O artista visual Shell Osmo inaugura a exposição solo “Garateia: onde ancora a memória”, que surge a partir da sua relação com uma ilhota na área mais interna da bacia do Pina, no Recife/PE, próxima ao bairro de Afogados. A mostra autoral transforma, por meio de obras artísticas inéditas, estudos e pesquisas, o cotidiano ribeirinho — onde existe a pesca artesanal — em arquivo vivo, emocional e político. A abertura do circuito gratuito ocorre no MAMAM (Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães), no dia 09/05 (sábado), às 15h, e fica em cartaz por lá até 19 de julho. No dia seguinte (10/05 - domingo) acontece a outra estreia no Museu Cais do Sertão (3º andar, sala Moxotó), às 15h, e segue no local até 07 de junho. Os dois equipamentos culturais ficam no centro do Recife. 

Shell Osmo — pintor, desenhista, escultor e contador — é presença garantida em ambos os encontros inaugurais. Com mais de 30 obras, a exposição é simultânea e tem recurso de acessibilidade comunicacional, pela Centrae e Sonar. É importante informar que a visitação funciona de acordo com o serviço de cada museu: MAMAM - 12h às 18h (terça-feira a sexta-feira), e das 13h às 17h (aos sábados e domingos); Centro Cultural Cais do Sertão - 10h às 16h (terça-feira a sexta-feira), 13h às 18h (sábado e domingo), toda última quinta-feira do mês o horário é estendido das 10h às 20h.  

A composição da mostra origina-se da perspectiva de confluir museus e cidades como pontes, desenvolvendo redes e diálogos sobre tecnologias sociais. O título faz referência a uma garateia, ferramenta de pesca composta por três anzóis juntos em um único eixo e essencial para movimentação e manuseio de âncoras e amarras. Com pinturas, objetos e instalações, a exposição de arte é realizada com o objetivo de compartilhar e reforçar sobre a temática dos rios como fonte de renda e criação para as comunidades ribeirinhas. Além de lembrar a questão da sobrevivência e humanidade, faz alerta às pautas da remoção de moradias e da especulação imobiliária. Em plena zona urbana, a bacia do Pina é formada pelos rios Tejipió, Pina e Jordão, além de receber água pelo braço do rio Capibaribe. 

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As obras criadas pelas mãos e pela imaginação, criatividade e olhar social do pernambucano Shell Osmo, representam uma imensidão, ou seja, a infinidade do universo e da natureza, como saudade, pertencimento, território, ausência, retorno, solitude, travessia, permanência, desaparecimento, afeto, cidade, transformação urbana, águas, rios etc. Há mais de dez anos, o artista independente, criado na comunidade do Bode (bairro do Pina),  realiza projetos artístico-culturais que potencializam o compromisso com a arte enquanto existência da memória e transformação social. Além disso, leva para suas produções as vivências das pessoas que moram às margens do rio, trazendo elementos visuais que atravessam o tempo e a territorialidade.

“Sou originário do litoral recifense… É sobre os lugares que permanecem dentro da gente, mesmo quando desaparecem fisicamente, é o corpo como lugar de lembrança e é a saudade sendo uma forma de resistência. O território não é só onde se vive, é onde se constrói quem somos. A exposição ‘Garateia’ é tudo aquilo que me fez ficar, mesmo quando já não está mais lá. Entre redes, anzóis, barcos e correntes, há também gestos de liberdade, rotas que se refazem e histórias que não têm esquecimento”, declara Shell Osmo. 

A curadoria é assinada pela pernambucana Rebecca França, artista-pesquisadora e curadora de arte, além de professora de História na rede pública estadual de Pernambuco. Ela foca justamente nos elos entre a rua e a pesquisa e entre a vivência e a escuta. Vale dizer que “Garateia: onde ancora a memória” é uma realização da Experimento Produções (plataforma de artes visuais, audiovisual e pesquisa) e do Umbral das Artes (Hub Criativo Multicultural, com sede no centro do Recife). Tem incentivo público, com o financiamento do edital do Sistema de Incentivo à Cultura (SIC), por meio da Fundação de Cultura da Cidade do Recife, da Secretaria de Cultura e da Prefeitura da Cidade do Recife, além do apoio do Centro Cultural Cais do Sertão e do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães. 

