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Não sei se você, leitor (a), já percebeu, mas quando se fala sobre periferia, o tema geralmente é associado à violência, à precariedade, à falta de estrutura, etc. Ou seja, periférico são aqueles espaços que foram usurpados, roubados e, portanto, estão marginalizados. Essas associações fazem sentido, sobretudo, quando pensamos sobre a necessidade de o Estado brasileiro priorizar políticas públicas específicas para determinado grupo social. Repare os pobres, por exemplo: sem uma política pública específica de distribuição de renda, teríamos um país formado por pessoas miseráveis. Repare os negros: sem uma política pública específica de ações afirmativas, teríamos um país dominado pelo estigma da escravidão.

Menos óbvias são as associações positivas com o termo periferia: abundância, potência, diversidade, talento, solidariedade também são características que significam os espaços periféricos. Ou seja, periférico também são aqueles espaços da excelência, e, portanto, da riqueza. Periferias são riquezas em estado bruto. Se pensarmos acerca das políticas públicas implementadas pelo Estado brasileiro, seria possível prever que as políticas públicas específicas voltadas a esses espaços de abundância, de potência, de diversidade, de talento, de solidariedade teriam um impacto de efeito multiplicador sobre o produto interno bruto, o famoso PIB. Embora possamos afirmar que as periferias sejam espaços constitutivos da riqueza bruta do Brasil, elas não aparecem nas prioridades do Estado brasileiro como política de investimento. E não aparecem porque, entre outras razões, as periferias carecem de representatividade na classe política. Quando fundamos a Escola Diplomática Periférica, sentíamos a necessidade de formar pessoas periféricas para serem Diplomatas do Brasil. E porque Diplomatas? Por definição, o diplomata é um cargo de representação do Estado brasileiro. Diplomatas exercem o ofício da representação do país. Independente do governo de plantão, se alinhados aos princípios desenvolvimentistas ou conservadores, o fato é que a representação do Brasil no exterior é exercida pelo Diplomata. Dada essa atribuição legal, cabe ao Diplomata brasileiro ser parte de uma sólida cadeia de comando que seja capaz de servir o titular do poder político, o povo brasileiro.

A maioria do povo brasileiro vive em espaços periféricos. Os espaços territoriais são mais visíveis. As regiões metropolitanos dos centros urbanos brasileiros apresentam características econômicas e sociais capazes de reduzirem o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) a níveis de países subdesenvolvidos. Mas há outros espaços onde estão a maioria do povo brasileiro. Os espaços racializados são aqueles lugares onde a marca de cor hierarquiza as relações sociais. Os espaços de gênero, por sua vez, são aqueles lugares onde a hierarquização decorre de uma suposta supremacia patriarcal. Há outros recortes periféricos. A Escola Diplomática Periférica, como vimos tem texto anterior, constitui um pensamento periférico a partir da teoria do sistema-mundo formulada pelo sociólogo norte-americano Immanuel Wallenstein. Nesse contexto, leitor (a), podemos afirmar que o Estado brasileiro é um país periférico. É, ou não é, tudo nosso?

Cesar Santos é fundador da EDIPE

FONTE/CRÉDITOS: Cesar Santos