No último sábado, a cidade de São Paulo sediou, pela primeira vez na Fábrica do Samba, o Encontro Nacional dos Diretores e Diretoras de Harmonia, um dos pontos altos do CONASAMBA. Organizado pela FENASAMBA, o evento, acompanhado de perto pelo CARNAVALESCO, promoveu uma imersão profunda em temas cruciais como empatia e liderança, essenciais para a gestão das equipes de harmonia e o relacionamento com os componentes das escolas de samba.

Mediados por Demis Roberto, os painéis reuniram especialistas que compartilharam suas experiências e visões sobre a complexa função, abordando desde a formação histórica até as demandas contemporâneas.

A trajetória do diretor de harmonia: um legado de vivência

Raimundo Mercadoria, uma verdadeira lenda do carnaval paulistano e referência no quesito, relembrou as dificuldades inerentes ao cargo de diretor de harmonia em tempos passados. Ele destacou que, historicamente, a função exigia uma multifuncionalidade impressionante.

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“Naqueles anos, ser diretor de harmonia era uma tarefa ingrata, especialmente em São Paulo. Era preciso dominar todos os instrumentos da bateria, saber cantar e, popularmente, ‘dar no pé’, ou seja, conhecer todas as nuances da escola de samba”, comentou Mercadoria.

Ele enfatizou que a ascensão ao cargo não era instantânea, mas sim um processo de anos de aprendizado prático. “Ninguém se tornava diretor de harmonia da noite para o dia. Era uma formação construída de baixo para cima, passando por todos os setores: ajudante de chefe de ala, chefe de ala, auxiliar de bateria, e até mesmo fabricando as próprias baquetas. Era uma vivência completa da escola”, detalhou o veterano.

Técnicas e desafios na formação de equipes de harmonia

Carlos Pires, conhecido como Carlão, aprofundou-se nos aspectos técnicos da função, ressaltando a importância de o diretor de harmonia ter um conhecimento abrangente dos demais setores da escola. Ele explicou o processo de formação de novos integrantes, destacando a necessidade de preservar o legado e entender a transmissão do saber.

“É fundamental compreender o passado para saber o que deve ser mantido e como o conhecimento é repassado. Um diretor de harmonia precisa entender todo o funcionamento da escola, desde a construção do desfile até os critérios de julgamento dos quesitos”, explicou Carlão.

Ele argumentou que, sem esse conhecimento, a autoridade do diretor pode ser questionada. “Como dialogar com um mestre de bateria sobre um problema técnico se você não tem o mínimo entendimento? A formação é um processo que exige disciplina, liderança e a capacidade de comandar um grupo, orientando e direcionando o trabalho”, pontuou.

Carlão também descreveu sua metodologia para avaliar e desenvolver sua equipe. Ele enfatizou a importância da comunicação e das aptidões individuais para a distribuição de responsabilidades.

“Nos cursos de formação, promovemos encontros frequentes para debater e trazer novas ideias, inclusive com profissionais de outras escolas. O principal é que a pessoa tenha interesse, amor pela escola e vontade de aprender”, afirmou. “Com o tempo, identificamos as habilidades de cada um: alguns se comunicam melhor com a comunidade, outros entendem mais de barracão ou fantasia. Ninguém domina tudo. Por isso, distribuímos as tarefas conforme as competências, formando um grupo com qualidades diversas para atender a todas as áreas, já que ninguém consegue estar em vários lugares ao mesmo tempo”, concluiu.

A essência da empatia no serviço à comunidade

Rogério Félix, diretor de harmonia da Dragões da Real, trouxe à tona o lado humano da função, definindo a harmonia como a “arte de servir”. Ele enfatizou que a missão primordial é oferecer as melhores condições para que o componente brilhe no desfile.

“Se você não está disposto a servir ao próximo, este não é o seu departamento. Servimos nossa comunidade o ano inteiro para que ela nos represente em um único dia: o desfile”, declarou Félix. Ele salientou que a liderança se constrói pelo exemplo, não pela imposição. “Não adianta apenas falar; é preciso fazer. As pessoas se espelham nas nossas atitudes. Se eu limpo o chão da quadra, mostro que sou mais um trabalhador da comunidade. Uso o mesmo uniforme da minha equipe porque não sou maior do que ninguém”, exemplificou.

Félix também destacou a necessidade de os diretores de harmonia da nova geração buscarem conhecimento em áreas como liderança, empatia e comportamento humano, especialmente diante do crescente número de desafios relacionados à saúde mental.

“Quando escolho um diretor de harmonia, busco a paixão. Se a pessoa ama a escola, o restante ela aprende. A grandeza de uma escola de samba não está nos recursos, mas na quantidade de pessoas apaixonadas que a movem”, disse. “É crucial que o diretor da nova geração estude perfil comportamental e empatia, pois lidamos cada vez mais com pessoas que enfrentam dificuldades emocionais. É preciso compreender, ouvir e acolher o componente”, defendeu.

Diferenciando quesitos e a importância da uniformização

Representante do carnaval capixaba, Wesley Dedanai abordou a frequente confusão entre os quesitos Harmonia e Evolução, que ainda persiste em muitas escolas de samba. Ele enfatizou a distinção e o papel das equipes na preparação do desfile.

“Temos trabalhado para deixar claro que harmonia e evolução são quesitos distintos. A harmonia está diretamente ligada ao canto da escola. Ambas são cruciais na condução dos ensaios de quadra, técnicos e em todo o processo preparatório”, explicou Dedanai.

Ele também buscou desmistificar a imagem antiga do diretor de harmonia como uma figura autoritária. “Liderança não é arrogância. Trabalhamos com pessoas que frequentam a quadra por amor. Muitas vezes, um aperto de mão ou um abraço já as faz sentir parte do projeto”, comentou.

Dedanai finalizou ressaltando a relevância da uniformização das equipes, tanto para a organização interna quanto para a identificação visual da liderança. “O diretor de harmonia é uma referência visual. Quando alguém precisa de orientação, sabe a quem procurar. Além disso, ele representa o pavilhão, o maior símbolo da escola”, afirmou.

“A escola de samba é um equipamento sociocultural vital, transformando vidas, especialmente em territórios vulneráveis. O Carnaval, como uma das maiores manifestações culturais do planeta, exige que quem veste suas cores e defende sua comunidade compreenda a responsabilidade de preservar esse patrimônio”, concluiu Dedanai.

FONTE/CRÉDITOS: Colaboração Carnavalesco