“As histórias vivenciadas nas comunidades do Pina, as pessoas e lugares que Shell Osmo conheceu, em viagens a nove países, são motes fundamentais para esse artista-cronista, que recria suas narrativas como um contador de histórias. Shell é especialista em redesenhar suas vivências com profunda imaginação. Nos convida a refletir sobre as margens e o espaço de fronteira que contém o entre-mundo. A exposição mostra que conduzir a própria embarcação é um exercício de dominar as tonturas e entender os ventos”, contextualiza Rebecca França. 

Foram cerca de seis anos de processos, de 2020 para frente, até o lançamento da exposição, que conecta com uma observação que vem da infância às margens do rio no Pina. A mostra Garateia apresenta uma narrativa de atenção e cuidado para os rios do Recife e seus habitantes. Ela destaca o poder das águas como algo real e local de saberes. É nesse cruzamento entre realidades de vida que Shell Osmo fundamenta uma poética visual trazendo o rio pela sua origem de sobrevivência, história e invenção. Ele, por exemplo, pensa nesse objeto de pesca, que prende com firmeza, para refletir sobre as relações entre as pessoas que sobrevivem das águas e as estratégias de permanência deste modo de vida.

“Aqui, o rio não é apenas paisagem, mas sujeito, entidade viva, o rio é agente de cura, de segredos e de fatos a serem resgatados. O rio é tanto sustento quanto enigma, captura nossos sentimentos nas vivências entre pescarias, banhos e navegações. Para as comunidades ribeirinhas, é fluxo de vida, caminho de histórias, de pensamento, trabalho, de alimentação física e espiritual”, afirma Shell Osmo.  

A base conceitual apega-se à linguagem visual e verbal das pessoas que se reconhecem como urbanos-ribeirinhos, na vida de uma “humanidade-carangueja” na margem e no mangue. O conceito de “margens” estrutura a mostra com múltiplas camadas de sentido: geográfica, social, ecológica, política e poética. 

“Garateia explica a pesquisa. Sempre vou lembrar que Garateia é uma técnica que serve para fisgar o peixe ou ancorar a baiteira. Fisgar os peixes é uma coisa que me fala por saudade. Por que eu volto? Onde eu volto? Onde eu jogo minha garateia? É em lugares que você ancora sua garateia. São pessoas e lugares de pertencimento. A garateia, nesse contexto, não é apenas instrumento, mas símbolo… Um elo entre o visível e o que se esconde sob a correnteza, entre o que se conquista e o que se deixa partir”, acrescenta o artista.  

“O Portuário”, “Identidade Farol”, “Escultura”,  “Chico ainda menino” e “Vado” são nomes de algumas das obras da exposição, como também “Mareando”, “A maré” e “Xié”, entre outras. Sua atuação é composta por representação figurativa, pinturas em acrílica, esculturas, murais e instalações produzidas com madeira e todo o acervo. Das técnicas utilizadas, sobretudo as do grafitti, destacam-se as de spray, acrílica, bricolagem, mistas, assemblage, molde vazado e muralismo, além dos materiais usados: madeira, algodão com gesso, resina e marcadores. 

“Em obras como  ‘O Portuário’, apresento esses pequenos imprevistos. Um trabalhador, uma cabeça que tomba, sustentada por escoras, estroncas. É um retrato  do cansaço. Em outras, como a de ‘Vado’, trago uma homenagem ao feitio de um vizinho que enfeitava toda a rua onde moravam com bandeirinhas de São João, permitindo que a passagem e o passeio fossem  mais bonitos ali. Vado cuidava da rua mesmo que ele próprio tivesse poucas condições de autocuidado”, conta Shell Osmo. 

