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Sexta, 01 de julho de 2022

Negras e Negros

Milton Gonçalves é cremado no Rio

Milton Gonçalves morreu em casa por consequências de problemas de saúde

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O corpo do ator e diretor Milton Gonçalves, ícone da TV brasileira, foi levado para cremação por volta das 15h50 desta terça-feira (31) no Cemitério e Crematório da Penitência, no Caju. Antes, parentes e amigos próximos participaram de uma despedida.

Mais cedo, aconteceu o velório no Theatro Municipal, no Centro da cidade.

Uma camisa do Flamengo, time de coração do veterano, foi colocada sobre o caixão. Fãs também deixaram uma bandeira e um boné e cantaram "Eu sei que vou te amar" ao final da cerimônia.

 

Maurício Gonçalves, filho de Milton Gonçalves — Foto: Henrique Coelho/g1 Rio

Maurício Gonçalves, ator como o pai, diz que Milton o ensinou a entrar em qualquer lugar "de cabeça erguida". Maurício lembrou a luta dele e de outro amigo e contemporâneo de seu pai pelo espaço dos negros no mercado de trabalho.

"Ele e outro sujeito que vou falar aqui, Joel Rufino dos Santos, batalharam tanto e não viram essa portinha se abrindo. Isso é a coisa que me deixa um pouco triste. Mas ele fez o que tinha que ser feito e tá lá no céu".

A filha Alda contou ainda que a família está preparando um documentário sobre a vida do ator.

"A gente está colhendo dados para um documentário dirigido pelo Pilar, contando essa história um pouco mais sobre o ponto de vista familiar, do pai amoroso, marido amoroso, do irmão que ele foi, e que ele é e que ele será para sempre ", contou. Segundo ela, o pai sabia da produção.

O ator Lázaro Ramos esteve no Municipal e relembrou que, recentemente, esteve no local para se despedir de Ruth de Souza e Elza Soares.

“É a pessoa que abriu o caminho para eu chegar onde eu cheguei. Se eu sou ator, se eu tenho alguma ativação política, é muito pela voz que ele abriu pra todos nós. A gente precisa aplaudir muito, porque ele contribuiu muito para a história artística do nosso país”, disse.

Lázaro Ramos no velório de Milton Gonçalves  — Foto: Henrique Coelho/g1 Rio

Lázaro Ramos no velório de Milton Gonçalves — Foto: Henrique Coelho/g1 Rio

Toni Tornado foi à despedida de roupa branca, um pedido que havia sido feito pelo próprio Milton.

“É muito difícil porque ele foi a pessoa mais importante dentro desse movimento. Eu só vim de branco porque ouvi isso dele: 'no meu enterro eu quero as pessoas de branco'. E eu não esqueci isso jamais, apesar de ser mais velho do que ele”.

O ator Antônio Pitanga, amigo de Milton desde os anos 50 e companheiro de cena durante toda a vida, lembrou da trajetória de ambos e definiu o ator como um "gigante".

"Gigante porque ainda em vida, saindo da vida para entrar para a história, continuou lutando. Uma nobreza daquelas que te banha de riqueza e de referência. Faz parte dessa luta nossa, que ainda travamos, seja do negro, seja da mulher, seja do indígena: o Milton estava lá".

“O legado que ele deixa é o legado que todo artista deve deixar. É um legado de amor, de esperança, de reflexão, sobre a gente, sobre a sociedade que a gente vive. Miltão não estava parado não, ele estava sempre ativo. Além de ser um grande ator, ele também lutava pelo movimento negro, pelos artistas, sempre se movimentou para ser mais do que um rostinho bonito na televisão. Eu levo só as melhores lembranças do Milton, como ator e como pessoa”.

Camisa do Flamengo e bandeira da Mangueira sobre caixão de Milton Gonçalves — Foto: Henrique Coelho/g1

Camisa do Flamengo e bandeira da Mangueira sobre caixão de Milton Gonçalves — Foto: Henrique Coelho/g1

Adeus aos 88 anos

Milton Gonçalves morreu em casa, no Rio de Janeiro, nesta segunda-feira (30), aos 88 anos.

Segundo a família, a morte do ator foi consequência de problemas de saúde que ele vinha enfrentando desde que teve um AVC, em 2020.

Na ocasião, o ator ficou três meses internado e precisou de aparelhos para respirar.

