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Produzido pelo ator, dramaturgo e sacerdote de candomblé Marconi Bispo, o Ọnà Dúdú completa praticamente seis meses de espera pelo pagamento do cachê da apresentação no Festival Recife do Teatro Nacional (FRTN), realizado de 21 de novembro a 1º de dezembro do ano passado (23ª edição), pela Prefeitura do Recife. Este espetáculo do Ọnà Dúdú aconteceu no dia 26 de novembro, em locais do centro do Recife.
O Ọnà Dúdú é uma itinerância histórico-performativa por quatro estações-territórios negros do Bairro do Recife. O circuito nas localidades do Recife Antigo tem como objetivo a busca pelo compartilhamento das histórias e presenças dos negros e negras na construção do centro da cidade, com a excursão sendo gratuita, levando 50 pessoas por dia para uma vivência artística na Cruz do Patrão, rua da Guia, rua do Apolo, comunidade do Pilar e Centro Cultural Apolo-Hermilo.
Vale destacar que as palavras Ọnà e Dúdú pertencem à língua africana Yorubá, falada principalmente na Nigéria. Ọnà significa rua, caminho, estrada, acesso, indicação, método, maneira e também forma de se fazer algo. Ọnà é arte, obra de arte e o nome de um rio africano. Dudú leva o significado de ser preto e negro.
O Ọnà Dúdú sempre traz para a programação artistas e coletivos negros, com arte, coletividade, dança, história, música, teatro e performance. Além do mais, este circuito é um espaço de criação artística, da coletividade e de expressão da identidade, onde as habilidades criativas são desenvolvidas juntamente com temáticas racial, social, de gênero, política, cultural e educativa.
A itinerância já foi celebrada três vezes, sendo a primeira delas em 2022, no mês de dezembro. A segunda vez ocorreu em março de 2024, pela Lei Paulo Gustavo/2023, por meio do Edital Multilinguagens – Recife Criativo, da Prefeitura da Cidade do Recife.
Os coletivos e as pessoas que conectam com o circuito são "Ara Agontimé", com Jamila Marques, Dandara Marques e Renata Mesquita, além das participações de aline sou e Juliana Zacarias na performance; "Circo Experimental Negro" (Hammai Assis e Rob Silva); Brunna Martins (atriz guia); Neris Rodrigues (musicista); Parrô Mello (músico); Thúlio Xambá (músico) e Marconi Bispo (ator).
Marconi Bispo elenca na pesquisa dados históricos, entre eles o de que Recife foi a cidade campeã em crianças africanas traficadas, 5º centro mundial e 3º do Brasil de tráfico escravista, e o de Pernambuco ter recebido o 1º navio negreiro em 1560, a pedido de Duarte Coelho, além do número de 853 mil pessoas trazidas escravizadas para Pernambuco e do fato de que o Recife tem na presença africana um dos elementos basilares de sua formação do que habita a cidade.
Todas as performances escolhidas para a experiência Ọnà Dúdú questionam que cidade negra é essa que, a despeito de tanta presença — até o fim do tráfico (1856) registrou em torno de um milhão de africanos e africanas — ainda se faz ignorada e invisibilizada.
A pesquisa também tem como questionamento: “Que caminhos essas pessoas abriram nesta cidade aquática? Onde esses caminhos desaguaram? Nós estamos reunidos por eles e elas. Toda uma cidade foi erguida a partir desta presença. Atuaremos como este rio africano chamado Ọnà, reabrindo sulcos nessa terra racista onde pisamos. Somos artistas negros e negras, cada qual movendo suas expressões artísticas a partir desta singularidade e ancestralidade. Nossa ação é escavatória, uma tentativa de fazer lembrar que as ruas (Ọ̀nà) deste bairro são negras, ontem e hoje”, comenta Marconi.
DESCASO
Em seu perfil, Marconi Bispo publicou: “Este não é um texto contra o 23º Festival Recife do Teatro Nacional. É um texto contra mim mesmo”. Confira todo o texto na íntegra:
“Pensei muito antes de tornar esse fato público. Porque sendo eu um artista/produtor negro posso estar acumulando dois prejuízos: o de estar há seis meses esperando um cachê acordado com a Prefeitura da Cidade do Recife/23° Festival Recife do Teatro Nacional; e, mesmo vítima, ser retaliado e perseguido pelos gestores de Cultura de minha cidade. Há alguns dias Marcondes Lima também se pronunciou. De antemão, já o agradeço pela coragem. Diante da divulgação dos cachês pagos a alguns artistas durante o Carnaval 2025, Marcondes questionou a Prefeitura sobre cachês dele/da sua companhia bastante atrasados.
Marcondes Lima é professor da UFPE, é um artista branco e goza de prestígio e de trânsitos na cadeia produtiva da Cultura que estou muito longe de alcançar. Eu o amo. Meu mestre e amigo. Porém, não confundam Marcondes Lima com Marconi Bispo. Não obstante ser o primeiro quem é, as humilhações chegam nele também. Mas ele não será açoitado|perseguido pelos gestores. Já eu...
