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Angela Davis desembarcou no Brasil para participar da Festa Literária de Paraty — FLIP, evento promovido pelo SESC Rio, depois do cancelamento da vinda de Wole Soyinka. Em bate-papo com a equipe do SESC, concedeu uma entrevista que saiu do roteiro previsto e teve desdobramentos que chamaram atenção.
Entrevista prolongada e a pergunta sobre a Palestina
A conversa começou em uma suíte com vista para a praia de Copacabana, onde Davis pediu informações prévias sobre as pessoas que a entrevistariam e participou de um diálogo amplo sobre linguagens, ativismo, movimento negro, feminismo e política. A entrevista, inicialmente prevista para 40 minutos, foi esticada por mais de 20 minutos.
Quando o encerramento se aproximava, ela afirmou em tom marcante: "NINGUÉM ME PERGUNTOU SOBRE A Palestina". Após a interrupção, permaneceu sentada e falou por cerca de vinte minutos sobre a conjuntura nos Estados Unidos e sobre como diversos movimentos negros se ligam e se mostram solidários à causa palestina.
Referências brasileiras e marcos da trajetória
Durante a entrevista, Davis comentou encontros com intelectuais brasileiras: falou sobre como conheceu Lélia Gonzalez em Nova Iorque e citou Beatriz Nascimento. Relatou interesse pelo pensamento produzido no Brasil, que a motivou a estudar o idioma.
O perfil também retomou pontos centrais de sua biografia: nascida num Alabama segregado, sua militância incluiu a atuação junto à Panteras Negras; em 18 de agosto de 1970 seu nome entrou na lista dos Dez Fugitivos Mais Procurados do FBI, por suposto envolvimento na fuga de três ativistas. Fugiu da Califórnia por dois meses, foi presa em Nova Iorque em outubro, passou por um julgamento de 18 meses e foi inocentada. João Lenon e Yoko Ono gravaram a canção “Angela” e os Rolling Stones lançaram “Sweet Black Angel”, marcando seu impacto cultural. Em 2026, aos 82 anos, ela repetiu a indagação sobre a Palestina durante sua passagem pelo Rio de Janeiro.
O eco da frase de Soyinka e o debate sobre a negritude
O encontro anunciado entre Davis e Wole Soyinka não ocorreu: Soyinka cancelou a vinda no dia 20/07 por questões pessoais, segundo relato. O autor nigeriano é lembrado pela frase “Um tigre não proclama sua tigritude, ele ataca”, referência crítica ao movimento da negritude liderado por Léopold Senghor.
No texto “A negritude e o universal africano”, Soyinka esboça sua oposição às posições de Senghor, apontando, conforme descrito na conversa, que o movimento tinha caráter por vezes romântico e não respondia com urgência às questões postas pela África pós‑colonial. Nomes como Aimé Césaire, Léon Damas e Cheikh Anta Diop também foram mencionados no percurso desse debate.
A reportagem foi construída a partir da entrevista concedida à equipe do SESC Rio e do material registrado para a Revista Paquetá, que publicará parte do conteúdo da conversa com a filósofa e professora.
Foto: Divulgação
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