Veja alguns dos principais trabalhos de Milton Gonçalves
 
 
Conhecido por trabalhos marcantes em novelas como "O bem-amado" (1973), "Pecado capital" (1975) e "Sinhá Moça" (1986), o ator também venceu preconceitos e lutou pelo reconhecimento do trabalho dos negros, como lembrou o filho e também ator Mauricio Gonçalves (leia mais abaixo).
'O Bem-Amado': Ruth de Souza e Milton Gonçalves — Foto: Divulgação/Globo

'O Bem-Amado': Ruth de Souza e Milton Gonçalves — Foto: Divulgação/Globo

Nascido em 9 de dezembro de 1933, na pequena cidade de Monte Santo, em Minas Gerais, Milton Gonçalves fez mais de 40 novelas só na Globo, onde também atuou em programas humorísticos e minisséries de sucesso, como as primeiras versões de "Irmãos Coragem" (1970); "A Grande Família" (1972); e "Escrava Isaura" (1976).

Outros trabalhos de destaque do ator foram as séries "Carga Pesada" (1979) e "Caso Verdade" (1982-1986).

Sua atuação como Pai José na segunda versão da novela "Sinhá Moça" (2006) lhe valeu a indicação para o prêmio de Melhor Ator no Emmy Internacional. Na cerimônia, apresentou o prêmio de Melhor Programa Infanto-juvenil ao lado da atriz americana Susan Sarandon. Milton foi o primeiro brasileiro a apresentar o evento.

A última novela que o ator Milton Gonçalves participou na TV Globo foi "O Tempo Não Para" (2018), quando interpretou o catador de materiais recicláveis Eliseu.

Ainda criança, Milton se mudou com a família para São Paulo, onde foi aprendiz de sapateiro, de alfaiate e de gráfico. Ele fez teatro infantil e amador. Sua estreia profissional acorreu em 1957, no Arena, na peça "Ratos e Homens", de John Steinbeck.
Junto com Célia Biar e Milton Carneiro, Gonçalves formou o primeiro elenco de atores da Globo. Ele chegou à emissora a convite do ator e diretor Otávio Graça Mello, de quem fora companheiro de set no filme "Grande Sertão" (1965), dos irmãos Geraldo e Renato Santos Pereira.

"Não tinha inaugurado nada ainda. Os três estúdios, aquele auditório, pareciam para mim os estúdios da Universal. O primeiro salário foi 500 cruzeiros. E eu fiquei feliz", recordou Milton em um depoimento para a TV Globo.

Milton Gonçalves grava vinheta de fim de ano da Globo em 1997 — Foto: Acervo TV Globo

Milton Gonçalves grava vinheta de fim de ano da Globo em 1997 — Foto: Acervo TV Globo

 

Ator lutou por bons papéis para negros

 

O filho de Milton Gonçalves, o também ator Maurício Gonçalves, lembrou que o pai venceu preconceitos e lutou pelo reconhecimento do trabalho dos negros.

 

"Esse Milton que as pessoas não conhecem, batalhador. Nunca deixou cair a peteca no que tange aos filhos. O maior ensinamento meu pai me passou: ser guerreiro, nunca abaixar a cabeça a não ser para os sábios, mas lutar o tempo todo".

 Maurício Gonçalves, filho de Milton Gonçalves, desfila na Acadêmicos da Santa Cruz — Foto: Cristina Boeckel / g1

Maurício Gonçalves, filho de Milton Gonçalves, desfila na Acadêmicos da Santa Cruz — Foto: Cristina Boeckel / g1

Maurício disse que sempre teve o pai como herói. Quando criança, quando viu a personagem Zelão das Asas voando na novela ficou ainda mais impressionado.

"Ele sempre voou e gerou esses frutos. A gente tenta fazer o melhor possível, a gente tenta honrar essa memória do meu pai. A gente tenta fazer o melhor, mas é lutar para tentar chegar perto", disse Maurício.

Outras personagens como Rainha Diaba também foram muito marcantes. Era a época da ditadura, e Maurício diz que não deve ter sido fácil fazer um fora da lei, negro e homossexual, num tempo difícil, cheio de preconceitos.

Milton Gonçalves em 'O Mistério das Esmeraldas', de 1986 — Foto: Acervo TV Globo

Milton Gonçalves em 'O Mistério das Esmeraldas', de 1986 — Foto: Acervo TV Globo

Fonte/Créditos: Henrique Coelho, g1 Rio

Créditos (Imagem de capa): Filhas de Milton Gonçalves (E e D) choram diante do corpo do pai, ao lado de uma prima — Foto: Henrique Coelho/g1

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