Esse é um texto contra mim mesmo porque próximo 01 de junho completo três décadas como profissional das Artes. Isto deveria ser suficiente pr'eu ter aprendido: o descompromisso e desfaçatez dos gestores de Cultura de Recife não são novidades. Alguns desses gestores acompanham meu tempo nas artes — 30 anos! — em diversos cargos, diversas secretarias, diversas gestões. Há um traquejo institucional que os mantém nos lugares. Sempre. E há um tipo de artista que sempre sai perdendo. Por isso estou aqui, mais uma vez. Eles? Estáveis. Planando acima disso tudo — e de mim, que estou dando a eles ainda mais elementos para dizerem "olha o negro raivoso!". Chamo a atenção de vocês para esse jogo. Por isso é um texto contra mim: alimentei uma máquina|Festival que se utilizou de meu trabalho pagando muito mal e com bastante atraso, me pondo em constrangimento ante 20 profissionais que participaram do "Ọnà Dúdú — Caminhos Negros do Bairro do Recife" dentro do 23° Festival Recife do Teatro Nacional e, no fim de tudo, ainda serei retaliado|perseguido. É o modo de gestão cultural em Recife: faça a apresentação, seja humilhado recebendo 6 meses depois [talvez!], mas fique calado”.
Confira a itinerância - Bairro do Recife
Primeira estação: Cruz do Patrão. O que assombra aquele lugar a não ser esses dados e o triste quinto lugar mundial no tráfico de africanas e africanos? Nossa itinerância começa pela Cruz do Patrão tentando um outro gesto, distante do discurso folclorizado de lugar mal assombrado. A realidade é/foi histórica e a fantasia só nos servirá, aqui, para lembrar: chegamos da África por ali. Vivos, quase-vivos e mortos.
Segunda estação: comunidade do Pilar. Uma Pequena África? Que artistas negres lá residem? O que significa – no meio da comunidade! – uma Igreja Católica do século XVII ensimesmada em seu projeto colonial e circundada, por tudo e portanto, de tanta pobreza? Ao redor do Porto, do Cais, quantas existências negras reclamam uma história quando a própria História se nega a registrá-las?
Terceira estação: Teatro Apolo e rua da Guia. Na obra historiográfica “Òmìnira – mulheres e homens libertos da Costa d'África no Recife [c. 1846 - c. 1890]”, a professora Valéria Gomes Costa [UFPE] reconstruiu trajetórias de pessoas escravizadas no Recife oitocentista, sobretudo, as de "pretos/as minas" que conquistaram a liberdade e tiveram que se reinventar para viver/sobreviver na sociedade escravista de então. No livro, as ruas do Apolo e da Guia aparecem como lugar de trabalho e convívio de muitos negros e negras da África Ocidental, sendo o próprio Teatro Apolo arrolado na vida de um de seus personagens, o Domingos José Machado. Nesta Estação, estas histórias são pontuadas e revividas pelo ator Marconi Bispo e pelo músico Thúlio Xambá.
Quarta estação: espetáculo re_Luzir, do ator Marconi Bispo, no Paço do Frevo. Participa do espetáculo re_Luzir o músico Miguel Mendes, que também assina a trilha sonora original da peça. De outubro de 2016 a março de 2020, Marconi Bispo protagonizou o espetáculo autobiográfico Luzir é Negro!. Foram 39 sessões e, na última, saiu de cena para o isolamento por conta da pandemia, que acarretou o fim do espetáculo e de sua trajetória no grupo Teatro de Fronteira. Em seu novo projeto, a montagem re_Luzir, Marconi inaugura o início de projetos autônomos, fincados na elaboração de uma cena onde suas encruzilhadas afrográficas sejam percurso e performance. E se [nos] indaga: O que um ator negro tem a dizer/fazer/projetar nestes cruzos de tantos desafios, de tantas indefinições, de tantos medos? Quais as implicações destes percursos em sua existência – no tocante à sua subjetividade negra, sobretudo! — e que agora, pelo viés do teatro, torna-se documento para todes nós, "sobreviventes" destes tempos sombrios — mas que nos lançam tanta luz?
Veja dados históricos
Recife: quinto maior centro mundial de tráfico escravista. O terceiro do Brasil. [1°- Rio de Janeiro; 2°- Liverpool; 3° - Bahia; 4° - Londres e 5° - Recife].
Primeiro navio negreiro em Pernambuco: 1560, a pedido de Duarte Coelho.
853.000 pessoas foram trazidas escravizadas para Pernambuco [período que durou o tráfico: 1560 a 1856].
Recife foi campeã no tráfico de crianças africanas. Um caso: num navio capturado haviam 1.683 cativos, 1.033 eram crianças. [Muleke, do quimbundo, dependente.]
Estações
Estação 1 [Cruz do Patrão]: Ara Agontimé - Jamila Marques, Dandara Marques e Renata Mesquita; bailarinas convidadas: aline sou e Juliana Zacarias;
Estação 2 [comunidade do Pilar]: Circo Experimental Negro - Hammai Assis e Rob Silva; Lideranças comunitárias da comunidade do Pilar - Ana Cláudia Miguel e Adriana Santos;
Estação 3 [Teatro Apolo e rua da Guia]: Parrô Mello, Neris Rodrigues e Thúlio Xambá;
Estação 4 [Paço do Frevo/Espetáculo re_Luzir]: Marconi Bispo, Miguel Mendes, João Guilherme de Paula e André Xavier.
Publicado por:
Daniel Lima
Comunicador social & jornalista. De Caruaru/PE, criado no Recife. Atua com assessoria de imprensa artístico-cultural e atualmente é assessor de imprensa/mídias sociais do Coco Raízes de Arcoverde/PE.
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