Especialistas entrevistados pela Rádio Nacional ressaltam a urgência de envolver homens na construção de soluções para combater o machismo estrutural no Brasil, que resulta em altos índices de violência contra mulheres. Em 2025, a Rede de Observatórios da Segurança registrou, em média, 12 agressões femininas a cada 24 horas em nove estados, totalizando 4.558 vítimas. Diante desse cenário alarmante, a escola e a família são apontadas como instituições fundamentais para liderar essa transformação social.

O psicólogo Flávio Urra, que atua na reeducação de autores de violência com foco na ressocialização, observa uma estagnação no pensamento masculino. Ele argumenta que, enquanto as mulheres avançaram ao legitimar diversas pautas, os homens persistem com mentalidades de décadas atrás, buscando modelos de família e de mulher que já não correspondem à realidade atual.

Contudo, existem exceções, como o engenheiro Carlos Augusto Carvalho, de 55 anos. Através de conversas com outros homens, ele compreendeu que a luta contra o machismo é um esforço diário. Carvalho enfatiza a necessidade de combater essa mentalidade enraizada e levantar uma bandeira forte para eliminá-la do caminho.

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Família e as novas masculinidades

O psicólogo e terapeuta familiar Alexandre Coimbra Amaral destaca a influência das dinâmicas familiares na formação da visão de mundo de crianças e adolescentes, sublinhando seu componente cultural. Ele compara a família a um país com códigos próprios, onde o indivíduo aprende o certo, o errado, e as condutas sociais.

Amaral explica que ser homem pode ter múltiplas formas. No entanto, quando a cultura familiar impõe um padrão masculino tradicional e restritivo, sem apresentar outros modelos de masculinidade, ela pode inadvertidamente fomentar comportamentos violentos em crianças e adolescentes.

Segundo o psicólogo, essa biografia mais rígida ensina que homens devem deter o poder, dominar e submeter. Quando as relações não se pautam por essa dinâmica de dominação e obediência, a violência surge como um meio de silenciamento.

Para Amaral, o diálogo familiar deve ser aberto, incentivando o homem a questionar sua própria criação, em vez de justificá-la. Ele propõe a reflexão: “Que ele possa se perguntar quais foram os prejuízos que eu tive na condição de homem por eu ter aprendido a ser homem dessa forma, com meu pai, com meu avô, com meu tio, com meu bisavô, vendo todos esses homens. Quais foram as coisas que eles perderam na vida?”

O educador parental Peu Fonseca defende a construção de uma nova identidade coletiva e social, elaborada por homens e mulheres, que não conduza à violência. Ele argumenta que a identidade atual precisa ser revista, pois tem levado à morte de mulheres, uma realidade inaceitável.

Fonseca ressalta a importância de ensinar os meninos a gostar e não a odiar as meninas, e a não se sentirem ameaçados. A ocupação de novos espaços pelas meninas, para ele, não significa desejo de dominar, mas sim a necessidade de aprender coisas novas.

Pai de João, Irene, Teresa e Joaquim, Peu Fonseca aponta que o grande desafio dos pais e responsáveis é entender que o papel de cuidar não é controlar quem os filhos serão, mas acolher, dialogar e orientar. Isso implica “indicar caminho, corrigir rotas, ser margem e, em outros momentos, ser fluxo, ser água corrente, para que elas se lancem mais ao mundo.”

Felipe Requião, consultor de empresas que trabalha com o engajamento masculino na equidade de gênero e prevenção da violência, afirma que a família, junto com a escola e as redes sociais, é protagonista na formação da masculinidade, seja ela sadia ou tóxica.

Requião acredita que a família contribui positivamente quando evita reforçar estereótipos como “homem não chora”, “não faz trabalho doméstico” ou “não cozinha”.

O jornalista e pesquisador em masculinidades Ismael dos Anjos observa que, ao contrário das gerações anteriores, as meninas de hoje já aprendem que podem ocupar qualquer espaço. Agora, é a vez de os meninos buscarem uma nova realidade, cultivando o cuidado consigo e com o próximo.

