A Mocidade Unida da Mooca, renomada escola do Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, celebrou seu aniversário neste último sábado. A festividade, que inicialmente estava programada para uma data mais próxima de sua fundação, em 18 de março, foi reagendada em respeito ao recente falecimento de Carlos Falanga, carinhosamente conhecido como Bidi, um dos fundadores da instituição. Durante o evento, a MUM aproveitou a ocasião para apresentar o samba-enredo de 2027, intitulado “Modupé, Cardeais!”, uma criação do carnavalesco Renan Ribeiro. A composição é fruto da colaboração de Santaninha, Rubens Gordinho, Gui Cruz, Lucas Donato, Aquiles da Vila, Fabiano Sorriso, Vitor Gabriel, Mateus Pranto, Willian Tadeu e Biel. A noite também foi palco da oficialização de Pixulé como novo vocalista da Mooca, que dividirá o microfone com Gui Cruz, além de um show emocionante da coirmã Pérola Negra e a final da audição que elegeu Talita Garrote como a nova segunda porta-bandeira. O CARNAVALESCO, sempre presente nos momentos importantes do samba paulistano, trouxe todos os detalhes desta marcante comemoração dos 39 anos da Mocidade Unida da Mooca.

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Antes do samba, o enredo

A Mocidade Unida da Mooca já havia divulgado pelas redes sociais o enredo que homenageará os Cardeais do samba paulistano. Antes de abordar a melodia que embalará o desfile, é essencial compreender a temática central da apresentação. O carnavalesco Renan Ribeiro ressaltou que a ideia para este enredo já era um desejo antigo da escola.

“Este enredo estava guardado, já estava em nosso planejamento. É uma pesquisa que eu havia feito no ano do Krenak, e na época, consideramos que era grandioso demais para o Grupo de Acesso – embora o Krenak também fosse imenso. Mas essa homenagem merecia o palco principal do Carnaval, então o mantivemos em espera. Para 2026, voltamos a discuti-lo. E, em 2027, eu e Rafael estávamos a caminho do Rio de Janeiro no domingo de Carnaval, e no carro, ele me perguntou se eu tinha alguma ideia de enredo. Eu me lembrei dos Cardeais. Começamos a amadurecer a proposta, e assim foi. Ele já nutria o desejo de criar um Carnaval sobre o próprio Carnaval. A Mooca, nos últimos anos, desde a gestão de Caio Araújo, apresentou enredos com discursos muito fortes, abordando questões políticas e raciais intensas – mesmo quando se afastou da característica mais africana que a escola sempre teve. Neste ano, trazemos um discurso potente, mas com leveza: ele é tratado de uma forma diferente, mais festiva, mais carnavalesca. Há um discurso intrínseco nas entrelinhas do tema, mas é um Carnaval mais nostálgico, voltado para aqueles que sentem falta – principalmente do Carnaval paulistano dos anos 1990 e 1980. O samba buscou esse caminho. E, a partir do samba, começamos a construir uma obra que potencializasse essa atmosfera. Todos que ouviram este samba comentaram que ele tem essa sonoridade de samba mais antigo. Assim, começamos a criar, a partir dessa atmosfera que o samba propõe, a estética e a ambientação plástica para transportar o público para essa vivência. Uma das características de 2026 foi que a Mooca desfilou muito solta, dançando e pulando bastante – o que remetia a esse Carnaval mais antigo, onde a escola não estava tão militarizada ou enfileirada. Este enredo, na verdade, propõe a potencialização dessa característica que implementamos no ano passado”, explicou Renan.

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Vitor Gabriel, diretor de Carnaval da agremiação, recordou a origem da temática: “O presidente nos contou que a ideia surgiu a partir de um vídeo que o próprio Gui Cruz havia feito há algum tempo, falando sobre os Cardeais do Samba. Essa proposta foi levantada entre o presidente e o carnavalesco. E, quando chegou para nós, da direção de Carnaval, já era algo quase certo. Não houve nenhuma objeção de nenhum diretor ou departamento. Foi uma escolha unânime. Era um enredo extremamente necessário para o Carnaval de São Paulo e é um momento oportuno para abordarmos isso. O samba é resistência. Estamos nos aproximando de mais um ano de eleições, onde tudo se divide e as opiniões divergem. É um enredo que une o povo do samba, o povo do Carnaval de São Paulo. Foi uma unanimidade: no momento em que o presidente trouxe a ideia, não houve um voto contra”, enfatizou.

