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Edival Ramosa fez da experimentação uma dimensão central de sua obra, retomando continuamente formas, materiais e procedimentos em uma trajetória marcada pela circulação entre o Brasil e diferentes países ao longo das décadas de 1960 e 2010. Esse aspecto é retomado em Alfabeto Solare, nova exposição da Galatea, com abertura em 28 de maio. Sob curadoria de André Pitol, a individual reúne pinturas, esculturas, objetos e desenhos produzidos ao longo dessas quase cinco décadas. Parte do conjunto apresentado integrou a 36ª Bienal de São Paulo, marco recente do processo de retomada crítica da obra do artista.
Resultado de uma pesquisa desenvolvida por André Pitol nos últimos anos, Alfabeto Solare resgata trabalhos que permaneceram por longo período espalhadas por diversas coleções, no Brasil e no exterior. O conjunto propõe uma leitura relevante da obra de Ramosa, aproximando trabalhos que periodizam as elaborações e interesses estéticos do artista: “Acompanhar como Ramosa pensava a geometria nos anos 1960 e ver como essa investigação retorna décadas depois, em situações completamente diferentes, nos permite perceber a continuidade dessa pesquisa que se aprofunda ao longo do tempo”, afirma o curador. A primeira etapa da pesquisa do curador foi apresentada na exposição A parábola do Progresso, no Sesc Pompéia em 2022. A exposição, que teve coordenação curatorial de Lisette Lagnado, apresentou o núcleo documental “Afropindorama”, dedicado à produção de Ramosa.
A obra de Edival Ramosa foi profundamente marcada pela vivência em diversos territórios intercontinentais, no continente africano e também europeu. Entre 1964 e 1974, viveu em Milão, trabalhou nos ateliês de Lucio Fontana, Arnaldo Pomodoro e Enrico Baj, realizando naquela cidade sua primeira individual, em 1965. A convivência com o ambiente industrial e experimental da cidade italiana aparece na incorporação de materiais como madeira, aço inoxidável e plexiglass marcaram seu percurso e sua prática artística, em construções escultóricas e objetuais e que aproximam geometria, cor e experimentações com uma gama complexa de materialidades.
Associado à abstração geométrica, o artista fluminense desenvolveu uma obra marcada pela experimentação e pela pesquisa contínua da forma. Entre madeira, acrílico, papel cartão, entre outras materialidades, se formam composições circulares, diagonais, que tonalizam um vocabulário ora harmônico ora contrastante, mas acima de tudo, profundamente colorido e solar, indicado no título da exposição. A atenção às cores e formas também aparece na expografia, que remete a um comissionamento que Ramosa fez para uma barbearia em Milão, expandindo sua linguagem para o espaço arquitetônico.
Ao retornar ao Brasil, após intensa temporada no continente europeu, o artista manteve circulação por cidades como Cuiabá, Belém, Ribeirão Preto, Brasília e Ubatuba. Nesse período, sua obra passa a incorporar também materiais orgânicos e referências ligadas às culturas afro- indígenas.
“É difícil pensar a obra de Edival Ramosa a partir de trabalhos isolados. São peças que se desdobram em séries e variações, como se cada uma abrisse caminho para novas possibilidades formais dentro de uma mesma busca”, comenta André Pitol. A repetição e transformação de determinados elementos geométricos, assim como o uso intenso da cor, aproximam trabalhos realizados em momentos bastante afastados entre si.
O título Alfabeto Solare deriva de referências recorrentes na obra do artista. Entre elas está a escultura Estudo para o Sol (1969), concebida durante sua estadia italiana, apresentada recentemente na 36ª Bienal de São Paulo e agora reunida entre as obras centrais da exposição. O título da exposição também faz referência ao livro homônimo do poeta e crítico Guido Balla, interlocutor próximo de Ramosa naquele período. A expressão sintetiza a complexidade de um vocabulário visual com formas geometrizantes que atravessa sua obra e a dimensão cromática e luminosa presente em suas esculturas, projetos, desenhos e objetos artísticos.
Em Alfabeto Solare, a constelação de trabalhos evidencia como Edival Ramosa retornava continuamente a imagens, materiais e procedimentos, reorganizando elementos de sua pesquisa em fases distintas de sua trajetória. Revisitar esse conjunto dez anos após sua morte permite perceber um percurso avesso à ideia de conclusão, em que cada retomada reabria sentidos e instaurava novas possibilidades de leitura.
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