Para um futuro mais igualitário, ele sugere que brincadeiras tradicionais como polícia e ladrão ou pega-pega sejam substituídas por atividades lúdicas que estimulem os meninos a cuidar de si, do outro e do ambiente. Ele questiona: “Se existe professor e aluna, mamãe e filhinha, por que a gente não ensina professor e aluno, papai e filhinho para os nossos meninos?”

Ismael dos Anjos acredita que “mudar a chavinha” para que o cuidado não seja uma responsabilidade exclusiva das meninas, mas também estimulado entre os meninos desde cedo, provocará uma mudança cultural desejável. Isso formaria homens que, ao ascenderem a posições de influência, compreendam a responsabilidade inerente a esses papéis.

A escola no letramento de gênero

Um estudo da ONG Serenas, que atua na prevenção de violências contra meninas e mulheres, revela que sete em cada dez professores já presenciaram situações indesejadas de sexualização e silenciamento contra meninas em sala de aula.

A psicóloga e pesquisadora Valeska Zanello, especialista em gênero e saúde mental, enfatiza o papel fundamental das instituições de ensino na promoção do letramento de gênero. Ela explica que há uma tendência de reprodução de valores aprendidos, perpetuando ciclos de violência familiar. Por isso, vê na escola pública e gratuita a oportunidade de transformar essa realidade.

Zanello argumenta: “Em muitas famílias a gente vai ter uma genealogia, uma repetição dessa violência por muitas gerações. Então, se minha bisavó apanhava, minha avó apanhava, minha mãe apanhava, o que eu como menina aprendo? É um direito desse homem quando se sente aborrecido, não obedecido, recorrer à violência. É importante então que isso seja problematizado.”

Thaís Luz, coordenadora-geral de Acompanhamento e Combate à Violência nas Escolas, do Ministério da Educação (MEC), concorda que a escola deve ser um espaço de enfrentamento, e não de risco. Ela destaca que essa luta exige a articulação da escola com famílias, comunidade, redes de proteção, assistência social, saúde e o sistema de Justiça.

Thaís Luz afirma que a educação básica é crucial para a transformação social e para a desconstrução de padrões culturais machistas. “Quando nós trabalhamos intencionalmente temas como respeito, equidade, empatia, resolução pacífica de conflitos, nós estamos contribuindo diretamente para a prevenção da violência, incluindo a violência contra meninas e mulheres.”

A coordenadora-geral reconhece que, historicamente, o desafio não é simples, pois esses temas são frequentemente ausentes na formação inicial dos professores. Contudo, ela ressalta que essa barreira estrutural não deve ser vista como um limitador. Para mudar a realidade, o programa Escola que Protege, do MEC, soma-se a outras ações de capacitação nas redes de ensino para o enfrentamento à violência.

Ela destaca iniciativas como o curso Escolas ON Violências OFF, em parceria com a ONG Serenas, e cursos sobre cidadania, democracia e direitos humanos, desenvolvidos com o Instituto Auschwitz. O objetivo é “garantir que os profissionais tenham o repertório necessário, se sintam seguros e sensíveis para lidar com essas situações do cotidiano da escola.”

Thaís Luz defende que, na implementação das mudanças, o compromisso de gestores e entes federativos é fundamental. Para ela, a escola é a parte mais importante dessa transformação, e os profissionais de educação são os protagonistas, necessitando de apoio institucional. “Então, é muito importante também reconhecer a responsabilidade dos entes federativos em garantir as condições para que essa agenda se concretize, oferecendo suporte, formação e a estrutura adequada para suas redes, para suas escolas.”

Janaína Penalva, professora da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB), também acredita que a transformação social começa na escola, por meio da formação de professores capazes de identificar estereótipos de gênero presentes na sociedade e nos materiais didáticos.

Para Janaína, um ensino emancipatório é uma ferramenta poderosa na prevenção de diversas formas de violência, incluindo as agressões contra mulheres. Recentemente, o governo lançou um pacote de ações que abrangem desde o ensino básico até o superior, incluindo conteúdos curriculares voltados ao combate à violência contra meninas e mulheres.

O psicólogo Alexandre Coimbra Amaral concorda que a questão de gênero deve ser obrigatória na grade escolar. Ele critica a tentativa de movimentos conservadores de impedir esse avanço, utilizando a expressão “ideologia de gênero”.