O presidente da agremiação, Rafael Falanga, foi direto ao comentar sobre o tema: “É um enredo fundamental, um enredo incrível, que encherá São Paulo de orgulho. É um resgate, um farol, e será realizado com muito carinho e dedicação. Estamos conversando individualmente com todas as famílias dos Cardeais, e o feedback tem sido muito positivo”, sintetizou.

Novos talentos e balizas

O grupo de compositores do samba-enredo da Mocidade Unida da Mooca, embora já tradicional na escola, sempre apresenta algumas novidades. Dois desses novos nomes foram bastante elogiados pelos veteranos da composição. Vitor Gabriel explicou: “Tanto Rubens Gordinho quanto Santaninha são referências na composição, com sambas históricos na Nenê de Vila Matilde e em outras coirmãs. Eu tenho um samba de 2013 aqui na Mooca, se não me engano, no ano do gás. Depois, de 2017 para cá, participei de todas as composições – exceto o Krenak. E, a cada ano, sempre entra alguém novo na parceria e agrega valor. Tivemos uma época com os Gêmeos, André Ricardo, Dom Marcos participou da composição no ano do Xangô. E, desta vez, Rubens Gordinho e Santaninha. Foi uma experiência única. Rubens Gordinho tem um raciocínio muito rápido, foi uma vivência que guardarei para o resto da vida. Hoje, posso dizer que sou um compositor extremamente realizado. Já tive samba campeão do Carnaval de São Paulo, já tive sambas premiados, e, agora, consegui compor com pessoas que foram meus ídolos. Sou um compositor realizado – e, desta vez, graças à Mooca”, celebrou.

O presidente reforçou: “Santaninha é um ícone, um mestre da composição de samba-enredo, um talento que deveria estar compondo sambas todos os anos. Ele ficou um tempo afastado das disputas, e seu retorno é um grande resgate – é um mestre da caneta. Rubens Gordinho idem, outro monstro. Foi um privilégio poder sentar e compor com eles, uma experiência de ancestralidade”, afirmou Falanga.
Gui Cruz, intérprete e compositor da agremiação, seguiu a mesma linha: “A direção e o caminho foram dados, principalmente, por Rubens Gordinho e Santaninha, que são espetaculares. Eles pareciam muito gratos: Rubens chegou a questionar se a caneta deles não tinha mais tinta, querendo expressar o porquê de terem sido esquecidos. Eles são grandes ídolos para muitos. Ao ouvir o samba da Mooca, sem dúvida, surge um saudosismo de melodias. Tenho um vídeo que postarei nas minhas redes sociais, gravado pelo Mestre Dennys: Santaninha chegando na primeira reunião já com a melodia da segunda parte do samba. É algo que tem essa raiz, essa essência. Rubens Gordinho já trouxe uma letra com toda a história do samba de São Paulo, toda a história de Pirapora. Já tínhamos o refrão desde o início: quando ele cantou, nós confirmamos – e assim fomos construindo. Renan também participou das primeiras reuniões. Co-construímos, digamos assim. E deu certo, porque a história do samba de São Paulo será contada”, declarou.

Lucas Donato, outro dos compositores da obra, concordou: “O processo criativo foi um desafio imenso neste ano. Em minha trajetória, tive a oportunidade de compor com grandes nomes. Trabalhei com Arlindo, Lequinho, Fionda, Claudio Russo… essa turma do Rio de Janeiro. Mas, para mim, compor com enredos vivos, que são Santaninha e Rubens Gordinho, que fazem parte do início do samba de São Paulo, é algo especial. Compor com eles, que conviveram e conheceram seo Nenê, seo Carlão, Madrinha Eunice, que conheceram os cardeais, foi gratificante. Mais uma emoção vivida em minha vida. Foi muito fácil, porque é uma verdadeira aula de como eles compõem. É um método diferente, pois, hoje em dia, com todas essas sinopses engessadas, acabamos ficando presos. Eles não: são sambistas e a alma do enredo”, exaltou.

