Cáren Cruz, CEO da Pittaco Consultoria, consultora de imagem identitária e participante da 9ª temporada do Shark Tank Brasil, ressaltou que a aparência no mundo corporativo ainda é profundamente moldada por padrões sociais discriminatórios. Ela argumenta que a imagem transcende a mera escolha estética, configurando-se como um campo político, simbólico e interpretativo crucial para a identidade profissional e pessoal. Esta perspectiva é detalhada em seu livro "Quem Decide o Que é Elegante? Imagem, raça e poder na construção da aparência".

Afinal, o seu guarda-roupa realmente reflete quem você é? Uma pesquisa do The Panel Station revelou que aproximadamente 76% dos consumidores globalmente veem suas vestimentas como “muito importantes” para expressar sua identidade. Contudo, a linha tênue entre a autoexpressão e a pressão por conformidade social nos leva a uma indagação essencial: quem, de fato, estabelece os critérios do que é considerado elegante?

Essa reflexão é o cerne do trabalho de Cáren Cruz, que em sua obra “Quem Decide o Que é Elegante? Imagem, raça e poder na construção da aparência”, explora profundamente os padrões históricos que definiram conceitos de "sofisticação" e "adequação". Com sua vasta experiência, a consultora de imagem identitária desvenda os mecanismos sutis por trás dessas convenções sociais.

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A imagem como campo político e simbólico

Para além das tendências de moda, Cáren Cruz propõe uma revisão crítica da construção e interpretação social da imagem. Ela enfatiza que a consultoria identitária transcende o simples vestuário, iniciando-se na compreensão da leitura social. Isso implica reconhecer que, particularmente para indivíduos de corpos racializados, a imagem não é meramente uma escolha estética, mas um complexo campo político, simbólico e interpretativo.

“O corpo serve como contexto, e o olhar social como ponto de partida”, afirma Cáren. Ela complementa que a identidade se molda na tensão entre a auto percepção de uma pessoa e a interpretação que o ambiente social insiste em atribuir a ela.

Com essa ótica, Cáren levanta questionamentos fundamentais: quem são os intérpretes da imagem? Qual repertório cultural embasa essa interpretação? Que significados sociais são ativados por cores, texturas e volumes específicos? Como esses elementos são percebidos em diferentes tipos de corpos e quais códigos de raça, classe e território moldam essa leitura?

Desafios da diversidade fenotípica brasileira

A especialista também ressalta a vasta diversidade fenotípica do Brasil e os desafios impostos pelos padrões estéticos universalizantes. Ela explica que o país, fruto de complexos processos de miscigenação e formação cultural, possui uma singular diversidade cromática. “Em peles negras, por exemplo, observam-se inúmeras variações de subtons quentes, frios e neutros, com camadas pigmentares que reagem de forma distinta à incidência de diferentes cores”, pontua.

Nesse sentido, Cáren argumenta que a declaração de que algo “não é elegante” ou “não é sofisticado” frequentemente indica apenas que tal imagem não se alinha ao repertório cultural dominante. Utilizando a semiótica, ela demonstra que a aparência opera como uma linguagem social, onde os signos visuais não carregam significados imutáveis. Pelo contrário, são interpretados dentro de sistemas culturais que definem o que é apropriado, belo ou legítimo. Dessa forma, uma consultoria de imagem que aborda elegância e sofisticação como categorias objetivas corre o risco de universalizar normas culturais específicas, transformando-as em critérios absolutos de avaliação estética.

Essa análise se torna ainda mais pertinente no contexto atual, onde conceitos como quiet luxury e minimalismo corporativo ressurgem nas discussões sobre imagem pública. Contudo, em vez de democratizar o acesso ou simplificar as interações, a reedição desses códigos contemporâneos tem, na verdade, disfarçado os mecanismos de diferenciação social, tornando as barreiras existentes ainda mais sutis e intrincadas.

“A consultoria identitária não visa criar imagens perfeitas ou que obtenham aprovação universal”, conclui Cáren. “O propósito é edificar presenças visuais que sejam coerentes, conscientes e devidamente contextualizadas, reconhecendo tanto a singularidade do indivíduo quanto o campo social no qual essa individualidade se manifesta.”