Em celebração ao centenário de Milton Santos, a série especial do Portal Geledés analisa como a obra do célebre geógrafo brasileiro permanece atual ao criticar as contradições da globalização e propor novas formas de autonomia no espaço urbano contemporâneo.

Em entrevista concedida em 2001, o pensador definiu a existência de um "globaritarismo", caracterizado como uma vertente moderna de totalitarismo gerada pelo mercado global. Sob a promessa de liberdade, esse fenômeno restringe a autonomia real, deslocando a discussão do plano abstrato para as vivências territoriais do dia a dia.

A análise de suas formulações nos dias de hoje evidencia que as rotinas individuais estão cada vez mais dominadas pela lógica econômica. Para compreender o exercício pleno da emancipação humana, torna-se essencial observar como o território atua como meio ativo na formação de vínculos sociais.

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Essa reflexão se estrutura em quatro pilares fundamentais: a crítica aos discursos hegemônicos, o valor transformador do cotidiano, a força criativa das rotinas populares e a necessidade do risco no exercício do pensamento crítico.

01. A liberdade como problema do nosso tempo

Ao caracterizar o globaritarismo, o autor descreveu uma engrenagem que exige a padronização de condutas e pune divergências. Essa leitura reflete os dias atuais, marcados pela busca incessante de produtividade, vigilância constante e aceleração contínua, onde atos de pausa são vistos como desvios desvalorizados.

Superar essa dinâmica exige recusar a redução da autonomia ao mero direito de consumo. A verdadeira emancipação demanda a criação de laços coletivos e a participação democrática na construção do futuro. Ao denunciar as cidadanias mutiladas, evidencia-se como a privação de direitos se manifesta no território.

02. O cotidiano e as banalidades do mundo

Outro ponto central em seus estudos é o resgate do conceito de espaço banal. Longe de significar algo sem relevância, essa dimensão abrange os territórios compartilhados do dia a dia, onde as relações sociais ganham corpo, as contradições se revelam e a vida comunitária se concretiza.

Conforme destacado no livro Por uma Geografia Cidadã, a rotina articula memórias e projetos futuros. Encontros casuais em calçadas, feiras livres e celebrações populares mantêm ritmos que desobedecem à urgência do capital, criando brechas de resistência no tecido urbano.

03. Solidariedade, inventividade e formas populares de vida

Na análise dos circuitos inferiores da economia urbana, observa-se que as práticas populares não são marcas de atraso, mas sim focos de solidariedade e inventividade. Tais dinâmicas contrapõem a rigidez imposta pelas estruturas formais do mercado e do Estado.

Mecanismos como redes de apoio mútuo e arranjos comunitários revelam uma sabedoria espacial capaz de responder às desigualdades. Sem romantizar a carência, reconhece-se o valor das soluções criadas por populações marginalizadas fora do controle dos setores dominantes.

04. O risco como condição do pensamento crítico

Em sua obra Por uma Geografia Nova, defende-se que todo esforço crítico exige encarar incertezas. Em um contexto saturado de fluxos digitais e demandas imediatas de desempenho, questionar modelos prontos e exercitar a imaginação crítica é um ato libertador e indispensável.

Diante dos desafios contemporâneos, resgatar a capacidade de reflexão contínua torna-se um compromisso urgente. A autonomia afirma-se, portanto, não como um estado fixo, mas como um processo constante de reinvenção individual e comunitária no espaço.

Série especial e centenário

Em homenagem ao centenário do nascimento do geógrafo, celebrado em 2026, o Portal Geledés apresenta uma série de artigos dedicados ao seu legado. Reconhecido com o Prêmio Vautrin Lud e o Prêmio Jabuti, o intelectual deixou contribuições indispensáveis para a compreensão do espaço e da urbanização.

Sobre a autora: Maria Luiza de Barros Rodrigues é arquiteta, urbanista, doutora pela FAU-USP e professora da Escola da Cidade, atuando também como pesquisadora e diretora de projetos culturais.

FONTE/CRÉDITOS: Thays Andrade