Ficamos estarrecidos, claro, também por se tratar de jovens ricos, de escolas caras. Mas por que esse espanto? Aprendemos com modelos, com a nossa família. Primeiro, copiamos o que eles fazem. Com o tempo, esse comportamento aprendido se torna a nossa moral.

 

Mas, como as famílias estão ausentes, os jovens não têm em quem se espelhar. O espelho é diferente do modelo. Modelo é referência externa. Espelho é filtro, parâmetro, lapidação. Quem lapida esses jovens? Os influenciadores digitais, nesse mundo ignorante da internet. Lá não tem saber de causa, só expressão, sem filtro, do que se pensa. E o pensamento ali é tratado como coisa menor. Esses jovens sem filtro e lapidação ética e moral de suas famílias se espelham nos influenciadores, e a bagunça está armada. Soma-se isso à incapacidade de as escolas privadas organizarem um discurso humano: que seja antirracista, antiviolência, que preserve as diferenças e que, principalmente, cuide da integridade física e moral das crianças e jovens.

“A educação não resistirá se não for antirracista”
— Marcelo Cunha Bueno

As escolas da tal elite estão a serviço de um pensamento hegemônico, essencialmente branco, machista e eurocêntrico. Fica difícil que desenvolvam empatia, senso crítico, reflexão. Não porque não sejam competentes, mas porque não dialogam com o mundo. A escola é espaço de atravessamento, e o que nos atravessa hoje é a necessidade de nos tornarmos agudos em relação à violênciaMas, principalmente, assumirmos a nossa parcela de responsabilidade diante da barbárie que acontece em nossas relações.

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Eu, como educador e pai, assumo meu racismo estrutural para encontrar-me antirracista. Assumo meus privilégios, reconhecendo o que a minha pele me garantiu na largada. Eu, Marcelo, professor, só posso me abrir ao aprendizado daquilo que não sinto na pele e, humildemente, criar um lugar novo na minha vida para que a luta seja consciente e coletiva.

Se não fizermos a mudança em nós, assumindo o que nos compõe como sociedade e indivíduos, estaremos fadados a só nos espantar, a nos contentarmos com as notas de repúdio oferecidas pelas escolas. Por isso, devemos nos abrir, de verdade. Cultivar o amor e a escuta. Aprender com quem sempre foi silenciado e garantir presença sempre que formos chamados. A educação não resistirá se ela não for antirracista. A educação não resistirá se não tiver como premissa o amor, próprio, pelas pessoas e pelo mundo.

FONTE/CRÉDITOS: Crescer