Milton Santos completou 100 anos em 3 de maio de 2026. Nascido em Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina, filho de professores primários e alfabetizado em casa, construiu trajetória acadêmica que levou suas reflexões das salas de aula da Bahia a universidades de vários países, com obra dedicada a denunciar desigualdades e convocar à resistência política nas periferias.

Obras, frases e reconhecimentos

Em Por uma outra globalização (2000), Santos analisou a globalização como processo que, além de integrar, produz exclusão, concentração de riqueza e aprofundamento das desigualdades. Identificou também o papel da tecnologia e da informação em reforçar hierarquias e marginalizar populações.

Em As cidadanias mutiladas (1996) escreveu: “Não importa a festa que me façam aqui ou ali, o cotidiano me indica que não sou cidadão neste país.” A obra A Natureza do Espaço é citada entre seus trabalhos de referência. O reconhecimento incluiu o Prêmio Internacional Vautrin Lud (1994) e o Prêmio Jabuti (1995); recebeu títulos de Doutor Honoris Causa em instituições no Brasil, na França e na Espanha e foi Professor Emérito e titular no Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo.

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Espaço, filosofia e mapas

Santos afirmou que o espaço não é neutro, defendendo que ele configura condição de possibilidade da vida e se encontra racializado e fragmentado. Sua obra dialoga com autores como Frantz Fanon e Aimé Césaire ao colocar a territorialização da colonialidade e da brutalização social no centro da análise.

Os mapas invertidos e outras propostas cartográficas do autor — gestos que colocam o Brasil no centro ou viram a América de cabeça para baixo — são apresentados como dispositivos epistemológicos para romper hierarquias simbólicas e pensar a partir das margens. Sua produção é descrita como uma ética da insurgência e uma proposta pedagógica de descolonização; nessa leitura, a negritude atravessa sua obra como consciência crítica.

Trajetória internacional e ensino

Forçado ao exílio após o golpe empresarial-militar de 1964, Milton Santos lecionou em Toulouse, Paris, Massachusetts, Toronto, Lima, Lisboa, Tanzânia e Nova Iorque, entre outros locais. Essa experiência internacional é apresentada como fonte de ferramentas para sua proposta pedagógica.

O contato com diferentes espaços acadêmicos e políticos aparece ligado à ideia de aprender a desaprender e reaprender a partir das epistemologias do Sul, conforme referências à pedagogia da descolonização presentes no texto.

Impacto nas periferias e circulação de saberes

Billy Malachias chamou Santos de “geógrafo das quebradas”, expressão que destaca a aproximação de sua obra com as favelas, territórios negros e práticas populares. A geografia crítica de Milton Santos é mostrada como interlocução entre produção acadêmica e experiências concretas das maiorias excluídas.

A Ocupação Milton Santos no Galpão Bela Maré, na comunidade da Maré, no Rio de Janeiro, é citada como exemplo dessa circulação: ao aproximar documentos, fotografias e objetos pessoais do público das favelas, a iniciativa traduz o legado do autor ao colocar pesquisa e arte contemporânea em diálogo com a vida cotidiana das periferias.

O centenário é apresentado não apenas como memória, mas como chamado à luta pela cidadania plena do povo negro e pela transformação do espaço que hoje funciona como palco de exclusão em território de emancipação.

Foto: Geledés Instituto da Mulher Negra