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Valongo de portas abertas para a própria história
O Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, vai ganhar um museu dentro de um prédio histórico construído por um engenheiro negro. A cerimônia de entrega do Edifício Docas André Rebouças aconteceu nesta terça-feira (18), com cortejo do Afoxé Filhos de Gandhi. O espaço virará o Centro de Interpretação da Herança Africana, com verba de R$ 77 milhões do orçamento da União.
Para quem conhece a Pequena África, a escolha é simbólica: o prédio fica do outro lado da rua do sítio arqueológico, o lugar por onde desembarcaram cerca de 1 milhão de africanos escravizados entre 1811 e o fim do tráfico. Hoje, o visitante enfrenta sol e chuva para ver apenas placas informativas. A partir de agora, essa memória vai ter teto, sala e acervo.
Uma obra de André Rebouças, sem mão de obra escravizada
O galpão foi construído em 1871 e guarda uma particularidade que poucos museus do país podem afirmar: não contou com trabalho de escravizados. O projeto é de André Rebouças, baiano, primeiro engenheiro negro do Brasil e um dos grandes nomes do movimento abolicionista. O prédio, antigo Armazém Dom Pedro II, só recebeu o nome dele em 2025.
Segundo o Iphan, o centro vai abrigar o Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana e o Memorial André Rebouças. O presidente do instituto, Deyvesson Gusmão, lembra que a narrativa sobre o Valongo precisa ser contada dentro de um espaço digno, e não apenas em escavação a céu aberto.
Um acervo que leva gerações para contar
O acervo terá mais de 1 milhão de peças encontradas no Valongo e na zona portuária. O presidente da Fundação Cultural Palmares, João Jorge Santos Rodrigues, calcula que levará de 20 a 30 anos para identificar tudo. Anéis, cachimbos, peças de vestuário e iscas de pesca já foram reconhecidos e estavam espalhados em outros museus.
Para a ministra da Cultura, Margareth Menezes, o centro é reparação após séculos de escravidão. A ministra cita a justiça social, o acesso à saúde, à educação e à cultura como caminho para um Brasil com democracia cidadã.
Quem vigia a memória não perde a essência
O comitê gestor reúne as três esferas de governo e a sociedade civil. Nilson Moreira, trineto de Tia Ciata, a matriarca do samba carioca, representa a Casa da Tia Ciata. Para ele, desenterrar histórias escondidas é forma de a população conhecer a cultura negra como um todo, sem que os imóveis da região percam a própria essência.
Ao lado do novo centro, a prefeitura do Rio constrói o Centro Cultural Rio-Áfricas. Junto com o Quilombo da Pedra do Sal, o Muhcab e o Cemitério dos Pretos Novos, a região portuária se consolida como o maior polo de memória afro-brasileira do país.
Perguntas frequentes
Quanto custa o museu do Cais do Valongo?
A obra do Centro de Interpretação da Herança Africana está orçada em R$ 77 milhões, com recursos do orçamento da União. A previsão é de três anos de adaptação do prédio.
Por que o Cais do Valongo é tão importante?
Construído em 1811, o cais concentra vestígios da chegada de cerca de 1 milhão de africanos escravizados que desembarcaram nas Américas. É patrimônio cultural da Humanidade, reconhecido pela Unesco, e uma lei federal de 2025 o declara patrimônio histórico e cultural afro-brasileiro.
Quem foi André Rebouças?
André Rebouças foi um engenheiro baiano, o primeiro engenheiro negro do Brasil e um dos principais nomes do movimento abolicionista. O prédio do museu foi projetado por ele em 1871 e recebeu seu nome somente em 2025.
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