Amaral esclarece que “essa expressão ideologia de gênero nem existe no campo científico. E, portanto, não existe uma construção de uma ideologia, o que existe é a possibilidade de se conversar abertamente. Toda a história da psicologia mostra o seguinte: onde a palavra não pode existir, há adoecimento psíquico.”

O psicólogo defende que, em vez de “patologizar” o menino que age inadequadamente ou aplicar punições como suspensão, é preciso promover um diálogo que inclua também as meninas. Ele sugere: “Aproveitar aquilo ali como ação educativa. Abrir uma roda de conversa e falar assim: ‘o que a gente pode aprender disso aqui? Quem já se sentiu no lugar dele e no lugar dela?’” Amaral lembra que a própria criança agressiva pode ter sido vítima em situações anteriores.

Machismo e redes sociais

Estudos recentes revelam um crescimento alarmante de discursos misóginos e machistas nas redes sociais. Termos como “machosfera”, que se refere a grupos online que defendem a masculinidade tóxica, o ódio às mulheres e a oposição aos direitos femininos, e “redpills”, para homens que supostamente “despertaram” para uma realidade onde as mulheres são manipuladoras, tornaram-se comuns.

Um levantamento atualizado este ano pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostra que 90% dos canais do YouTube identificados em 2024 com conteúdo misógino continuam ativos na plataforma. Mais de 130 perfis seguem disponíveis e publicando vídeos.

O psicólogo Alexandre Coimbra Amaral afirma que “as redes sociais estão claramente, neste momento, assumindo que promovem mais o tipo de masculinidade tóxica, perversa e violenta.” Para ele, não há neutralidade, pois as redes são regidas pelas big techs.

Amaral avalia que a preferência tem sido por conteúdos que repetem a mensagem masculina mais violenta, pois estes geram maior alcance e engajamento. Ele alerta que as redes sociais são perigosas por se assemelharem a uma “TV” onde os programas mais vistos não são escolhidos pelo público, mas sim repetidos exaustivamente pelas próprias plataformas.

O psicólogo defende a construção de um diálogo, tanto online quanto offline, que questione “o malefício desse conteúdo para os meninos e os adolescentes, para a formação dos homens e para a construção de uma sociedade que não seja regida pela barbárie.”

O consultor Felipe Requião concorda que as redes sociais amplificam conteúdos misóginos, criando comunidades de validação. Ele observa que a internet, muitas vezes, assume um papel de educar os meninos, superando a formação oferecida pelos adultos.

Requião exemplifica: “Às vezes, eu dou o celular na mão de um jovem, de um menino, achando que eu estou ocupando o espaço dele, ocupando o tempo dele, fazendo com que ele tenha acesso à tecnologia. Mas, na verdade, eu estou dando uma forma de educação por algo, por alguém com quem eu não concordo, que eu não conheço e que eu não tenho controle sobre o que está sendo falado. O desafio é ocupar esse espaço com alternativas reais, verdadeiras, de pertencimento masculino saudável.”

Para a psicóloga e pesquisadora Valeska Zanello, a internet possui tanto um lado negativo quanto um positivo. Como exemplo de mau uso, as redes sociais amplificam a violência digital, com o surgimento de novos tipos de crimes. “A gente vai ter o uso da IA [inteligência artificial], por exemplo, para divulgar fotos montadas de mulheres nuas, então, um novo tipo de nude, mas que nunca existiu, mas o fato de nunca ter existido não impede que afete a honra, as relações sociais das meninas e mulheres.”

No entanto, as novas tecnologias podem se tornar aliadas poderosas ao ampliar o letramento de gênero, a compreensão, a desconstrução e a crítica das normas sociais e estereótipos impostos a homens e mulheres. As redes sociais, quando bem utilizadas, combatem a violência digital com conteúdo educativo, além de possibilitar redes de apoio e o alcance de denúncias. Campanhas de mobilização, como o movimento #ElesPorElas (HeForShe), da ONU Mulheres, que busca engajar homens e meninos na promoção da igualdade de gênero, e os movimentos #Metoo e #MexeuComUmaMexeuComTodas, contra o assédio sexual, evidenciam a importância de dar voz aos movimentos de mulheres.

FONTE/CRÉDITOS: Colaboração