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Mais do que um espetáculo de teatro, que existe há mais de dez anos com produção do grupo e espaço pernambucano O Poste Soluções Luminosas, “Ombela” é uma palavra africana da língua “Umbundo” que em português significa chuva. Neste mês de setembro, a obra autoral ganha uma temporada com seis apresentações no Espaço O Poste (rua do Riachuelo, nº 641 - bairro da Boa Vista, centro do Recife), sempre às sextas-feiras e aos sábados dos dias 11, 12, 18, 19, 25 e 26/09, e no mesmo horário, às 19h. A entrada (classificação indicativa: 16 anos de idade) por sessão custa R$ 10 (meia) e R$ 20 (inteira).
Com atuação de Agrinez Melo e Naná Sodré — protagonistas e mulheres negras ligadas às pautas de gênero e identidade racial —, a peça teatral “Ombela” traz textos/poemas do escritor angolano Manuel Rui (atualmente com 81 anos de idade) e da língua “Umbundo”, a mais falada em Angola. A montagem também destaca-se pela composição da trilha sonora, com direção musical da artista pernambucana Isaar, natural do Recife. Ela é cantora, compositora e musicista. Além dela, a artista pernambucana Sumara Ramos — cantora, compositora e arranjadora/preparadora vocal — assina a preparação musical.
O espetáculo é composto por indumentárias/vestuário — com concepção da própria atriz Agrinez Melo —; cenário, iluminação e toda a encenação, ideias que são realizadas pelo pernambucano Samuel Santos; e pela consultoria/estudos em Antropologia, assumida por Daniele Perin.
Em sua apresentação/sinopse, “Ombela” diz: “A chuva cai sobre a terra e deixa duas gotas que se transformam em entidades de formas variadas absorvidas pelo processo de humanização. Essas gotas começam a representar arquétipos do universo feminino, síntese poética onde a chuva reorienta e transfigura os sentidos a vida”, convida. E continua: “Ao longo da jornada aqui na terra vemos elas tomarem formas variadas absorvidas pelo processo de humanização que passam. ‘Ombela’ representa arquétipos do universo feminino, é a síntese poética onde a chuva reorienta a transfiguração dos sentidos da vida transformado na beleza da mulher e nos interroga quem somos nós e para onde vamos?”, completa.
Além disso, relembra que “tudo começa com a chuva… depois de cair sobre a terra, a chuva deixa duas gotas”. A nova temporada do espetáculo, onde uma chuva que ganha corpo, duas gotas que ganham voz e uma história que atravessa mundos, é fruto do projeto “Luz negra: o negro em estado de representação”, realizado com fomento da Fundação Nacional de Artes, entidade vinculada ao Ministério da Cultura do Governo Federal.
O grupo de teatro O Poste Soluções Luminosas reforça que “além de ser interpretada em português, a peça conta com partes faladas e cantadas na língua banta, falada pelos Ovimbundos das montanhas centrais de Angola” e que “existe a presença de textos nessa língua”. Acentua também que “Manuel Rui é um dos principais ficcionistas de Angola”, com a montagem baseada nos textos desse professor, dramaturgo e escritor de ensaios, crônicas, poesias, contos e romances, além de peças teatrais.
Inclusive, a partir da Escola O Poste e da encenação de “Ombela”, o grupo reúne reconhecimentos nacionais, dissertações de mestrado e teses de doutorado. Vale citar que a obra tem um artigo publicado pela Revista USP/SP, chamado “Ombela: uma cena ancorada no imaginário africano”, por Elton Soares Siqueira. O recorte da pesquisa é feito em cima dos procedimentos estéticos e metodológicos que contribuem para expressar na cena a ancestralidade africana.