Por onde passa, ele desenvolve métodos de criação que dialogam com as realidades dos espaços e das pessoas, buscando compreender e estimular as expressões artísticas. As esculturas e murais de técnica mista incluem a primeira assemblage do artista, assim como sua primeira paisagem sonora, com orientação da pesquisadora Maria Rocha. Ambos investigam o "lugar" como uma teoria da memória e do pertencimento, onde as pessoas desenvolvem identidade, percepções políticas e vínculos afetivos.

A equipe técnica da mostra é composta por profissionais diversos da localidade: Rose Lima (direção artística e executiva); Maria Rocha (coordenação pedagógica e concepção da instalação sonora); Bruna Acioly, Paulo de Mendonça e Tássia Seabra (produção executiva); Mariana Melo (expografia); César Lima, Edson Bizarro e Silvio Nascimento (colaboração nas obras); Moisés e Carlos Nete (assistência no ateliê); Emilly São Bento (design); Seabra Produções (comunicação e mídias sociais); Juliana Amara (fotografia); Rogério Nascimento (audiovisual); Karina Barros (arte-educadora); Fábio Produções (montagem); João Guilherme (Iluminação e elétrica); e Hyper Gráfica (sinalização). 

Shell Osmo imagina uma exposição que faça com que as pessoas pensem coletivamente em tudo aquilo que temos, no agora, no que nos faz voltar, nos laços que unem e nas trocas. 

“Quero que as pessoas minimamente sintam algo, pensando em quem vive a cidade e de repente ainda não conhece as margens de um local urbano cortado por rios. Pode ser uma rua, uma casa, uma pessoa ou até um tempo. Tem gente que talvez nunca foi para uma galeria e que com certeza não entrou numa palafita. É para quem sente saudade de alguma coisa, para pessoas que sabem voltar ou para quem foi fisgado e precisa apenas seguir a linha”, pontua o artista, também cofundador do Coletivo Pão e Tinta, com raiz na comunidade do Pina. 

Curadoria

O texto curatorial, escrito por Rebecca França, diz que “a exposição parte do vocabulário das comunidades pesqueiras para refletir sobre a experiência humana do deslocamento”. E continua: “O artista Shell Osmo apresenta a necessidade de movimentar-se, agir, criar e navegar mesmo diante das muitas incertezas da existência humana. Enfrentar desafios é essencial, a despeito das garantias. A navegação, assim como a vida, tenta ser exata, mas nem sempre possui mapas precisos ou total controle, ambas são feitas de riscos, surpresas e imprevistos”. 

Shell Osmo escreve: “A gente joga a Garateia quando quer ficar, aportar.  A exposição  fala sobre isso: saudade, território, riscos e o peso das escolhas. O motivo pelo qual  voltamos, e o motivo pelo qual ficamos”. 

Tecnologia da comunicação

A curadora Rebecca França acentua que o percurso entre dois museus da cidade é uma ativação dos conceitos da “Garateia”. “Esse termo possui dois sentidos: o da âncora que segura a embarcação contra a correnteza, e o de anzol que fisga os que ali estavam de andada. A arte de Shell é tecnologia de comunicação que, assim como a concha do mar, guarda em si o eco das marés e a insistência da vida em permanecer permeada pela inventividade artística e cotidiana”, descreve. 

“GARATEIA: ONDE ANCORA A MEMÓRIA” (2026)

09 de maio (abertura) a 19 de julho: MAMAM (Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães)

Endereço: rua da Aurora, nº265, bairro da Boa Vista

Horários e dias de funcionamento: 12h às 18h (terça-feira a sexta-feira), e das 13h às 17h (aos sábados e domingos) 

Entrada: gratuita

As obras possuem acessibilidade comunicacional

10 de maio (abertura) a 07 de junho: Museu Cais do Sertão (3º andar, sala Moxotó)

Endereço: avenida Alfredo Lisboa, Bairro do Recife, Armazém 10

Horários e dias de funcionamento: 10h às 16h (de terça-feira a sexta-feira); 13h às 18h (sábado e domingo); toda última quinta-feira do mês o horário é estendido das 10h às 20h. 

Entrada: gratuita

As obras possuem acessibilidade comunicacional