Momento singular

Falanga recordou um instante específico que o marcou durante a criação do samba-enredo: “Vou compartilhar uma curiosidade: tínhamos um impasse no processo de composição. Quando chegamos ao refrão do meio, não encontrávamos a segunda melodia nem a letra. Estávamos em uma discussão livre, umas dez pessoas na minha sala na Fábrica do Samba, e Santaninha, sentado em um canto da mesa, começou a assobiar. Ele assobiou a melodia da segunda parte inteira. Ele estava em outro mundo, em outro plano naquele momento, em outro lugar. O ambiente estava tão envolvente, e ninguém assobiaria algo aleatório naquele instante. Era um momento de união, de festa, com comida, bebida, compositores, cavaco tocando… e o Santaninha, do outro lado da sala, começou a assobiar a melodia como se estivesse cantando aquela parte do samba, uma coisa sublime. Falar do Santaninha e desse processo é emocionante porque vivenciamos algo único na presença desses mestres. Rubens, idem: é um homem com muitas referências e uma vasta experiência, um homem de uma malandragem pura, de rua, de beira de campo. É um homem que possui uma essência que contribui muito para a construção de samba-enredo – especialmente em um enredo como este, que também é uma narrativa de luta, de samba, de raiz, de rua”, comentou.

Como nos tempos antigos

O fato de a Mocidade Unida da Mooca desenvolver o samba-enredo antes de finalizar a temática do desfile foi elogiado por Lucas Donato: “Essa abordagem nos proporciona mais liberdade. Neste caso, como o presidente Rafael Falanga compõe conosco, isso já ajuda muito – ele nos apresenta tudo o que têm em mente para o desfile, a ideia cronológica do que desejam. O que eles não nos dão é um texto que nos prenda. Renan elabora um texto-base – que, na maioria das vezes, não é o final. Neste ano, ele fez dois, e escolhemos um que era mais conciso. Para mim, isso nos dá mais liberdade para criar”, comemorou.

O caráter colaborativo da escola na produção do desfile também foi enaltecido pelo compositor: “Renan é tão sambista quanto nós. É um homem com um excelente gosto musical para o samba. Isso já é bom, já facilita. Mas, também, não adianta ter um carnavalesco em uma escola onde o presidente não lhe dá liberdade para opinar. Quem deve escolher o samba é a escola – e, no caso da Mooca, como é uma encomenda, há muitas mãos envolvidas. São nossas reuniões, compositores, presidente, carnavalesco, diretores de Harmonia, amigos… é muita gente. Muitas pessoas da escola acabam nos auxiliando”, afirmou.

Retorno a São Paulo

Entre 2018 e 2023, Roosevelt Martins Gomes da Cunha, conhecido como Pixulé, fez história na coirmã Barroca Zona Sul. Em 2027, ele retorna à maior metrópole da América Latina – mas, agora, pela Mocidade Unida da Mooca. Apresentado oficialmente no último sábado, o intérprete recordou as diversas tentativas de Rafael Falanga para contratá-lo: “Foi engraçado, esse namoro entre mim e a Mooca já se estendia por muitos anos. Desde 2023, ele me procurava dizendo que me queria na MUM. Todo ano ele falava, até que finalmente deu certo. Conseguimos romper a barreira: ele conseguiu me trazer para São Paulo, porque tenho exclusividade com o Tuiuti. Não posso cantar em nenhum outro lugar devido à exclusividade com o Tuiuti. Mas Falanga, astuto, entrou em contato com meu presidente, Renato Thor. Foi uma conversa de presidente para presidente, e Renato Thor abriu essa exceção e me permitiu vir cantar no Carnaval de São Paulo”, brincou.

O cantor enfatizou que a temática representa um grande aprendizado para ele: “Não conheço profundamente a raiz do samba de São Paulo, mas este samba toca na essência, em como o samba começou aqui. Toca nos nomes fundamentais da raiz do samba e do Carnaval de São Paulo. Mexeu com a emoção de muitas pessoas e trará de volta o Carnaval de outrora. A MUM acertou no enredo e acertou no samba. Deu liga: o samba, o enredo e o Pixulé”, divertiu-se.

Obra aclamada

Desde 2018 na Mocidade Unida da Mooca, Gui Cruz elogiou a qualidade do samba-enredo de 2027 da escola: “É especial, é diferente e representa uma responsabilidade ainda maior cantar um samba como este. Fizemos a gravação, e Mestre Dennys possui uma sensibilidade absurda: é um músico fantástico, de quem sou fã demais, e foi ele quem sugeriu resgatarmos essa essência mais nostálgica. Fizemos uma passagem do samba com cacos. As outras passagens do samba fizemos sem cacos, limpa, melodiosa, contando a história. Será um ano mais interpretativo para resgatarmos os antigos carnavais. E, sem dúvida, a força desta comunidade cantando, que já é natural, transformará esta obra em uma grande narrativa”, exaltou.