A Escola O Poste, por exemplo, dialoga com uma formação coletiva que leva como base conceitos e vivências que valorizam e fortalecem memórias e saberes afro-brasileiros, afro-indígenas e afropindorâmicos, potencializando as narrativas decoloniais, contracoloniais e antirracistas. Dentro deste envolvimento, os conhecimentos são repassados pela tradição oral (oralidade), compartilhando as concepções de Performance do Corpo Ancestral; Performer Ancestral; Poética Matricial dos Orixás e Encantados; Capoeira no Jogo do Ator e da Atriz; Tradição Indígena; Voz Criativa; Dramaturgia (texto); e Figurino Ancestral, entre outras. É importante lembrar que o grupo O Poste leva suas produções para escolas, comunidades, festivais, aldeias, territórios quilombolas, espaços educativos e artístico-culturais, crianças, jovens, educadores, educadoras, pesquisadoras, pesquisadores, famílias e público geral.
Por conta da pesquisa de Pós-Doutoramento (Horizonte da Cena), o espetáculo “Ombela” e o repertório do grupo compõem o mapeamento nacional de poéticas pretas contemporâneas com o título "Poéticas dos corpos aqui e alhures: afetividades, dramaturgias, narrativas e performances", tendo como foco a cena teatral negra no Recife. A poética de “Ombela” (a chuva) também é analisada diretamente numa dissertação de mestrado, apresentada no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Essa pesquisa analisa os procedimentos estéticos e a presença da ancestralidade no teatro de grupo, por meio d'O Poste.
A primeira apresentação de “Ombela” ocorreu justamente no próprio Espaço O Poste, em 2014. No ano de 2015, a peça entra na programação do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos, se apresenta naquela 20ª edição e conquista o prêmio especial sobre a pesquisa de matriz africana. Em nível Nordeste, no ano de 2019, ocupou a programação do Festival de Teatro Lusófono (FestLuso), que acontece no Theatro 4 de Setembro, em Teresina (Piauí). Em 2022, a peça foi apresentada internacionalmente, chegando a Portugal, pelo Festival Tanto Mar Apresentações.
Neste ano de 2026, houve uma sessão de “Ombela” no Centro Cultural Banco do Nordeste Fortaleza/CE (CCBNB Fortaleza), pela Mostra BNB das Artes Cênicas, no mês de março.
Sobre a encenação
O Poste Soluções Luminosas destaca que “Ombela está envolta de uma atmosfera mágica, buscando ambientar o tempo espaço num lugar lúdico, sagrado, mas sem ser intocável, pois há abertura para participação do público, pois a encenação busca questionamento social e filosófico do posicionamento humano em relação à continuação de sua espécie e do resgate de sua ancestralidade, utilizando a água como mote, para o desencadear de vários outros temas, com igual importância para a sobrevivência”.
A encenação contribui para reflexões étnicas a respeito da cultura africana no Brasil, com a poesia como elo de transição entre o mundo real e o mundo mágico. O grupo afirma que “os elementos da encenação, como cenário, indumentárias, iluminação e maquiagem, recebem um tratamento africano que está dentro da atemporalidade.
“Ombela” (espetáculo de teatro) - temporada 2026 (mês de setembro)
Datas: 11/09, 12/09, 18/09, 19/09, 25/09 e 26/09 (sempre às sextas-feiras e aos sábados)
Local: Espaço O Poste (rua do Riachuelo, nº 641 - bairro da Boa Vista, centro do Recife)
Horário: 19h
Entrada: R$ 10 (meia) e R$ 20 (inteira)
Classificação indicativa: 16 anos de idade
Ficha técnica
Texto: Manuel Rui
Encenação: Samuel Santos
Atuação: Agrinez Melo e Naná Sodré
Consultoria/estudos em Antropologia: Daniele Perin Rocha Pitta
Composição de trilha sonora: Isaar França
Preparação musical: Surama Ramos
Figurino: Agrinez Melo
Plano de maquiagem: Naná Sodré
Operação de luz: Cecilia Chá
Publicado por:
Daniel Lima
Comunicador social & jornalista. De Caruaru/PE, criado no Recife. Atua com assessoria de imprensa artístico-cultural e atualmente é assessor de imprensa/mídias sociais do Coco Raízes de Arcoverde/PE.
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