em cada um dos territórios representados na mesa?”. Essa pergunta gerou uma nova onda de reflexões e propostas entre os painelistas.

Elisa Santos, com uma fala que gerou aplausos, indicou o caminho: “Temos que buscar caminhos e diretrizes para sermos reconhecidos e respeitados. Nosso lugar não é de subserviência”, enfatizando a necessidade de autonomia e dignidade para o setor.

José Claudemir Martins, por sua vez, apontou que o diálogo já em curso é um passo fundamental, mas que a continuidade é essencial. “O que precisa fazer já está sendo feito, por isso estamos aqui: temos que continuar fazendo”, afirmou, sugerindo que a persistência na articulação é a chave.

Bell Xavier defendeu a criação de uma fonte de financiamento em nível nacional, indo além dos recursos municipais. Ele também salientou a importância de “ampliar a participação dos fazedores de Carnaval para ajudar na defesa do Carnaval de rua. Se somos vitrines do mundo, temos que estar amparados”, clamando por um suporte à altura da projeção internacional da festa.

Kitanji Nogueira, em sua conclusão, fez uma crítica incisiva à dependência de editais, comparando a situação do carnaval com grandes eventos internacionais. “Edital não é forma de colaborar com o carnaval: não vejo Copa do Mundo ou Jogos Olímpicos passando isso”, finalizou, questionando a adequação do modelo atual de financiamento.

FONTE/CRÉDITOS: Colaboração Carnavalesco