Partes favoritas

Cada um dos entrevistados pela reportagem destacou um trecho do samba-enredo apresentado no último domingo à comunidade. Lucas Donato iniciou: “Minha parte favorita é o refrão do meio. É um refrão com muitas características dos sambas dos anos 1980, 1990, 1970. A cada década, o samba muda de linhagem. É um samba muito marcante, uma melodia muito marcante, que se encaixou perfeitamente nas cinco escolas pioneiras, nos cinco pilares do Carnaval de São Paulo”, disse.
Falanga seguiu: “Minha parte favorita é o trecho que fala dos Cardeais. Para mim, aquilo deveria ser um refrão do samba – e ele era, mas depois encontramos o refrão do ogã. Em especial, quando os trazemos do Orum, através da mãe Manaundê, que é a primeira mãe de santo de São Paulo, do terreiro de Santa Bárbara, na Brasilândia: ela evoca a presença dos cardeais do Orum – e, nesse trecho do samba, ela os invoca. Isso, para mim, é sublime, é muito lindo”, suspirou.

Vitor Gabriel citou o presidente para responder: “Eu estava aqui aguardando minha vez de ser entrevistado e ouvi o presidente falando do trecho dos Cardeais – e é justamente o meu trecho preferido também. A parte mais relevante no samba é quando chamamos os Cardeais, então é algo emblemático. Mas, como o presidente já mencionou essa parte, vou falar outra: a ideia do refrão do meio do samba. É uma construção meio de partido alto e com uma letra mais corrida, algo que é raro de se ver hoje no Carnaval de São Paulo. É aquela essência de partido alto, raiz, malandragem. É um refrão do próprio Rubens Gordinho, uma ideia original dele, e é a segunda parte preferida – depois dos Cardeais”, comentou.

Gui Cruz também falou sobre a obra que ele compôs e canta: “Minhas partes favoritas são o refrão do meio e a segunda parte do samba. Sou muito saudosista e nostálgico. Aprendi a gostar de samba-enredo com esses mestres: com Rubens Gordinho, Santaninha, Fabiano Sorriso, vendo-os disputar samba na Nenê de Vila Matilde. Quando cantamos o refrão e a segunda parte do samba, é algo que toca fundo. Da primeira parte, do refrão do meio para a segunda parte do samba, é a minha predileta”, explicou.

Próximos passos

Responsável por consolidar a pesquisa que já tem o samba-enredo pronto, Renan detalhou como será o trabalho daqui em diante: “Eu e o Departamento Criativo estamos, há algumas semanas, dedicados à pesquisa estética, fundamentando a parte de arquitetura. Uma parcela significativa do desfile se passará nos anos 1910, 1920, 1930, nos períodos dos cordões e dos corsos – mais focada nos cordões, no início do Carnaval. Depois, avançaremos esteticamente até o carnaval dos anos 1960 e 1970, da São João Tiradentes. O que pretendo propor esteticamente nesta divisão completa, nesta apresentação da escola, é uma viagem no tempo: fazer com que as pessoas que assistam ao desfile possam conhecer estéticas de fantasia e alegoria que se perderam devido a critérios de julgamento, modismos e diversas outras razões ao longo do tempo. Quero algo sem a espetacularização do show do desfile da escola de samba, mas propondo mais a beleza que o Carnaval oferece com a identidade de uma escola de samba. Esses são os pilares nos quais alicerço o desenvolvimento desta pesquisa para um desfile mais clássico. Para aqueles que assistiram aos carnavais da inauguração do Anhembi, da avenida Tiradentes e na São João, é olhar e identificar características de escola de samba que eram comuns naquela época e se perderam – uma delas é o samba, o estilo do samba-enredo que vinha sendo proposto e que nós propomos hoje. Tivemos aqui na quadra representantes da família da Madrinha Eunice e da família do seo Nenê, e eles disseram a mesma coisa. Este samba nos transporta para uma viagem no tempo. É como se matássemos a saudade de um tipo de samba que não vemos há muito tempo, o que é excelente. Minha geração, entre trinta e quarenta anos, viveu e assistiu muita coisa pelo YouTube e sentimos falta de algo que muitas vezes nem vivenciamos. O que proponho é darmos a oportunidade a esses desfilantes que sentem saudade desse Carnaval que nunca viveram, de ‘matar a saudade’ desfilando agora”, finalizou.

FONTE/CRÉDITOS: Colaboração Carnavalesco